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Há muito tempo sabia que existia um grande lago, bem longe dali, daquele local inóspito, seco, isolado, apenas com uma casinha e sua roça de vegetação rasteira. Um dia, acordou-se depois da meia-noite e no começo da madrugada, a escuridão ainda dominando tudo, acendeu os candeeiros e velas, iluminou o interior da sua casinha, cozinhou alimentos e procurou outros objetos pequenos, arrumando tudo dentro de um bornal. Vestiu-se e calçou suas sandálias novas, de couro. Colocou o chapéu na cabeça, abriu e depois encostou a porta já do lado de fora e seguiu. Sabia que era para lá, naquela direção, atrás daqueles montes tão distantes. Caminhou muito e dormia embaixo de árvores ou apenas olhando o teto de nuvens, lá no alto. Depois de muito tempo, seus cabelos e barbas cresceram muito e já trazia na mão direita, um pau, uma espécie de cajado, com quem ele, vez por outra, conversava, compartilhando dores, alegrias, tristezas, esperanças e desencantos. Para além dos montes que avistara de sua casinha, divisou descampados e outros montes. "Isso não tem fim?", perguntou, olhando o cajado. Imaginou que ele respondera: "Tem sim, mas é preciso caminhar mais". Sentou-se no chão de terra, sem resignação e quando ergueu-se, desistiu da viagem, retornando pelo mesmo caminho. Foi difícil encontrar sua casinha, mas encontrou. Empurrou a porta, as coisas estavam nos mesmos lugares e recomeçou sua vidinha anterior. De vez em quando, parado, seus olhos brilhavam de novo, olhando lá longe, aqueles montes. Existia um lago não somente além deles, mas de outros e de outros; agora sabia. Quem sabe se um dia retornaria ao caminho? Encostado em um canto da parede, cheio de poeira e já escuro, o cajado parecia sorrir.
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