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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.


Célio Nunes


Os dois batismos



Agripina, esse era o seu nome. Nome próprio, oficializado, por escolha dos seus pais, no cartório de registro e na pia batismal, na Igrejinha do seu povoado, que depois virou cidade.Ali fora o seu primeiro batismo, porque, depois, muito tempo depois, acontecera outro. Mas cada coisa a seu tempo, não gosto desses contadores, onde já se viu? que conta logo de início o desfecho da história. Gente mais sem graça, verdadeiros desmancha-prazer. Aí o leitor, leitor sempre é raça curiosa, indagará: e pode a pessoa ser batizada duas vezes? E vai recorrer aos canones da Igreja Católica Apostólica Romana e às leis de outras religiões, também ditas cristãs e que praticam o batismo dos seus fiéis. Ou até de infiéis, que muitos se dizem isso e aquilo, mas não são nem isso e nem aquilo. Quem vê cara, não vê coração, o traje não faz o monge, raposa disfarçada em pele de cordeiro...Se quizesse, desfiava fieiras e fieiras de ditos e ditados sobre isso... Mas a conversa. aqui é outra....

Então, Agripina, moça mocinha, residente nesse povoado do Poço de Dentro, no interior de um estado nordestino. Desde cedo fora dedicada aos cuidados com rezas, missas e ao serviço de arrumar a Igrejinha, enfeita-la, dar assistência aos padres que apareciam por lá (até dizem, teve um, viu? que falaram nos cochichos...mas, deixa pra lá, esse povinho linguarudo fala demais).Mas de uma coisa ela era mais dedicada, apaixonada mesmo: era pelas novenas para São João Batista e pela sua procissão (e olha que a Igrejinha era dedicada a outro santo mas João era o preferido do povoado). A imagem do Santo do carneirinho acomodado nos braços, era a mais limpa, chega brilhava no altar; flores e velas nunca faltavam aos seus pés. Fitinhas coloridas, mais para brancas, azuis e vermelhas. E Agripina conhecia muitas orações, penso que ela mesmo inventava algumas da sua cabecinha, somente sei que São João Batista era o mais querido da moça.

As novenas da Igrejinha eram bem freqüentadas e vinha gente até de longe, de outros povoados, para participar, no mês de junho, quando ocorria também a procissão. Fiéis e todo o povo, até a parte que não punha os pés na Igrejinha, nem ligava para os rituais, quando do tempo da festa de São João, se alvoroçava todo, organizando forrós, enfeitando as ruas e arraiais com bandeirinhas de papel colorido, faziam fogueiras e entornava muito licor e muita cachaça.Aí Agripina encrespava e falava pra quem quizesse ouvir, que muita gente só gostava mesmo era da festa. Não tinha, feito ela, o Santo no coração durante todo o tempo. E não participava da festa, não contassem com ela para folias facilitadoras do pecado...o rala-coxa do forró, os casais se esfregando por aí mesmo, à vista de todos ou nos escurinhos, a gula sem estilo e comedimento, no comer cangicas, milho assado, pamonhas, a cachaçada exaltando corpos e espíritos.

Agripina só gastava suas energias no organizar as novenas e a procissão, para as quais pedia auxílios pecuniários, indo de porta em porta com um livro ensebado onde anotava as contribuições.”Para a Igreja”, fazia questão de explicar, não tendo nada com as festanças, que ela considerava coisas pagãs.E assim vivia Agripina, sem ligar para namoros, dizendo aquelas más línguas que ela mantinha encontros suspeitos com alguns, de tempos em tempos, sem a exigência constante e de horários e locais certos e entre esses alguns, dizem, figuravam um ou outro padre ou padreco, que às vezes vinham visitar a Igrejinha, uns de pouca idade.

O tempo, que não é brincadeira, quando vê, ele passa tanto que os dias viram meses e anos, os anos em décadas, êta ferro!... Pois que não é que o povoado virou cidade, com prefeito e tudo o mais e daquela vilazinha, com todo mundo conhecido, hoje restam poucos da época relatada de Agripina moça mocinha...Passaram-se, deixe eu vê...coisa assim, de mais de quarenta ou cinqüenta anos, puxa vida! A Igrejinha sumiu dentro da cidade, é apenas uma construção bestinha perdida entre prédios, supermercados, lojas, uma grande Igreja Matriz e outros templos nos bairros, ruas, praças, casas comerciais, escolas, buates, motéis, bares e shows. Ligeiro, bote na mente que a história já está indo pro principal, atine que esse tempo que narro agora já é todo diferente, os modos roceiros de antes se acabaram mas não de todo, sempre vai ficando algumas coisas do passado,modos e costumes simplezinhos.

A Igrejinha agora só vivia fechada. Vez por outra, vinha um padre e rezava missa, batizava alguns de uma só vez e pronto. Novenas de São João, ninguém mais falava. Do Santo, famoso, no antigo povoado, hoje um simples bairro, só se via falar nos arrasta-pés e fogos barulhentos. A cidade engoliu.sem dó e piedade, o pequeno povoado e na área em que ele existira,dos seus antigos moradores, somente poucos residiam por ali. E, incrível, algumas casinhas daquele tempo resistiam, com seus velhinhos e famílias pequenas. Entre esses, restava também Agripina.antes moça mocinha agora uma velhinha enrugada, magra, cabelos raros e brancos, morando sozinha, porque seus pais haviam morrido e outros parentes se mandaram por esse mundo de meu Deus. O mundo é grande e nele, anjos e demônios se perdem por aí.

E Agripina, morando sozinha, vivia pobremente de uma pensão herdada ou arranjada não se sabe como. Novamente as más línguas caluniavam: a pensão fora arranjada por um certo político que tivera intimidades com ela, quando da sua mocidade. Mas ela saia muito e ninguém sabia o que fazia por essa cidade, e, se fosse dar crédito à palavra da dita-cuja, freqüentava várias igrejas católicas, inclusive a grande, a Igreja Matriz, a mais vistosa. Durante todo esse passar do tempo, uma história que muita gente não acreditava, circulava, mas hoje em dia poucos se lembram e comentam. Era a de que Agripina era dotada de poderes extras, fora contemplada com uma graça, dizem que justamente de São João Batista, de, vez por outra, conversar e receber o Santo na sua casinha, onde, além de baterem papo, rezavam. Ela lacônicamente confirmava, outras vezes não, mas até se encarregava de levar pedidos e recados para ele, de conhecidos e outras beatas. Baixando os olhos, aceitava contribuições para manter o altarzinho que possuía em casa, com flores frescas e velas acesas.

Todos ficaram surpresos foi quando souberam, através de notícias levadas de boca em boca e até de noticias de notas em um jornal, do caso, este: Agripina , depois que a cidade engolira o povoado, nos meses de maio e junho, vivia pelas ruas distantes de onde morava, indo de porta em porta, com uma moldura com a figura de São João Batista meio enrolada em um pano branco, de cambraia, segurando-a com o braço esquerdo, enquanto com a mão direita recebia eventuais esmolas e ajudas para uma tal novena dedicada ao Santo do carneirinho.Mas ninguém sabia quando e onde eram rezadas essas novenas. E se as tais notícias circularam foi porque o corpo de Agripina fora encontrado afogado no hoje pequeno e quase seco Poço de Dentro, situado na área do antigo povoado. Afogamento, explique-se, provocado, motivando diligências policiais e inquérito (logo arquivado) e jura-se que fora um vulto enrolado em um lençol ou num chambre. Ou mesmo nessas vestimentas dos árabes que se vêm nas revistas e no cinema. Cujo rosto, era igualzinho ao de São João Batista das imagens, segundo testemunha de um menino que vira tudo e de outras pessoas, mas que eram consideradas suspeitas de maluquices, porque viviam nas ruas. Depois que exclamara que iria batizar Agripina na água daquele poço, o Santo pegara com as duas mãos a cabeça da mulher e baixara para dentro da água, até ela morrer.

Inventara-se, depois, a história que fora o Santo indignado porque a mulher depois de tanto tempo de dedicação e intimidade que ele lhe concedera, passara a explorar o seu nome para pedir dinheiro para novenas inexistentes, na verdade o peditório destinava-se a reforçar a sua pequena pensão, à modo de garantir a sua sobrevivência. O caso gerou várias discussões e, além da maioria que condenava Agripina por usar o nome do Santo em vão, outros a defendiam argumentado que ela, que tanto servira ao Santo durante toda a sua vida, agora vivia sofrendo privações; para se sustentar achara que não seria nada demais que o Santo a ajudasse na sua manutenção. Era assim como uma retribuição aos serviços prestados durante toda uma vida. Então ficou assim: se uns a chamavam de sonsa, enganadora e espertalhona, havia também esses incréus que estavam magoados com o Santo, chamando-o de ingrato e de outros nomes que não ouso dizer. Que o leitor julgue por si mesmo essa história, se é que ela é verdadeira.




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