Réquiem para José Eleutério
“Cachorro”. Agora estava ali, estendido no caixão, no meio da sala, todo aprumado, barbeado, cabelos pretos escorridos bem penteados (parece que passaram até brilhantina), todo bem comportado, só assim ficaria quieto. Era um defunto decente, sem nada de grotesco. O rosto liso não denunciava os anos que tinha aquele corpo safado: sessenta. Sessenta aninhos, como dizia. E comentava, gozativo, que nunca tivera as crises dos trinta, dos entas, dos cinqüenta, dos sessenta e por aí vai... E, fingindo-se teatralmente de tétrico, clamava: “eu vivo eternamente e em crises”, concluindo que “assim eu me justifico de beber muito, beber como uma terapia, porque, inclusive, fica mais barato que procurar um psicanalista...” Quá, quá, quá, sua risada safada e ao mesmo tempo triste, era uma das suas características. “Danado, nem isso a vida soubera lhe castigar: não lhe deras rugas, tinha o rosto de bunda de anjo, doenças brabas nem nada, nenhuma operação cirúrgica besta, somente aqueles momentos de desespero, que era as piores coisas, os piores momentos das suas existências, dele e dela, difíceis de suportar...” Aí passava os dias em casa, xingando a Deus e o mundo, não lhe batia, isso não, às vezes até chorava como um menino e lhe pedia proteção. Proteção pra quê?Esse canalha já era protegido, por Deus ou pelo Diabo. Ou pelos dois, Deus que me perdõe, amém. Ela é quem precisava de proteção, sempre sofrida, sempre doente, sempre se queixando da vida e de dores, mesmo sem exagerar no que comia e sem colocar nem um pingo de bebida alcoólica na boca.Ele pulava de emprego em emprego, mas sempre encontrava um para se virar, como dizia, na sua linguagem geralmente simplória, escondendo no falar simples, as vezes vulgar, os anos e anos de estudos e leituras. Nunca passava e nem deixava a família passar necessidades. Mas bebia, o desgraçado, e vez vez, e cada vez mais, dias e dias desaparecia, sabe Deus onde. Antes eram bebidas mais leves, mas que ele bebia tanto que conseguia se embriagar. Agora (agora não, já está morto estendido no caixão, quieto, enfim), ultimamente dera para beber de tudo: genebra, cachaça pura, uísque sem gelo e de qualquer marca, vodka, tudo, enfim. E depois caía de cara na cerveja, que misturava com todas as bebidas que aparecessem. “Sem-vergonha”, fizera-lhe passar maus pedaços. De onde saíra tanta gente pra seu enterro? Foram mais de trinta anos suportando essa peste. E foram mais de cinco anos sem homem na cama, sem sexo. Somente um corpo ali ao lado, quase sempre roncando feito um porco, exalando cachaça e suor. Não sabia como suportara. Tanto tempo.Os meninos?Não, não foram os meninos, também era mulher de trabalhar e ele, sabia, não se negaria a ajudá-la em caso de separação.Parece que gostava mesmo desse cachorro.Era isso, sim. Talvez por costume, talvez por gosto mesmo, de amor. Amor. E amor pode ser assim? Amor era isso? E aí seus olhos ficaram molhados, com as lágrimas que teimavam em vir Mas nunca lhe perdoara aquela vida. Especialmente aquelas crises. “Cachorro. Bandido cachaceiro.” Perdera a força de homem por causa da cachaça ou será que trepava pela rua? Muitas vezes sentia pena, mas depois somente ódio, mas um ódio misturado com esse amor que fazia com que ficasse grudada no filho da puta. E o desgraçado ainda se dizia infeliz nas vezes em que se desesperava, mas sempre com dinheiro, valorizavam o seu trabalho, saía de uma firma para outra, às vezes retornava para antigos patrões e lhe pagavam razoavelmente bem. Só que a metade (ou mais, quem saberia?) ele gastava na gandaia, na cachaça. Disseram-lhe algumas vezes que o viram sozinho em mesas de botequins, dos piores botequins. “Canalha”. Aprontava-se todo, barbeado, sapatos brilhando, meias novas confortáveis, a maior parte do tempo andava de terno e gravata. E com as unhas limpas, tratadas. Usava água de colônia e outras vezes perfume de alfazema ou de outra flagrância. Cheiroso. Bonito. Simples, comportado, estirado no caixão de madeira, sem mover um dedo, somente no rosto, dos lábios finos, o contorno da boca parece que se alargara mais nas extremidades se encompridara um pouco e um laivo ou sugestão de sorriso irônico parecia aflorar, no rosto sereno, todo perfilado, parecia um morto comum, o corpo de um homem que fora bem comportado e cumprira suas obrigações e nada tinha a temer com a morte, respeitador da moral e da família. “Safado.” Será que estaria enganando a todos nós? Uma vez (a lembrança viera por causa do imaginário sorriso) ele lhe contara uma história de um romance de Vitor Hugo, “O Homem que Ri.”Fora assim: um homem, um tratante, um bufão de feira, das feiras antigas, bem antigas, que ganhava dinheiro fazendo gracinhas para o povo, rasgara propositalmente a boca de um menino, de um lado e do outro da boca, formando um rosto caricato, de uma pessoa que estava sempre a sorrir. E assim ele cresceu e assim continuou a ganhar a vida, exibindo a deformação em público. Ele, o “o homem que ri” matara o seu “criador?” Esquecera-se e também lhe dizia dos poemas que mais apreciava. Mas depois se embriagava e estragava tudo. Comia e dormia. Feito um porco. Não sabia como encontrava forças para trabalhar. Também, vez por outra, por causa das faltas, perdia o emprego, ainda mandando o patrão para “aquele lugar,”dizia sorrindo, canalhamente. “Cachorro”. “Safado”. “Peste”. Até a morte fora boa para com ele: fora rápida, fulminante, o coração parara de repente, como ele queria. “Filho da puta.” Vão levar o seu corpo, deitado dentro do caixão. Já colocaram a tampa. “O filho da puta está sorrindo mesmo.”Até é capaz de ir para o céu, quem sabe? Em todo caso, não era uma má pessoa.
As lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Maria das Dores quando os homens levaram o corpo do seu homem, José Eleutério, para o cemitério. “Deus o tenha, eu lhe perdôo tudo, seu cachorro.”
Do livro de contos, “Réquiem para José Eleutério”, 2000-Aracaju-SE
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