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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.


Célio Nunes


Roteiro-tema para uma ópera:
um camponês cheio de paixão e poesia



Sebastião da Silva Santos – simplesmente Tião no convívio do seu povoado. Morava com um tio, Seu Silva, que possuía um sítio onde plantava mandioca, feijão, milho, uns pés de maracujá em varais ao lado da casa, criava galhinhas em cercado e possuía no seu pedaço de terra algumas árvores frutíferas. Animais: dois jegues, um cachorro, duas gaiolas de passarinhos. Seu Silva trabalhava até o entardecer, às vezes, até no domingo, se fosse preciso.Herdara o sítio do seu pai e era considerado um privilegiado naquele pequeno mundo. O que sua terra produzia,que além das obrigatórias,ainda plantava hortaliças,ele vendia tudo na feira de Itaporanga e vez-vez,contratava outro ajudante quando o trabalho aumentava, mas no dia-a-dia, era ele, a mulher, os dois filhos e o seu sobrinho Tião, que aguentavam o rojão. Quando a sua irmã, que morava ali perto, fora largada pelo marido (um sujeito sem-vergonha, definia Seu Silva), com um filho de dez anos ainda precisando de atenção, ele acolhera a irmã e o menino, mandara que vendessem o barraco em que moravam e viessem para o sítio, com a obrigação, fora bem claro, de trabalharem, mãe e filho, nas lides da casa e da terra.

O menino sabia ler, fazer contas e escrever uns garranchos e deixara que ele ainda freqüentasse, durante mais uns dois anos a escola rural, que ficava não muito longe, mas, também, não muito perto, pela manhã, como compromisso de retornar logo e se incluir o resto do dia no trabalho.

Desse jeito, Tião fora criado e se tornara um homem, morando conformado nesse sítio, passando o seu tio a lhe pagar,todas as quinzenas, uma pequena quantia em dinheiro e deixando que fizessem um quarto-casinha pegado à casa maior, para a mãe e filho. Foi aí que a irmã do Seu Silva morreu, ninguém sabe de que mesmo, deu um piripaque, o coração pifou. Como era costume naquelas bandas, os rapazes, assim que criavam buço, iam embora para a capital ou pra outras cidades cheias de casas (“ninguém quer ficar mais no meio do mato”, repetia Seu Silva, na sua sabedoria). Tanto que, realista, com Tião fazendo 23 anos e com a mãe morta, perguntou-lhe: Quer ficar, trabalhando duro, ou quer ir embora também? Ajuntou à indagação, que não queria ninguém forçado ali, o exemplo é que um dos seus filhos viajara para nunca mais voltar. Tião disse que preferia ficar, se o tio deixasse, pois não era de muitas aventuras e mudanças, já soubera que as cidades ficavam cada vez mais confusas. Posando de cima de sua sapiência, seu Silva balbuciara, apenas: Pois então... o que era um modo de dizer que aprovava e até ficava satisfeito com a decisão do sobrinho.Além do costume da convivência, na verdade Seu Silva precisava mesmo da força de Tião no trabalho do sítio-roça.

Nesse tempo, deu-se o encantamento de Tião. A menina Lurdes Maria, moradora de uma roça-rocinha, pertinho dali, gente conhecida da família do Seu Silva, quando o riacho das Marrecas secava na parte que passava perto da sua casa, vinha lavar roupa e buscar água do lado da roça do Seu Silva. E foi aí que um dia, já de tardinha, Tião andava por ali, quando viu bem pertinho a menina Lurdes Maria tomando banho, nuinha, no riacho. Escondeu-se atrás de uma moita e ficou olhando, paralisado, o corpo da mocinha, branco, branquinho, os cabelos molhados, a boca abrindo-se cheia de água, os peitos pequenos empinados, duas frutas explodindo, as pernas bonitas e aquele tufo de cabelos pretos entre as pernas. Sem saber, Tião virou poeta desde aquele dia, pois ficou criando frases no seu cérebro, frases simples mas que aguçavam todo o seu corpo e a sua vida tomou outro sentido. E começou a sonhar. Do alto da sua sabedoria, Seu Silva atinou para essas mudanças no sobrinho e recomendou, como quem não queria nada, que ele vez por outra fosse na rua do mulheril, lá em Itaporanga, e lhe dava um dinheirinho a mais do que o habitual.

E Tião agora cumpria outro ritual, escondido de todo o mundo ficar arrodeando aquele trecho do riacho, tendo somente mais uma vez visto a moça nua.Mas, nas outras vezes, a vira lavando roupa com as coxas descobertas, ou carregando uma lata dágua com o vestido molhado, o que realçava a beleza de Lurdes Maria.

Foi-foi que, um dia, e outro e mais outro, mais para o caminho de cima, encontrara-se com Lurdes Maria procurando conversar. Nessas tentativas, Lurdes Maria cortava a conversa, dizendo: apareça lá em casa, vá visitar minha família.As noites de Tião, agora mais tempo acordado na cama, não eram mais sozinhas, a imagem da moça com sua nudez e seu tufo de cabelos pretos entre as coxas, atanazava a sua mente e agonizava o seu corpo.

Sebastião da Silva Santos, Tião, envolveu-se completamente nesse encantamento e tudo se transformou na sua vida. Aparentemente, continuou com as obrigações de sempre, obedecer as ordens do seu tio, fazer o trabalho na roça, cuidar dos animais, ir à feira de Itaporanga, uma ver por semana ou então levar produtos ou comprar outros em outros sítios, roças ou fazendas ali pela região mesmo. Mas, dentro de si, lá no fundo do cérebro e no seu corpo, sentiu que aconteciam coisas mesmo que ele não quisesse. Na verdade, Tião agora tinha duas vidas paralelas:uma, a real, a rotina diária e a outra, o sonho, o encantamento comandado pela presença fugaz da realidade.E bem contudente, uma coisa aguda que estraçalhava a sua existência e, ao mesmo tempo, lhe proporcionava momentos de prazer, o elevava da rotina para mundos ignorados por Tião, até aquele tempo. E é por isto que Tião virou poeta. Desde então, deu para cantar canções e trovas de amor, deu pra ler cordel, na feira (“perdia tempo”, no dizer do seu tio) ouvindo tocadores de violão e pensando ou balbuciando frases elogiando a beleza de uma moça que possuía um corpo lindo, as coxas nuas com um tufo de cabelos pretos explodindo entre elas, o rosto pequeno com o nariz e a boca ofegante cheia de água. Branca, branquinha, a sua pele nua, que ele pensava macia mas nunca a tocara, somente nesses sonhos, nesses pensamentos sem caminhos certos,com destinos prazerosos ou torturantes, é que o corpo dessa moça se envolvia com ele e lhe provocava emoções nunca antes sentidas.

Seu Silva, homem que se considerava de muitas sabedorias, a esse tempo já notara as mudanças de temperamento do seu sobrinho, que mesmo sem anunciar, todos sabiam que ele gostava como se fosse um filho predileto e farejando aqui e ali, notou a admiração que o rapaz demonstrara por Lurdes quando, certa feita, viera à sua casa, acompanhada da mãe, em visita à sua mulher.Coisas de mulheres, panos e vestidos, comidas e remédios do mato para essa ou aquela doença. E Seu Silva começou a agir sutilmente, vez em quando fazendo uma visita ao compadre da roça vizinha, indo acompanhado de Tião. Treitas e manhas do Seu Silva. Conversas ao pé do ouvido do compadre. “Esses dois, hem compadre?...Tão no ponto de se casar... bom que fiquem por aqui mesmo, dando uns meninos pra gente e, o melhor, trabalhando nas nossas roças...oxente, e isso aqui não será deles mesmo?... O compadre até que atinou na sugestão do arranjo, bom para todo mundo, ora senhor. Também não sou burro, Silva.

Seu Silva, outra vez, soprara nos ouvidos do compadre: Pois é, de repente surge um marmanjo aí e leva sua menina pra longe e meu menino inventa de ir embora com uma qualquer por aí... E envolveram na trama de juntar Tião e Lurdes Maria, as duas mulheres, já requesitadas para alcoviteiras em defesa da união das duas famílias e das roças.

A mãe de Lurdes Maria, ao abordar a filha, cercando-o devagarinho, como se fosse uma coisa surgida assim-assim, tivera uma decepção ao ouvir de Lurdes Maria: Tião é um bom moço, mas tão sem graça... e fez um muxoxo. Pois eu pensei... e a moça respondeu: Pensou, quem vive me arrodeando é ele, eu finjo que nem percebo as intenções”. Daí em diante, quando soube do pensa- mento de Lurdes Maria sobre seu sobrinho, Seu Silva teve, depois de anos e anos, uma forte dor de cabeça, não admitia que aquela cabritinha dissesse que o sobrinho não tinha graça, vai ver já anda aí pelos matos se deitando com al- gum ou alguns, o que meu filho... digo, meu sobrinho, tem, é respeito. É isso.” E falou pra Tião que ficasse mais ousado com Lurdes Maria, essas meninas de hoje gostam de uns apertos, desculpe eu dizer isso... Tião apenas respondeu: E por que isso, agora?, uma resposta que denunciava que na verdade ele estava vivendo “nos ares” quanto as providências, tramas e conversas entre as duas famílias. Ora, disse Seu Silva e olhou espantado para o sobrinho, descobrindo que ele estava mesmo encantado, fora da realidade, nem percebia que deveria colaborar e “atacar” para consumar o casamento.Talvez fosse isso o sem graça dito pela menina do compadre.Nesse dia, parou de trabalhar mais cedo e foi para casa, deitando-se na rede da varandinha da casa,balançando-se de lá pra cá. A mulher ouvira ele resmungar, puxando a fumaça de um cigarro: ....mundo, mundão, mundinho... e depois: Ah! se fosse eu...

E tudo ficou assim, meses e meses, nas negaças de Lurdes Maria, no aparente alheiamento de Tião, cada vez mais aéreo, mais sonhador e os meses passando ,quando um dia...

...numa moita bem cheia de ramos e plantas, debaixo de uma grande árvore copada, ali no escondido, uma furna, um ninho, feito de palhas secas de ,coqueiro e folhas também secas, Tião avistou, divisou e sentiu no olhar a realidade perfurando o cérebro, espírito, corpo e todo o seu ser:Lurdes Maria, nuinha, deitada ali, embaixo do corpo do negro Clemente, trabalhador de uma fazenda dali de perto, os braços envolvendo o pescoço do rapaz, soltando ais e outros gemidos e com ele cavalgando aquele tufo de cabelos negros, que Tião não via, mas adivinhava.As coxas erguidas de Lurdes Maria abriam-se para o cavalgar ritmado de Clemente. O coração batendo forte e corrido, o cérebro anuviado, Tião ainda parou olhando a cena, depois recuou e, em passos largos, retornou para casa, bebeu um copo d´água e foi andar pela roça. Ainda ouviu sua tia perguntar: Quer alguma coisa, meu filho?..., mas fez que não ouviu.

Foi parar bem no local onde o riacho fazia uma barriga, alargava-se firmando um ponto de preferência para lavagem de roupas, de cavalos, bebedouro de animais e aves e para banhos de gente. Fora ali que vira pela primeira vez a nudez de Lurdes Maria e entrara em encantamento. Inauguração do seu sonho. Molhou os pés nas beiradas do riacho e quando procurou um lugar para sentar notou, em cima de uma pedra, uns panos, na verdade, dois: uma blusa branca e uma calcinha também branca. Sem pensar nada-nada, automaticamente, Tião estendeu o braço e pegou a calcinha, escondendo-a dentro do bolso da calça, saindo logo do local.

No seu quarto, guardou a calcinha debaixo do colchão, depois trancou a porta, retirou a calcinha , pegou a peça com as duas mãos, uma peça pequena, branca, o modelo tinha uns furinhos em uma parte do pano, na parte fina debaixo o pano era mais grosso, mas, mais macio, certamente para proteção daquele tufo de cabelos negros, pois Tião tinha certeza que aquela calcinha era de Lurdes Maria.Guardou novamente a peça de roupa debaixo do colchão e deitou-se. Pensou, pensou e, espantado, sentiu que não estava com ódio nem nada de Lurdes Maria, apenas uma sensação de perda, de perda de uma coisa valiosa, essencial para a sua vida. Triste, espantou-se quando pensou na nudez da moça, naquela cena da moita e todo o seu corpo eriçou-se como um cavalo preparando-se para uma corrida, seu sexo doía e excitava-se e tirando as roupas, procurou a calcinha, acariciou-se com as mãos, sonhando com Lurdes Maria, e, beijando a calcinha, gozou como se estivesse deitado em nuvens macias E, daí em diante, ficara mais acanhado, de poucas conversas, passava noites e noites acompanhado da calcinha branca, retirando gozos aflitos do seu próprio corpo e perdendo-se em sonhos e frases de amor e dedicação dirigidas à moça que sempre estava nua no seu pensamento, naquele trecho do riacho. O tufo de cabelos pretos era o máximo, ápice, provocação e desejo, dentro desse seu mundo encantado como se tivesse se transformando num ponto fixo. Emoldurado pelas coxas e quadris, da mulher moça menina.

Um dia comum, desses do meio da semana, na rotina do dia-a-dia, o mundo encantado de Sebastião da Silva Santos se desfez, não como se fosse uma nuvem fugaz, desorientada pelo vento, mas de uma maneira violenta, assim, assim, atingida por um vendaval ou por uma trovoada cheia de raios e roncos, roncos assustadores.

Sem mais nem menos, Tião largou o trabalho na roça (com a enxada arrancava uns matos perto de uma cerca) e dirigiu-se àquele trecho especial do riacho.De tardinha, ele sabia que nesse horário era mais provável encontrar mulheres tomando banho ou lavando roupa, no sombreado de algumas árvores existentes às margens do riacho das Marrecas. Mulheres ou então ela, Lurdes Maria, a mais querida, e desejada dos seus olhos, dos seus sonhos, de todo o seu corpo. Teve sorte. Ou azar, justo naquela tarde. Escondeu-se atrás de uma moita e divisou a moça tomando banho, tendo ao lado algumas roupas que estavam estendidas na grama rala. Outra grama negra, feita de cabelos lisos, bem arrumados feito um tufo, plantado entre as coxas da mulher, violentou o olhar e o corpo de Tião.Trouxera a calcinha branca dentro do bolso, enrolada em um papel, para não sujar. Retirou a peça de dentro do bolso e encaminhou se, de repente, tonto, pertubado pela visão e por todos prazeres e sofrimentos que vinha passando , para Lurdes Maria, com a mão estendida, a calcinha pendurada, como um trunfo, balbuciando:

— Isso é seu...eu guardei.

A moça tomou um susto, mas logo recompôs-se, sabia da paixão do rapaz e já acostumada nos prazeres do corpo com Clemente, sorriu para Tião e disse: Vem, quero só ver... Sôfrego, Tião encaminhou-se para ela, que saiu ligeira de dentro do riacho e ameaçou subir a ladeirinha, ainda nua. Vem, dizia. E sorria. Sebastião continuou a encaminhar-se em direção a ela, sem saber o que dizer, o coração em disparada. Vem vestir minha calcinha, vem... E Tião continuou em sua direção, sem ver nada, além do corpo nuinho da moça,com aquele tufo negro entra as coxas. Foi aí que o vulto de Clemente explodiu descendo a ladeirinha, despontando de uns matos --- árvores pequenas e arbustos --- e arregalou os dois grandes olhos brancos. Sua face negra ficou imóvel e sua boca não disse nada. Puxou o facão da bainha e pulou em cima de Tião, passando ao lado de Lurdes Maria, como se não a tivesse visto. Foram fortes golpes, em várias partes do corpo de Tião, que ficou estendido, numa poça de sangue. A calcinha branca fora arrancada das suas mãos por Clemente, que ficou parado, sem saber o que fazer. Lurdes Maria disparou numa corrida louca, ladeirinha acima, nua, em pânico e muda de medo.

(Do livro de contos “O Diário de W.J. e outras histórias” – Aracaju, 2005).



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