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É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação. |
Cyro de Mattos
UM POETA EM SÃO PAULO
Em “Cantos da Metrópole”, o mineiro Samuel Penido
retoma a dicção nítida formulada por versos ríspidos para revelar este lado da
dor nos dias intermináveis da cidade pesada e escura. Vagueia sozinho com a
metrópole dando-lhe guinadas na alma, carrega de tudo o peso e o vazio. Este é
o sexto livro do poeta, que estreou com “A Difícil Messe” em 1963, conquistando
de pronto opiniões favoráveis da crítica e o reconhecimento do leitor. Em 1979,
o poeta de lirismo que fere como seta aguda obteve com “Caos e Nostalgia e
Lances” o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras.
Neste pequeno grande livro, constituído de 32
cantos, São Paulo irrompe em série da paisagem crítica habitada pela criatura
estafada a vida inteira. É indagada através de imagens dolorosas sobre o caos
que tenta inutilmente organizar num campo de traumas onde vivem transeuntes
como larvas. A cidade de ritmo crescente e superpopulação é marcada por versos
de expressiva densidade, capazes de distinguir em subterrâneos e vias o leito
impossível de conciliar o sono.
A malha disparada do tráfego insano, a guerra diária
armada por dentes caninos e os gritos sem resposta são motivações que impelem o
poeta a seguir na rota dilacerada, para colher aqui e ali rosas irreais que
cortam como faca afiada. Anônimo no lúcido ritual que anda e desanda, o poeta
constata e ausculta coisas inauditas por legiões neuróticas.
“Conheço essa cidade há séculos/ não sei se por
dentro/ ou por fora./
Não é de hoje que a cheiro/ como cachorro, que
esvoaço/ como besouro/
contra suas vidraças/ não é de hoje que nela me
perco/ como estrangeiro”. Poeta de linguagem precisa, necessária, no alcance da visibilidade que facilita a comunicação do discurso formado em cada gesto da existência, nos vários círculos do caos e do sonho, não é por acaso que suas imagens tendem para a confirmação de um lirismo atroz naquilo que é visto e o trespassa com sofrimento. Ajusta-se assim sua poesia de visões dilaceradas ao entendimento de Ítalo Calvino quando observa que:
“diversos elementos concorrem para formar a parte
visual da imaginação literária : a observação do mundo real, a transfiguração
fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura em seus
vários níveis, e um processo de abstração, condensação e interiorização da
experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização quanto na
verbalização do pensamento”.
Alguns desses cantos tendo a metrópole paulista como
motivação poética, extraída de instantes que acontecem no anonimato de heróis
comprimidos pela dura lei da vida, podem dar a idéia de fábula, forçando-nos
pensar na problemática da existência por vias e arredios da cidade de ritmo que
assusta. Nesse particular não deixam dúvida que são de poeta verdadeiro,
chamado a traduzir os golpes que todos recebem na selva de pedra com sua gana
canibal, morrendo de inanição no terminal que resvala sob um complexo de
tensões, insídias, álibis, automatismo de gritos na contramão, que ora emerge
do súbito rapto, ora das curvas onde pontilha sem bagagem o audaz andarilho.
Uma pessoal beleza e uma técnica segura, tão do poeta, retiram o discurso da
prosa poética com lições de moral, conferindo-lhe genuínos estados de espírito
em versos dolorosamente carregados de observações, constatações da natureza
humana atingida neste tempo assassinado por edifícios que “ tapam o brilho do
céu”.
Samuel Penido, a exemplo de outros livros, possui em
“Cantos da Metrópole” incrível precisão para expor o verso com uma nudez
ferina, que corta algo duro de se conceber em sua fala absurda. A linguagem
poética trabalhada com o esmero do artesão evidencia nesses cantos de densidade
expressiva a metrópole sem face, sem nomes. Delata na relação homem e mundo o
galope do medo, o escritório do indivíduo como cofre, o verde da árvore jogada
no caminhão de lixo. Descobre a menina como objeto de horário integral, a
viagem difícil na qual “ganhar a vida com unhas e dentes em maratona suicida” é
uma partida que nunca chega.
Poeta de imagística depurada, apanhando o homem
coberto de lesões, a desfilar na passarela o mais notório dos vazios, bem sabe
da ausência da comunhão em versos que comportam a aproximação com a literatura
mais condigna. Se literatura existe para equilibrar o homem entre os vazios, é
“linguagem carregada de significado” como concebe Ezra Pound, na poética de
Samuel Penido transmite sensações e estímulos até o máximo como formas
solidárias, graus de compreensão entre os humanos para a valorização da vida,
tão desumanizada nos tempos de hoje, principalmente onde o olhar do outro
assusta como lâmina possessa à nossa espera.
Detecta-se ainda nestes “Cantos da Metrópole” uma
linha de continuidade poética voltada para o ser humano incrustado no
rotinomundo da grande cidade, de tantos atritos, desvairismos, corredores e
sombras. Oportuno é filiar o poeta Samuel Penido à família dos que se inspiram
e transpiram o desengano urbano da megalópole, com esta louca vida baralhando
tormentos, promiscuidade de todos os dias, ao protagonizar o drama. Cito aqui
como exemplo Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e Reynaldo Valinho
Alvarez. Os dois primeiros vozes maiores de nossa poesia, o último transcende
real brasileira verdade ao eleger como tema a “ cidade em grito” feita ofensa
em cada gesto da existência.
Um adendo: Samuel Penido integrou várias vezes a
diretoria da União Brasileira de Escriores, Seção de Paulo, com dignidade e
eficiência. Faleceu em 28 de maio deste ano, na capital paulista.
Referências bibliográficas
“Cantos da Metrópole”, Samuel Penido, Editora do
Escritor, São Paulo, 1984.
“Seis Propostas para o Próximo Milênio”, Ítalo
Calvino, Companhia das Letras, São Paulo, 1999.
“ABC da Literatura”, Ezra Pound, Cultrix, São Paulo,
1990. |