O lirismo reflexivo de
Antonio Brasileiro
Na noite de 30 de novembro
de 2006, a última quinta-feira do mês, anotei esta conversa com o poeta e
artista plástico Antonio Brasileiro. Foi na varanda do escritório de sua casa,
em Feira de Santana, Bahia. Rua Alto Paraná, que é de terra batida, num bairro
chamado SIM. De lá de dentro vinha, baixinho, um concerto de Mozart para
violino. À nossa frente, estendia-se o jardim que é também pomar — pés de
manga, acerola, abacate, goiaba, jambo, caju, mamão —, onde, no centro, num
círculo iluminado, brilhavam folhagens em tons creme e vinho. Chão de grama
verdinha, recém-aparada. Ao fundo, o ateliê que ele divide com Nanja, sua
mulher.
É possível que toda essa atmosfera, e com cervejinha gelada e a brisa da
noite, reflita a conversa que registrei a lápis num caderno de bolso.
Brasileiro nasceu em 1944, em Rui Barbosa, no sertão baiano, onde viveu
até 1955, quando se transferiu para Salvador. Desde 1972 vive em Feira de
Santana. Tem uma fazenda de gado no Acre. É doutor em Letras pela Universidade
Federal de Minas Gerais [1999]. Dedicado praticante de tênis. Faz ginástica e
longas caminhadas diárias. “Se eu não me cuidar, quem vai cuidar de mim?” Seu
cultivo do ócio inclui música, leituras filosóficas, do tao e do zen, e
conversas com os amigos. Ensina Teoria da Literatura na graduação em Letras da
Universidade Estadual de Feira de Santana. Mas não faz desse ensino a exposição
do que é chato, porque tem os olhos e os ouvidos abertos para o que diz Goethe
no Fausto: “Toda teoria é cinzenta, caro amigo. Só a verdadeira árvore
da vida é verde”.
Quarenta e um anos de poesia — com incursões na ficção e no ensaio — e 43
de pintura. Dos 22 livros que publicou, considera como os mais importantes: Caronte
[romance, 1995], Antologia poética [1996], A história do gato
[conto, 1997], Da inutilidade da poesia [2002] e Poemas reunidos
[2005].
Depois da conversa, em que ele se expõe lacônico em suas respostas,
escolhi cinco poemas*, com as respectivas datas em que foram escritos [costuma
datar tudo que escreve], em cinco de seus livros. Pequena mostra de uma poesia
em que não há cor local,
também ausente de suas pintura, porque sua emoção lírica se universaliza e,
nessa medida, é reflexiva. Poesia que, como bem observou Ruy Espinheira Filho,
jamais pode ser lida “impunemente — porque sempre vem doer em nós de alguma
forma. Mesmo quando nos faz sorrir”.
ê
Valdomiro Santana: Para Paul Valéry, escrever um poema lhe exigia
“o máximo de consciência possível”; disse preferir criar uma obra medíocre em
plena lucidez do que uma obra-prima em estado de transe”. Já Manuel Bandeira
confessa, em Itinerário de Pasárgada,
que jamais poderia escrever um poema à maneira de Valéry; que o melhor de sua
poesia lhe saiu “do subconsciente, numa espécie de transe ou alumbramento”. E
você?
Antonio Brasileiro: Sou mais a “inconsciente consciência”, como
explanava Suzuki sobre a arte zen. Quando me sento para escrever, o que tenho
“à mão” é tão só a vontade de escrever. Não há a mínima consciência de um “que”
dizer. Aliás, procuro mesmo passar longe desse conteúdo prévio. Se já sei o que
quero dizer, é porque se trata do (só) enfeixável pela razão. O que é pouco
situa-se aquém da poesia.
Santana: Quase todos os títulos de seus livros de poemas chamam
logo a atenção do leitor: O terceiro movimento da sonata, A pura
mentira, Licornes no quintal, Entre facas, Pequenos
assombros, Dedal de areia. Há neles um jogo entre o significado
intelectual e a magia expressiva, em que tanto um aspecto se realça quanto o
outro?
Brasileiro: Veja três deles: A pura mentira, Licornes no quintal
e Pequenos assombros — uma mentira
“pura”; os fantásticos (uma só invenção) unicórnios logo ali, no nosso quintal;
os assombros (como podem ser?) pequenos. O contraste, assim, com tal nitidez,
me parece trazer em si algo de, também, poético.
Santana: A palavra “jogo” vem a calhar. Embora não tematize
explicitamente a infância em sua obra poética, o menino que você foi, e que
carrega no coração como uma festa móvel, aparece com freqüência em seus poemas.
A ludicidade, o senso infanto-juvenil de humor constituem parte essencial de
sua poesia?
Brasileiro: Gosto dessa ludicidade, mas não creio que seja uma
ludicidade das coisas, de todas as
coisas. Não vejo o mundo como um jogo. Não cabe essa palavra. Mas concebo o
jogo como um elemento do variado mundo, só isso. Não vejo por que deixar de
fora o lúdico. Já o humor, este, me parece mais sério que o simples jogo. Não
creio, por exemplo, que se possa associar jogo com vida. Viver é bem mais
sério, sem nenhuma dúvida, qualquer que seja o sentido de jogo.
Santana: Jogar uma partida de tênis e escrever um poema são
atividades que você leva muito a sério, mas também com descontração. Chega a
atribuir notas a seus poemas e a seu desempenho de tenista amador. O físico e o
espiritual têm, então, para você a mesma importância e por isso estão sempre
numa relação de ressonância mútua?
Brasileiro: Jogar tênis e jogar poesia. Teríamos que ir por partes.
A composição de um poema não pode ser confundida com o jogo. Compor o que seja
é a atitude mesma do criador. Compomos o mundo, é assim que penso. “Compor o
homem” é algo que está a cargo do artista. Mas quando jogo tênis, apenas me
divirto. Exercito-me também, é verdade, o que agrada ao corpo — e nesse sentido
procuro tratar bem os dois lados da boa moda, o físico e o espiritual.
Santana: Críticos e estudiosos o vêem como um dos mais importantes
poetas brasileiros vivos, embora sua obra seja conhecida só por muito poucos
leitores. Isto se deve a condições desfavoráveis de edição, distribuição e
divulgação de seus livros. Esse desinteresse do público pela poesia resulta do
fato de que ela, essa arte, é a única que resiste à mercantilização?
Brasileiro: A rigor, a poesia nunca esteve “em alta”. Alguns nomes
conseguem se tornar mais conhecidos, pouquíssimos ultrapassam sua própria
geração. Mas quantas pessoas mesmo, dessas que você vê todos os dias trafegando
por aí, sequer ouviram falar de Drummond, nosso maior poeta? E se ouviram,
quantos dentre seus mil poemas conhecem? Dois? Três? Isso é conhecer um poeta?
Não é só a poesia que resiste à mercantilização; há outros saberes.
Santana: Como professor num curso de graduação em Letras, o da UEFS
[Universidade Estadual de Feira de Santana], no que se refere à poesia, como é
sua relação com os alunos?
Brasileiro: Minha relação com os alunos é de compreensão. Se eles
conseguem perceber que a literatura é uma coisa muito legal, legal mesmo,
dou-me por satisfeito. Mas há sempre uns poucos que são realmente vocacionados
a pensar poeticamente sem ser poetas.
Santana: Sua inquietação o levou a criar, no começo dos anos 1970,
um movimento em torno da poesia em Feira de Santana, o que deu frutos. Talentos
se revelaram, revistas e livros foram e continuam sendo editados localmente, em
meio a todas as dificuldades. Movimento esse que teve a estima de Carlos
Drummond de Andrade, o que diz muito, e certa repercussão nacional e mesmo
internacional. Como grupo de criadores — você, Nanja, sua mulher [artista plástica],
Roberval Pereyr [poeta e ensaísta], Juraci Dórea [arquiteto, artista plástico e
poeta], Iderval Miranda e João Salete Aguiar [poetas], entre outros, vocês
tinham — e ainda têm — o sonho de tornar Feira de Santana culturalmente
contemporânea do mundo, uma cidade aberta a todas as artes? O que faltou, ou
falta, para realizá-lo?
Brasileiro: Tínhamos esse sonho, mas perdemos a parada. Esse grande
armazém que é Feira de Santana é mesmo infenso à sensibilidade estética.
Santana: Escrever não é espetacular como pintar uma tela. Como é a
experiência do Antonio Brasileiro pintor?
Brasileiro: Sou tão pintor quanto escritor. As duas vocações (e
atividades) têm peso igual. Não sou exceção na História. Pena que não pude ser
também músico. Até que tentei. Sim, bem que tentei.