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CARLOS
MACHADO





Entrevista concedida a Plínio de Aguiar
especial para a litbr.com.




Há quatro anos o poeta Carlos Machado, com severa persistência, vem editando o boletim poesia.net, presenteando a cada semana aos seus mais de 2 000 leitores internautas, em cerca de dez países, a publicação virtual de poemas de autores brasileiros e estrangeiros, alguns já bastante conhecidos, e outros, estreantes. Baiano de Muritiba, terra natal de Castro Alves, o poeta Carlos Machado, residente na cidade de São Paulo, vem realizando assim comprovado trabalho de divulgação da poesia gerando, entre outras provocações, a criação de círculos universitários de estudo dos autores publicados no boletim e contribuindo indiscutivelmente para a formação de um painel representativo da poesia contemporânea, seja nacional, seja estrangeira. Neste número da litbr.com (agosto de 2006) temos a oportunidade de conversar com ele, que é autor de Pássaro de vidro, livro com lançamento marcado para este ano ainda.



Por que você decidiu criar o poesia.net?

É mais fácil dizer como foi criado o boletim poesia.net. Eu sempre tive por hábito fazer cópias de textos que lia e distribuí-las entre amigos. Pegava poemas, trechos de romances. Fazia isso, por exemplo, no início dos anos 90. Em 2002, quando se aproximava o centenário do poeta Carlos Drummond de Andrade, lembrei-me de uma coisa bem pessoal: em 1972, eu estudava engenharia na UFBa e escrevi num jornal do diretório acadêmico um artiguete para comemorar os 70 anos do poeta mineiro. Então me dei conta de que fazia 30 anos! Resolvi, então, numa retomada de velhos ímpetos juvenis, montar um boletim (agora eletrônico e por e-mail) em homenagem ao autor de A rosa do povo. Então, fiz um boletim chamado Drummond: 100 Anos, distribuído às segundas, quartas e sextas-feiras. Foram 40 edições, entre 4 de setembro e 4 de dezembro de 2002.

No início, as páginas iam para menos de 30 pessoas. Somente amigos próximos e colegas, gente de quem eu não precisava obter autorização para enviar os e-mails. Mas a poesia tem uma incrível capacidade de ir organizando as pessoas em confrarias mais ou menos secretas. Logo alguns passaram a retransmitir a página para um rol de amigos. Outros me passavam listas de e-mails e pediam: envie para esses também. A lista foi crescendo. No final, já havia mais de 200 nomes. Avisei que o boletim estava acabando, porque era uma homenagem datada. Mas as pessoas insistiam para que eu continuasse. Alguns sugeriram fazer séries com outros poetas: Bandeira, João Cabral etc. Resolvi, afinal, começar outro boletim, o poesia.net, semanal, com cada número enfocando um poeta.

Bem, essa foi a gênese. Talvez dentro disso esteja o porquê de eu ter criado o boletim. O site só passou a existir cerca de um ano depois, em 2003. Lá, no endereço Alguma Poesia (www.algumapoesia.com.br), estão reunidos todos os boletins que são enviados por e-mail, inclusive a série drummondiana.


A manutenção do boletim, que não só inclui poemas de cada autor, mas suas informações biobibliográficas e estudo crítico, não é uma atividade que atrapalha suas atividades rotineiras?

Na verdade, não considero o que escrevo um estudo crítico. Às vezes, até enveredo por esse caminho, mas o que incluo no boletim é um conjunto básico de informações que ajudam o leitor a situar o poeta e sua poesia no tempo e no espaço. Em alguns casos, adiciono observações pessoais sobre minha forma de ler um ou outro poema.

É claro que fazer isso dá trabalho. Escrever o texto do boletim, em si, pode ser rápido. Lento é o processo de tomar conhecimento do poeta, ler os textos, marcar o que parece mais adequado aos propósitos do poesia.net, buscar um mínimo de informações críticas e biográficas e arranjar uma foto. Às vezes demoro muito – meses até – para selecionar os poemas. Em outros casos, os poemas estão selecionados, mas não sei o que dizer sobre o poeta. Ultimamente, quando todos os dados já estão reunidos, sento e escrevo. Aí entra minha experiência jornalística. É a hora de "fechar" o boletim.


Quais são os seus critérios na escolha do poeta a ser editado no poesia.net?

Os critérios são bastante elásticos. Alguns leitores – espero que sejam apenas os que conhecem pouco o boletim – acreditam que escolho o que, em minha opinião, seria o cânone da poesia, passada e atual. Não é nada disso. Mesclo poetas de todas as épocas, gêneros e tendências literárias. Vou de Camões ao jovem que acaba de publicar o primeiro livro. Também, se houver traduções, aparecem ingleses, franceses, americanos, russos, homens, mulheres – não importa.

Naturalmente, procuro dosar. Sempre manobro para que, entre três ou quatro poetas homens, apareça uma mulher. Também vou distribuindo brasileiros e estrangeiros. Faço questão de sempre incluir um poeta português. Ainda estou em débito com a África, em especial a África lusófona, mas venho me preparando para suprir essa falha.

O que publico não tem nada a ver com minhas predileções pessoais. O fato de sair um poeta no boletim não significa que ele é um dos meus preferidos. Essa idéia não faz nenhum sentido. Qual a serventia de eu dizer às pessoas que gosto deste, daquele e daquele outro poeta? É óbvio que tenho preferências, mas não são elas que governam o boletim. Ajo assim porque escolhi esse caminho. Contudo, não vejo nada demais que alguém construa um site para mostrar somente os poetas e os poemas de sua predileção.


Você não só edita autores estreantes, mas poetas reconhecidos nacional e internacionalmente, alguns clássicos, como Shakespeare, Mallarmé, Simic, Oswald de Andrade, Ascenso Ferreira, Dante Milano etc. Existe algum objetivo específico nessa alternância?

Se existe ali alguma ambição, é ter uma coleção de páginas que, depois de algum tempo, possa ser vista como um razoável painel da poesia em diferentes tempos e lugares. Na minha opinião, a alternância entre clássicos e modernos, jovens e velhos, sugere ao leitor a idéia de que arte é maior do que a vida.


Como você "descobre" novos autores? Através de pesquisa ou se limita a receber a correspondência de originais de poetas estreantes?

As "descobertas" são feitas por diferentes caminhos. Leio sobre o poeta nos jornais. Ou então passo a saber que ele existe por meio da internet. Mas também há poetas que lêem os boletins na internet e me enviam poemas ou remetem livros. Outra forma importantíssima são os amigos. Eles me contam que leram um livro, recomendam nomes, me põem em contato com os autores.


Com o material já existente em tantos anos de poesia.net, você tem planos de construir uma coletânea de uma nova poesia brasileira? E existe mesmo uma nova poesia brasileira, ou as possibilidades de linguagens originais na manufatura poética da palavra escrita estão esgotadas, como pensam alguns?

Vários amigos e leitores do poesia.net já sugeriram uma coletânea assim. Mas isso exigiria um retrabalho do material – tarefa que só faz sentido se houver alguma editora interessada. Quanto à existência de uma nova poesia brasileira, creio que, enquanto houver história, enquanto houver pessoas criando caminhos para viver e sobreviver, sempre haverá possibilidade de dizer coisas poeticamente interessantes. É verdade que certos momentos históricos são mais ricos e arrojados que outros. Mas a necessidade da poesia se mantém. Isso que estou afirmando situa-se num plano mais alto. Ou seja, não desconheço que, hoje, a sociedade está sufocada por uma ideologia e uma prática que abominam a poesia.

A poesia, para mim, é algo essencialmente subversivo. Não no sentido de que ela possa funcionar como uma arma para transformar a sociedade. Mas porque a fruição da palavra poética pressupõe, de alguma forma, a aproximação das pessoas, a sintonia de coisas que vão além das aparências e da lógica rasteira que governa o toma-lá-dá-cá do cotidiano capitalista. Na verdade, essas características podem ser atribuídas à arte em geral, não somente à poesia. Mas a poesia se firma como o inutilitário-mor (o termo "inutilitário" é de Paulo Leminski), talvez a única arte que o sistema não consegue transformar em mercadoria. Isso me agrada. O reconhecimento dessa irredutibilidade está expresso em livros como Inútil poesia, da ensaísta Leyla Perrone-Moisés, e Da inutilidade da poesia, tese do poeta baiano Antonio Brasileiro.


O que você acha da afirmação de Carlos Drummond de Andrade, que é melhor ser eterno do que moderno?

Acho que Drummond, muito percuciente, percebeu que a imposição de ser moderno, ser vanguarda, estar na crista da onda é algo datado. Fica, mesmo, quem consegue dizer coisas essenciais. Shakespeare. Cervantes. Camões.


Você está com um livro no prelo, Pássaro de vidro. Quando será o lançamento? Você se considera um autor bissexto?

Não me considero um autor bissexto. Sempre li e escrevi poesia, embora nunca tenha publicado um livro antes. Uma conseqüência imediata desta minha afirmação é alguém dizer: então você deve ter, guardados, volumes e mais volumes de poesia. Sim e não. De fato, tenho muita coisa na gaveta. Mas não publicar tem esta desvantagem: você já não olha com simpatia os textos que vão ficando velhos. Eles não refletem mais o que você pensa - sobre o mundo e sobre a poesia. Desse modo, não há muito interesse em trazer a público os poemas antigos. Talvez um ou outro passe pelo meu crivo de hoje. Quase todos os textos do Pássaro de vidro foram escritos entre 2002 e 2004. Somente um ou dois poemas são dos anos 90, mesmo assim do final desse período.

O lançamento do livro está marcado para setembro - aliás, 11 de setembro, uma data explosiva. Mas quando esta entrevista estiver no site da litbr, o Pássaro de vidro já deverá estar nas livrarias.


Como você vê a atual poesia brasileira? Existem esperanças de algo novo depois de um Ferreira Gullar, por exemplo, que não é só o maior poeta brasileiro, mas também um formador de opinião?

Creio que sempre haverá a possibilidade de algo novo. Não nos termos de melhor do que Drummond, melhor do que Cabral, melhor do que Gullar. Ou supostamente para ocupar o lugar deles. Afinal, não existe uma monarquia de poetas, na qual seja preciso haver herdeiros, novos fidalgos que assumam o trono dos antigos.

Algum tempo atrás tive um diálogo interessante a esse respeito com uma poeta conhecida. Como comentário a uma das edições do poesia.net, ela me mandou um e-mail dizendo assim: esse escritor aí (o que havia sido tema do boletim) está entre os dez maiores poetas vivos do Brasil. Em seguida, ela dava a lista de quais seriam esses dez.

Respondi dizendo que não concordava. Não que eu fizesse restrição a qualquer um dos nomes que ela incluíra na lista. Minha discordância era de outro nível. Argumentei que eu seria capaz de listar, no ato, outros dez poetas tão bons e respeitáveis quanto os citados por ela. Só que esses dez em geral não publicam nas grandes editoras, não aparecem nos jornais nem na televisão. São escritores que, na maioria, não estão nos grandes centros propagadores de mitos. E todos estão vivos. Ela concordou comigo. A conclusão é simples: esses "maiores" são sempre os que a mídia – por vários motivos, alguns até verdadeiros – diz que são os maiores.


O mundo atual é marcado por fenômenos diversos, como o consumismo, o pragmatismo, vida urbana acelerada e estressante para a maioria das pessoas, conflitos armados crônicos, perspectivas sombrias para a sobrevivência do ambiente no planeta, além de estímulos poderosos para o desfrute imediato e único do presente, associado a certo desprezo pelo zelo do idioma que falamos e escrevemos. Existe ainda lugar para a criação poética nesse quadro atual, pessimista por um lado, mas maravilhoso graças ao desenvolvimento científico e surgimento de novos paradigmas?

Continuo acreditando que deve haver algum lugar para a poesia. Talvez seja um espaço acanhado, em que o poeta nunca volte a exercer o papel de "voz civil" da comunidade. Concordo com o ensaísta mexicano Octavio Paz quando ele diz: "A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras". Então, apesar de todo o vento contra, a poesia tende a resistir, simplesmente porque o homem resiste. Além disso, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", como observa o grande Luís de Camões. Nessas mudanças, surgem novos motivos, novas oportunidades para a poesia.


O poeta está sempre lidando com a conciliação entre o máximo de significação, a comunicabilidade e também, em alguns casos, a recusa a formas tradicionais. Como você identifica o "experimentalismo" na poesia brasileira contemporânea?

Creio que a poesia atual tem a vantagem da diversidade. Não existe mais aquela quase obrigatoriedade de alinhamento que havia até os anos 80. Acho também que essas duas décadas após a ditadura militar – aos trancos e barrancos e com todas as limitações que conhecemos – têm propiciado um espaço mínimo de liberdade que se reflete na poesia. Repito aqui uma observação feita recentemente pelo ensaísta Davi Arrigucci Junior num jornal paulista. De um lado, registrou-se uma queda sensível na qualidade do que se publica de e sobre literatura nos principais meios de comunicação. Em contrapartida (e isso acende uma esperança), é possível constatar que há uma movimentação muito forte em direção à poesia.

Por causa do boletim, sempre recebo informações sobre a publicação de jornais, saraus, recitais de poesia. A boa notícia é que isso não está acontecendo somente nos lugares de sempre – São Paulo, Rio, BH. Ainda bem: está em todo o Brasil. Considere-se também o novíssimo fenômeno dos sites e blogs. É claro que a facilidade de publicar eletronicamente abre espaço para muita bobagem, muita coisa sem nenhuma qualidade. No entanto, tenho visto moças e rapazes que ainda nem saíram da adolescência publicando textos muito bons em alguns blogs. Esse fenômeno merece atenção.

Isso até já me fez mudar um ponto de vista. Antes eu só admitia incluir no boletim quem já tivesse livro publicado, ou pelo menos tivesse poemas que saíram em revistas e jornais. Este ano já saíram boletins de pelo menos duas poetas sem livro. Poetas da internet. Acho que é preciso ficar de olho nos blogs e sites. Os jovens estão lá.



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