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No último dia 10 de maio (2005), a poesia
brasileira perdeu uma de suas vozes líricas mais expressivas e
criativas. Morreu Yêda Schmaltz. A poeta, pernambucana de nascimento
e goiana por adoção, faleceu no Hospital da Beneficência Portuguesa,
em São Paulo, após uma complicada cirurgia de aneurisma. Era
professora aposentada da Universidade Federal de Goiás e membro do
Conselho Consultivo da União Brasileira de Escritores, seção goiana.
No ano passado (2004) recebeu o título de Cidadã Goiana, concedido pela
Assembléia Legislativa daquele Estado. Estreou com escritora em
1964, com o livro Caminhos de Mim. Recebeu vários prêmios e publicou
cerca de 15 livros. A sua última obra foi a antologia Urucum e
Alfenins: poemas de Goyaz, lançada pela Editora da UFG, em outubro
de 2002. Neste livro, Yêda Schmaltz dá uma relevante contribuição à
poesia goiana e brasileira, pela síntese de sua obra e pelo destaque
temático. A antologia enfeixa 70 poemas, em geral versando sobre
aspectos como cultura, vocabulário, costumes, cidades, gente,
paisagens e rios do estado goiano. Consagrada em Goiás, sua poesia é
ainda pouco conhecida nacionalmente. Em outubro de 2002, ao lançar
seu último livro, a escritora concedeu-nos uma entrevista.
Aleilton
Fonseca - Como foi concebida sua antologia poética Urucuns e
Alfenins? Yêda Schmaltz - Com a ajuda dos computadores,
nós, os poetas, podemos minimizar nossa habitual falta de
racionalidade. Foi o que sucedeu comigo: diante o monitor, com minha
obra em arquivos, passei a agrupá-la por temas como poesia engajada,
poesia erótica, etc., e havendo a necessidade de criar uma pasta
para poesia goiana, percebi a quantidade de poemas escritos sobre
Goiás, ao longo de tantos anos de carreira literária. Assim nasceu
este livro — pensei que o conjunto de poemas goianos poderia ser uma
contribuição importante para o meu Estado e suas novas gerações,
assim como para o país, tanto sob o ponto de vista literário quanto
o histórico.
AF - Como você avalia sua
trajetória de poeta, ao lançar essa antologia? YS - Devo
dizer que tenho dedicado toda a minha vida à literatura,
especialmente ao gênero de poesia. Considero este livro, mais um
livro publicado, o que me enriquece muito; entretanto deve-se notar
que ele mostra apenas uma faceta do meu fazer literário (poemas
feitos sobre Goiás) e acho que ele é mais importante para o meu
Estado do que para mim. Esta antologia possui um valor muito
especial enquanto recupera poemas escritos em meus primeiros livros
que estão absolutamente esgotados, sem previsão de novas edições.
AF – Ao receber o título de cidadã
goiana você se sente reconhecida e recompensada? YS -
Nasci, por um acaso da vida de meus pais, em Pernambuco, mas passei
a vida toda em Goiás. Aqui me firmei como pessoa e como artista;
aqui construí a minha casa, com tijolos de poesia, e aqui tive três
filhos goianienses. Sou goiana. Sem falsa modéstia, penso que mereço
o título. Na verdade, quem avalia são vocês, os cientistas da
literatura. Devo dizer que tenho dedicado toda a minha vida à
literatura, especialmente ao gênero de poesia. Considero este livro,
mais um livro publicado, o que me enriquece muito; entretanto
deve-se notar que ele mostra apenas uma faceta do meu fazer
literário (poemas feitos sobre Goiás) e acho que ele é mais
importante para o meu Estado do que para mim. Esta antologia possui
um valor muito especial enquanto recupera poemas escritos em meus
primeiros livros que estão absolutamente esgotados, sem previsão de
novas edições.
AF - Ser mulher,
professora e poeta no Brasil é problema ou solução? YS -
Quase toda a minha obra tem como tema fundamental os problemas da
mulher e meu desejo de dignificá-la. Considero que, para que eu
pudesse ter uma carreira literária (e também de professora
universitária), foi preciso realmente enfrentar uma luta e ser capaz
de resistência.Ser mulher intelectual em nosso país é ainda difícil
e acredito que em Goiás seja um pouco mais. Há, por aqui, um esforço
muito grande de inúmeras mulheres, em todas as áreas, mas o que
realmente temos conseguido em atuação objetiva, é um mínimo,
principalmente devido a situação social e política do Estado de
Goiás, notadamente agropecuário, cheirando a esterco, e trazendo em
si, de forma atávica, um machismo rançoso próprio de coronéis e
grandes fazendeiros. A mulher, nesse meio, fica perdida, sem
socorro, subalterna; de modo que fica muito mais difícil qualquer
tipo de atuação feminina em qualquer área cultural no Estado de
Goiás do que, vamos dizer, num Estado como o de São
Paulo.
AF - Sua poesia brota da
inspiração ou do trabalho e da vontade de expressar o mundo em
versos? YS - Apesar de trabalhar com o mito, não creio em
musas inspiradoras na acepção de séculos anteriores. Para mim, a
arte é expressão, transpiração. Penso que não se faz o artista, ele
possui um dom inato, que de nada valerá se não houver estudo,
trabalho, exercício, persistência. Fazer o rascunho de uma idéia é
simples e fácil (poiesis); exercer o trabalho artesanal sobre essa
mesma idéia é mais complicado (práxis), e sou uma pessoa muito
preocupada com esta realização mesmo porque já se escreveu sobre
tudo! Então, a minha obra não é o seu assunto, é o meu estilo. Não
há Arte onde não exista a perfeita combinação entre técnica e
sentimento, você sabe; eles devem diluir-se em perfeita combinação.
Enfim, acho que a alma da poesia está na criatividade, na
imaginação, na contemporaneidade e na muita paciência, nenhuma
pressa. Creio também que a condição fundamental da Arte é a livre
afirmação da personalidade.
AF - O
reconhecimento dos poetas no Brasil é lento e incerto, já que é
preciso "vencer" no eixo-Rio-São Paulo. Isso está mudando ou ainda é
um problema? YS - Isto continua sendo um problema e não
está mudando, pela simples razão fundamental (dentre outras) de que
as grandes Editoras estão nesse eixo. O que podemos considerar
bastante inexplicável é a curta visão literária e cultural da
maioria dos editores que preferem publicar um livro de valor
duvidoso, escrito por carioca ou paulista, em detrimento de melhores
trabalhos realizados por autores de outros estados. Nisto tudo entra
também um problema comercial, a mídia, que produz fenômenos
estranhos como o do já internacional autor...nem vou dizer o
nome.
AF – Como avalia a poesia
brasileira hoje? YS - A poesia está abrindo seu caminho
ainda que seja nos “varais” cariocas ou nos encontros dos Cafés em
São Paulo ou nos Festivais de Poesia Falada realizados em vários
Estados brasileiros, inclusive em Goiás; a poesia se mostra de
várias formas, cobrindo o espaço que perdeu nos jornais, nas
revistas e na vida das cidades. A nova safra de poetas aí está,
filha da geração do mimeógrafo: uma nova geração de poetas que está
descobrindo a sua própria linguagem. Tudo o que é novo e está aí
surgindo, é vanguarda; então, os bons novos poetas são a vanguarda
da poesia brasileira. Há grupos isolados por todo este enorme país,
produzindo uma nova poesia petulante, irônica, lírica, às vezes
prosaica, numa linguagem muito coloquial. Creio que daqui a alguns
anos teremos uma visão mais clara sobre o que está acontecendo
agora.
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