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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.



Everaldo Moreira Véras


Muito caro



SOFRE tristemente, Madalena –– 55 anos, ainda atraente, uma mulher bonita. Viúva, mora com a filha. Todos ali lhe querem muito bem.

Mas está baqueada, deprimida, arrasada. Pelos poderes de Deus, não sabe como aquilo chegou. Teria sido o demônio? (Lógico que sim, Deus daria as costas ao pecado, eis por que deixou que cada um colhesse o que plantou. As pessoas têm livre arbítrio, fazem o que querem, embora depois tenham de pagar por isso).

Não pode nem lembrar, tamanho o remorso. Nunca suportou sentimento desse jeito, tempo algum. A perturbação lhe traz dores no corpo e na alma. Sobretudo na alma, onde a ferida sangra mais forte. Estaria perdendo a razão? É possível, tanto que não consegue firmar-se num raciocínio lógico, não tem condições sequer de meditar. Tudo é nebuloso, o mundo dorme coberto de fantasmas. Difícil acordar do pesadelo e retornar à vida normal, do jeito que era antes.

Misericórdia, o que aconteceu não poderia jamais ter acontecido! Uma tragédia que destruiu a ordem, não haveria recuperação, as idéias tombaram, assombradas. Talvez nem a morte apagasse a sombra.

Na noite anterior, sábado, ficara em casa sozinha com o neto Guilherme, adolescente, 17 anos, sol-mar-praia-surf. Rebelde, não pensava noutra coisa, senão curtir as horas o mais intensamente possível. Tinha de recuperar o esforço em vão, quando se meteu com o vestibular de Medicina, e nada ganhou. Valeu a pena? Claro que não.

Começou quando o rapagão irrequieto, insatisfeito, agitado, preparou um drinque. Depois, outro. Mais outro. Também música no sistema de som, às vezes quente, às vezes suave. Vamos dançar, vó?

E dançaram. E beberam. Agarradinhos, pareciam namorados, ao ritmo das canções de amor. Um sonho. Um sonho bom, nenhuma outra mulher sentira igual no coração.

Lá pras tantas, depois da meia-noite, quando ainda exalava o perfume excitante do seu corpo, aconteceu o que não poderia jamais ter acontecido. A loucura. O desatino. O pecado. Como foi? Não sabia como foi. Somente sabia que foi.

Avó e neto transaram sexualmente. Uma sensação fortíssima, acima de todos os limites. Ela –– quase morre. Ele –– ora ria feito um louco, ora gemia feito um potro selvagem.


Agora, Madalena sofre. Ali, sozinha, na mesma maldita sala, sentada no mesmo divã criminoso, suporta o enorme peso da consciência. O arrependimento sufoca, chora lágrimas de horror. Não terá coragem nem de olhar-se no espelho, a ferida é do tamanho da vergonha. Nunca, nunca ninguém experimentou tamanha culpa, tão suja agonia. Hoje, preferia a morte, mil vezes. Nada, absolutamente nada tinha sentido para ela. Sou uma desgraçada! murmurou, e nisso havia sobretudo autopunição. As mãos tremiam.

São dez horas da manhã. O sol brilha arrogante, lá fora, nas ruas e nas avenidas. Um sol másculo, vingativo, a dizer que não tinha piedade alguma. A humanidade, de braços abertos, recebe o verão, um homem idiota, bêbado, buscando o prazer. Quanta alegria!

Nisso, Guilherme sai do quarto dele, vem até a sala, boceja preguiçoso e sonolento, no seu jeitão safado de ser e viver. Rindo à beça, disse,

Um barato ontem, não foi, vó?



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