Os caminhos
Se a chuva cai vou até a janela, olho as casas submersas e reclamo — contra quem? — ora, reclamo contra os céus, blasfemo ao declarar que atualmente ninguém tem mais respeito, há irresponsabilidade total, inclusive no paraíso, maldigo a chuva que age sem piedade a maltratar ricos e pobres, felizes e infelizes, se faz sol não vou longe, daqui mesmo solto meu alucinante grito de ira e desgraça, odeio os raios do sol, não quero luz, prefiro a penumbra que me esconde e me protege, tudo isso é inútil, afinal o que desejo? — quero viver — é o que sempre afirmo e canto, mas deste jeito? não sei o que fazer, estou farto de minha própria incompetência e inutilidade, a única força que me faz caminhar é que, às vezes, penso que sou capaz de pensar, e os caminhos me esperam.
In Depois eu conto
Recife (PE), Edições Sarev, jan/2007.
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