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literatura brasileira
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.
O MITO DO ESCRITOR MARGINAL Ezio Flavio Bazzo
P. P. Pasolini
Vi-me diante da
tentação de assumir uma postura que não me pertence, de exibir um Texto e um
Saber que não tenho, de armar-me até os dentes e de colocar-me num lugar de
onde poderia derrotar facilmente as possíveis objeções contra minhas idéias e
até mesmo contra meus desejos. Surpreendi-me várias vezes arquitetando um
truque para parecer mais hábil e até mesmo MAIOR que qualquer um dos
interlocutores, mesmo que para isto fosse necessário falsificar argumentos,
burlar estatísticas, inventar referências e arrancar de minhas entranhas a
lábia imbatível que os intimidasse para sempre e que os mantivesse imóveis e
mudos aí em baixo, um metro e meio abaixo deste púlpito que, histórica e
sabiamente, a tradição eclesiástica concedeu aos padres, aos professores e aos
políticos. A esses irmãos siameses, empenhados há séculos em dar legitimidade
às três clássicas e conhecidas profissões impossíveis: a de EDUCAR, a de CURAR
e a de GOVERNAR. Falaria
espontaneamente? Mesmo correndo o risco de ser traído por meus instintos, de
dizer um montão de bobagens infundadas e de ser ridicularizado pelo espírito
maligno e justo que sempre atiça as platéias? Ou, matreiramente, ordenaria
minhas idéias num roteiro em forma de jaula (como fazem os professores), para
assim preservar minha integridade intelectual e garantir a imagem que quero que
tenham de mim? Sempre tive
preconceitos com os palestradores que não palestram e com os vivaldinos das
metodologias pós-modernas. Entretanto, depois que vi o próprio Chomsky, o Edgar
Morin e outros pequenos deuses da atualidade, neste mesmo estrado, agarrados à duas ou três laudas, com os joelhos trêmulos e apertados
um ao outro, fui relaxando e sendo mais condescendente com meus fantasmas e com
minhas antigas exigências, baseadas muito mais numa idealização semi-religiosa
e boçal do mundo, e muito mais num superego vil, do que no bom senso. Claro que
se estivessemos numa Bolonha medieval ou numa Sorbone do século XIII, onde os
professores eram escolhidos pelos próprios alunos, por sua sapiência e não por
sua astúcia, uma postura destas me custaria não apenas
a cátedra, mas também a honra. Aliás, quero lembrar que só concordei em vir
expor-me aqui, deste jeito, porque o convite partiu dos alunos. Não porque
acredite que eles sejam menos viperinos que seus mestres, mas por saber que
ainda não precisam defender o Espaço Universitário nem a Práxis acadêmica com a
obsessão de quem defende um dogma. Por outro lado, porque identifiquei na
lógica desse convite, uma prática correta e saudável da Idade Média. Seria
fascinante se voltassem a ser eles, os alunos, que escolhessem rigorosamente
seus palestrantes, seus professores, seus peritos, seus orientadores, etc, como
o era naquele tempo. E que não fossem, claro,
recrutá-los apenas lá no interior das mesmas confrarias financiadas por
organismos estatais ou multinacionais, nem que se deixassem impressionar pelos
títulos ou pela quantidade das Cartas de
Recomendação, memorandos, “pistolões”
bilhetinhos, exibidas pelos Quando tento
entrar de vez no assunto que aqui interessa, me deparo com minhas limitações e
com a dificuldade de esboçar até um simples retrato tanto do suposto
"sujeito marginal", como da produção "supostamente
naldita". E digo suposto propositalmente para insinuar desde já que,
talvez, nem seja possivel ser MARGINAL, essa pecha pejorativa que os editores
do século XVIII lançaram, com fins estritamente econômicos, contra àqueles
autores que preferiam publicar eles próprios as suas obras. E digo suposto, - repito
- porque qualquer um de vocês conhece a dificuldade de permanecer sem nenhum
estatuto, à margem, do outro lado do arame farpado, além de um período curto e
idílico, já que tudo neste planeta beato conspira para que sejamos, ou jogados
terminantemente no lixo ou cooptados pela máquina da cultura. E se por milagre
o sujeito conseguir resistir a esse assédio por toda a vida (o que é quase
impossível, uma vez que - como dizia Foucault - o anonimato literário não lhe é
suportável), assim que bate as botas é rapidamente resgatado e reabilitado
pelos abutres da literatura: um padre, um professor, um mestrando ou um mecenas
qualquer. Então se torna lenda, folclore, um santo, um espírito benéfico ou
maléfico que renderá dinheiro para alguém, mesmo quando constava em seu curricullum o diagnóstico de ateu,
anarquista, anti-social, corsário, vagabundo, perverso sexual, mendigo, boêmio,
cachaceiro, louco por xotas, delinqüente, autodidata, etc. Pelo que já
vimos até agora, tanto neste como em outros países, o tal "marginal"
não é necessariamente um sujeito que diz NÃO para sempre ao Contrato Social, e
tampouco aquele que cospe de forma irretroativa sobre os cânones principais do
Estado, da Família, da Igreja e das outras Sim, o “marginal
das letras” é um personagem que ganha visibilidade apenas num tempo determinado
e limitado de sua trajetória. De um dia para outro, ou some naturalmente do
mapa, sem deixar rastro, ou é absorvido e enrabado pela melancolia democrática. Como todo
farsante, descobre - como escrevia Pasolini - que é muito melhor ser inimigo
do povo do que inimigo da realidade. Vai mudando de pele como uma serpente, ou
como um calango, racionalizando seu retrocesso e sua metamorfose até que se
deixa seduzir definitivamente por uma editora, por uma seita, por uma viúva,
por um contracheque, por uma vaga num Departamento de universidade ou de
Ministério, ou pelos elogios de um pederasta da mídia. Sucumbe à própria
vaidade escamoteada e ao narcisismo que há décadas espreitava do fundo de seus
complexos. Começa adocicar as palavras, preocupar-se com a gramática, fazer
concessões, mudar o penteado, aparecer engravatado nas saturnais dos corruptos
emergentes e pleitear uma cadeira entre a troupe senil que comanda há séculos a
maioria dos banquetes. De Balzac a Lima Barreto. De Gregório de Matos a
Leminsky. De Jean Genet e Samuel Rawet a Plinio Marcos, etc sempre a mesma ambigüidade
e o mesmo flerte esquizóide com o Lixo e com o Luxo, como se trilhar à
"margem" e na "contramão" da comédia social não fosse uma
opção consciente nem um destino irrevogável, mas apenas um esnobismo neurótico
experimental. Mesmo assim,
seria ridículo negar que produziram melhores obras aqueles que, por uma razão
qualquer, foram banidos do sistema, cuspidos para fora da família, amaldiçoados
por uma mãe histérica e por um pai asselvajado, excomungados, algemados,
barrados na porta das universidades, rejeitados pelo mundo editorial, possuídos
por uma ou outra forma de loucura. Sim produziram melhores trabalhos aqueles
que encontraram na própria bílis a maneira mais cruel de exercer a denúncia,
por um lado, contra a espécie abominável que é o homem e por outro, contra um
mundo tão frívolo e tão pérfido. |