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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.


Florisvaldo Mattos


   GALOPE AMARELO

   Quando ele voltou
   a moça do portão estava casada
   o prefeito era uma cruz e uma placa
   as aves mudaram de itinerário
   como o ônibus
   o irmão mais moço tomava ópio
   para esquecer.

   Quando ele voltou
   o empregado da esquina respondera
   a um processo
   onde perdeu a esperança e os dedos
   o pai fuzilara um estudante
   a mãe fugira com um mascate.

   Quando ele partiu
   a primavera galopava nos rosais
   os campos de begônia floresciam
   o gado esturrava nos currais
   a terra desafiada vicejava como
   uma égua na véspera do galope.

   Quando ele partiu
   o alimento dos olhos era verdura
   de paisagem além da cerca
   as goiabas enchiam os cestos
   as mulheres voltavam com os meninos
   os velhos falavam de assombração
   a lua espreitava o pátio e o quintal.

   Quando ele voltou
   o ministro citava o arquiteto
   com a pretensão de restaurar
   o tempo à revelia dos relógios
   o muro substituía o horizonte
   autoridades sonolentas distribuíam
   o passaporte dos homens para o sanatório.

   Quando ele voltou
   as leis se haviam tornado ainda mais fósseis
   as oligarquias muito mais poderosas
   os poderosos mais astutos
   o ministro lembrava "a pá sob os escombros"   
   o menino relia as manchetes da guerra
   os preconceitos rimavam com a economia.

   Quando ele voltou
   havia uma encruzilhada e um alto-falante
   a moça do portão estava casada
   o irmão caçula era um soldado velho.

   Quando ele partiu
   a primavera galopava nos rosais.
   Quando ele voltou
   o céu era só um galope amarelo.



   In Fábula civil, 1975.







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