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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.


Florisvaldo Mattos


   REVISITANDO GUERNICA

   Onde álacres campinas de recreio
   Abriam-se a canto e alarido escolar;
   Onde antes havia o tempo sem abismos,   
   Coruscantes ruas, comércio lucrativo,
   Familiar convívio de pacatos rostos,
   Ah, tudo desapareceu na hora agra:
   Algo se transmudou em chão rugoso,
   A seara insone de insaciadas fomes.

   Foram um mil seiscentos e cinqüenta
   Mortos; oitocentos e oitenta e nove
   Feridos e aleijados. Em Guernica,
   As platibandas antes imponentes
   Testemunharam o furor do sangue;
   Enquanto avança o vento assoviando,
   Fendas no chão de crenças, sonhos
   Súbito de pedra viram coágulos.

   Aquartelados nos oitões da sombra,
   De alumínio e aço centuriões desatam
   Os arsenais de mortas dinastias —
   Metálico tropel, inferno a vômitos.
   Meteoro cravado a ferro e fogo
   Sobre chaga ainda incólume sem idade,
   Guernica: Tróia em terras de Numância;
   Canudos no caminho de My-Lai.

   Como que pendentes das estatísticas
   E dos noticiosos radiofônicos,
   Milhares de pássaros em pânico,
   Mulheres e homens por aqui passaram,
   Sem olhos e mãos aos céus clamando.
   Ao marulho de pés acorrentados,
   Marcham por vales e nevados montes.
   Marcham, e marcham para a eternidade.



   In A caligrafia do soluço & poesia anterior, 1996.







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