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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.



IGNACIA, APOLÔNIA E MARIANA

Gregório de Matos


Fonte: Unicamp


Pertende o Poeta introduzir-se, com a primeyra, ou segunda.

Deyxaram estas damas de ir a festa da cruz por falta de rede e o Poeta se mostra sentido de o não saber.
 
Insiste o Poeta a querer ser amado de Ignacia.

Como a não pôde o Poeta render entra a pica-la com louvar a Apolônia, e lhe de advertir, que estas tratavão com huns musicos fulanos jardins, que moravam nas hortas.

Ignacia irritada desta satyra descompoz de palavras ao Poeta e elle se despica com estas décimas.

Desconfiado o Poeta dos desprezos que lhe fazia Ignacia entra a descompo-la por hum arriscado parto que teve.




PERTENDE O POETA INTRODUZIR-SE, COM A PRIMEYRA, OU SEGUNDA.  

    1      Dá-me Amor a escolher
            de duas uma demônia,
            ou Ignacia, ou Apolônia,
            e eu me não sei resolver:
            a ambas hei de querer,
            porque depois de as lograr
            mais fácil será acertar,
            que nos riscos da eleição
            o seguro é lançar mão
            de tudo por não errar.

    2      Assim será: mas que monta
            isto que fazer pertendo,
            se dirão, que estou fazendo
            sem a hóspeda esta conta:
            qual delas será tão tonta,
            que se acomode aos desares
            de partir com seus pesares
            amor, assistência, e tratos,
            se as Damas não são sapatos,
            que se hajam de ter aos pares.

    3      Mas se debaixo da Luz
            não val mais esta, que estoutra
            eu não deixo, uma por outra,
            nem escolho outra por uma,
            não há dúvida nenhuma,
            que ambas são moças de porte,
            e se não mo estorva a morte,
            ambas me hão de vir à mão,
            Ignacia por eleição,
            e Apolônia pela sorte.

    4       Isto que remédio tem,
             sejam entre si tão manas,
             que repartindo as semanas,
             vá uma, quando outra vem;
             que eu repartirei também
             jimbo, carinho, e favor,
             porque advirta algum Doutor,
             que sendo à lógica oposto,
             na aritmética do gosto
             pode repartir-se o amor.

DEYXARAM ESTAS DAMAS DE IR A FESTA DA CRUZ POR FALTA DE REDE E O POETA SE MOSTRA SENTIDO DE O NÃO SABER.  
    Quis ir à festa da Cruz
    Ignacia, e faltou-lhe a rede,
    com que foi força ficar
    Paredes sobre paredes.
    Outros dizem, que uma amiga
    lhe pedira o manto adrede
    pela ter emparedada
    todo o dia, em que lhe pese.
    Não sei a verdade disto,
    sei, que eu paguei a patente,
    tendo um dia de trabalho,
    porque de festa lho desse.
    A saber, que estava em casa,
    visitara-a como sempre,
    e fizera, o que costumam
    casados in facie eclesiae.
    Fora-me pôr à janela,
    porque o calor me refresque,
    falara cos Guapas sujas,
    que são limpas guapamente.
    Mariana se agastara,
    que tudo escuta, e atende,
    por isso diz o adágio
    "manso, que ouvem as paredes."
    Sabendo deste ciúme
    foram os Guapas contentes
    que inda que mulheres feias,
    são feias, porém mulheres.
    Ignacia se sossegava,
    que é moça mansa, e alegre,
    e com dous dedos se põem
    sendo Ignacia, uma clemente.
    Da sua amiga me queixo,
    que cão d‘horta me parece,
    pois em todo o dia não
    comeu, nem deixou comer-me.
    Com Ignacia já não quero
    lançar mais barro à parede,
    que de mui seca receio,
    que ali meu barro não pegue.
    Uma Mãe com duas Filhas
    na verdade é pouca gente,
    para que eu possa cantar
    preso entre quatro paredes.
    Três só não fazem prisão,
    porque um triângulo breve,
    que um signo salmão figura,
    mais enfeitiça, que prende.
    Mas a parede de Ignacia
    com ser uma tão-somente
    como é tão forte, e tão rija,
    bastou só para prender-me.
    Perdi o ganho esta tarde,
    e cuido, que para sempre;
    quem ma pegou uma vez,
    não quero, que outra me pegue.
    Da Santa Cruz era a festa,
    e a maldita da Paredes
    com cruz, e sem cruz receio
     me faça calvários sempre.
    Eu perdi Moça, que agrada,
    ela velho, que aconselhe,
    ambos ficamos perdidos,
    quem o vê o remedeie.
INSISTE O POETA A QUERER SER AMADO DE IGNACIA.  
    1      Ignacia, vós que me vedes
            em tal desesperação
            remediai-o senão
            dareis por essas paredes:
            na malha das vossas redes
            quis eu minha alma enredar
            por vos servir, e adorar:
            mas vós, sem que Amor me valha,
            mesmo me rompeis a malha,
            a fim de me não pescar.

    2      Não vos rende o meu carinho,
            porque em vossa estimação
            sou já peixe sabichão,
            e vós me quereis peixinho:
            se com todo o meu alinho
            vos não mereço o favor,
            que importa o vosso rigor,
            se se sabe, e vós o vedes,
            que quero nessas Paredes
            fundar um templo de Amor.

    3      Quando as paredes juntemos
            a vossa, que é frontal,
            co'a minha de pedra e cal,
            uma grande obra faremos:
            a Amor a dedicaremos,
            porque guarde as vossas redes,
            que eu creio, e vós bem o vedes,
            que tudo irá em rigor
            ver as paredes de Amor,
            só por amor das Paredes.

COMO A NÃO PÔDE O POETA RENDER ENTRA A PICA-LA COM LOUVAR A APOLÔNIA, E HE DE ADVERTIR, QUE ESTAS TRATAVÃO COM HUNS MUSICOS FULANOS JARDINS, QUE MORAVAM NAS HORTAS.  
    A ser bela a formosura,
    a beleza a ser formosa
    mudamente as ensinava
    a boquinha de Polônia.
    Ensinava de cadeira
    na academia, ou escola,
    onde era lente de prima,
    sendo a terceira das Moças.
    A Açucena repreendia
    com duas faces formosas,
    por que unisse ao carmim,
    para alento pouca boca.
    E como o cravo é jurado
    Príncipe em cortes de Flora,
    se fez conselho de estado
    sobre casar-se co'a rosa.
    Respondeu ela, que sim,
    e incendida de vergonha
    ficou-lhe a boca mais cravo,
    do que era o cravo na boca.
    Assistir ao desposório
    correu a nobreza toda,
    com galas de várias cores,
    porque de campo era a boda.
    A nobreza dos Jardins,
    que tem seu solar nas Hortas,
    cortando galas de novo
    veio com elas em folha.
    Desposou-se Rosa, e Cravo,
    mas eu creio, que da boda,
    onde folgou toda a casa,
    vi as Paredes queixosas.
IGNACIA IRRITADA DESTA SATYRA DESCOMPOZ DE PALAVRAS AO POETA E ELLE SE DESPICA COM ESTAS DÉCIMAS.  
    1      Branca em mulata retinta,
            quem vos meteu no caqueiro,
            que uma pinga do tinteiro
            não suja a mais branca tinta!
            mas se sois branca distinta,
            se sois sem mistura branca,
            que importa, se a porta franca
            tendes a todo o pismão,
            aos Brancos pelo tostão,
            aos Mulatos pela franca.

    2      Vós sois mulata tão mula,
            que amais fanada mulata
            é negra engastada em prata,
            e vós sois mulata fula:
            se quem lá vai, vos adula,
            e de sangue vos melhora,
            porque lho deis cada hora,
            dai-lo cada vez, que vá,
            que na catinga verá
            que sois branca como amora.

    3      As putas do toque-emboque
            são putas esfarrapadas,
            são paredes arruinadas
            com seu branco por reboque:
            eu não meto o meu estoque
            em burquéis esfuracados
            porque vasos tão usados
            de estoques, ou membros vivos
            não são vasos, são uns crivos,
            de que os membros saem relados.

    4      Viveis no jogo da bola,
            só por teres sempre à vista
            o Monge, que vos conquista,
            o Frade, que vos consola;
            e quando vos falta a esmola
            aos soldados vos tornais,
            e como ali não achais
            a cura, que pertendeis,
            cos Frades vos corrompeis,
            e assim nunca vos soldais.

DESCONFIADO O POETA DOS DESPREZOS QUE LHE FAZIA IGNACIA ENTRA A DESCOMPO-LA POR HUM ARRISCADO PARTO QUE TEVE.  
    1      Pariu numa madrugada
            Ignacia, como já vedes,
            e caindo-lhe as paredes
            ficou desemparedada:
            temo, que não valha nada,
            pois tendo o vaso partido,
            qual pardieiro caído,
            recolherá todo o gado,
            ou das chuvas acossado,
            ou das calmas retraído.

    2      E vendo, que ali se apóia
            o gado no pardieiro,
            dirá todo o passageiro
            tristemente "aqui foi Tróia":
            por aquela clarabóia
            despedaçada em caqueiros
            entrar eu vi cavaleiros,
            que quando Tróia reinava,
            apenas um a um entrava,
            mas agora entram carreiros.

    3      Não me espanto dos adornos
            de uma Dama singular,
            que em cornos venham parar,
            porque ela parirá cornos:
            mas que tantos caldos mornos
            de estíticas qualidades
            em tantas calamidades
            não valham, são desenganos
            da resolução dos anos,
            da carreira das idades.

    4      Deixai pois o artifício,
            Ignacia, porque bem vedes,
            que ao baque de umas paredes
            espirra todo o artifício:
            deixai a vida do vício,
            as que o seu vício eternizam,
            e se a vós vos finalizam,
            alerta, que as pedras falam,
            que as paredes vos estalam,
            que os estalos vos avisam.



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