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Fernando Kraichete


Em Dubito, ergo sum, página sobre literatura, encontrei esse excelente trabalho de Carlos Ceia, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que faço questão de reproduzir. Apenas a ilustração foi acrescentada por mim.


Afrodite, Pã e Eros
(Museu Arqueológico Nacional, Atenas)



LITERATURA ERÓTICA

Carlos Ceia

Género literário que inclui toda a literatura licenciosa, dirigida para a libertação do desejo sexual ou do amor sensual, independentemente do grau de licenciosidade, o que levaria, como alguns entendem, a uma distinção entre literatura erótica (menos licenciosa) e literatura pornográfica (abertamente licenciosa). Esta distinção está longe de ser válida para toda a literatura que descreve experiências do desejo sexual e do amor explícito. Se atendermos ao facto de que até ao final do século XIX, por força da moral estabelecida canonicamente, toda a literatura que ofendesse os bons costumes, excitasse claramente o apetite sexual ou cuja linguagem incluísse termos licenciosos ou obscenos era considerada “erótica”, com uma forte carga pejorativa, então não devemos ser nunca capazes de estabelecer um critério rigoroso para distinguir o que é erotismo do que é pornografia. Por exemplo, uma busca na Internet sobre literatura erótica levar-nos-á hoje a toda a espécie de sítios de pornografia comercial, o que pode ajudar a compreender como é fácil confundir erotismo com pornografia. Por outro lado, a literatura erótica remete para as descrições estéticas do amor sensual, rejeitando a exclusividade da procura do prazer explícito que resulta da exibição pública ou privada desse amor. O nível de representação do amor sensual tem servido também, com muitos riscos, para distinguir o erotismo (softcore, menos explícito, menos descritivo, menos visual) da pornografia (hardcore, mais explícita, mais descritiva, mais visual). Obviamente, encontraremos nas literaturas de todo o mundo inúmeros exemplos que podem contrariar esta distinção. Uma outra distinção tem a ver com o tipo de censura que o erotismo (menos censurável) e a pornografia (mais censurável) podem veicular. Como esta distinção depende do tipo de formação cultural e moral de cada indivíduo, não vemos como pode funcionar como critério independente para avaliar as diferenças entre os dois tipos de representação literária do amor sensual. Finalmente, as mais recentes tentativas da crítica feminista para distinguir entre uma arte menos opressora da figura da mulher enquanto objecto do desejo sexual (erotismo) e uma arte que repugna por reduzir a mulher a um mero objecto sexual, simbólico ou real (pornografia), encalham no facto de muitas representações literárias não separarem os papéis sexuais de forma tão clara, colocando até a figura masculina em funções pouco edificantes ou em posições de perda de poder. Por estas razões, e porque a base de todo o desejo sexual é a relação amorosa (o elogio de eros) e não necessariamente a relação pornográfica (do grego porné, “cortesã, prostituta”, logo o elogio da prostituição), optamos por consagrar a entrada deste verbete a partir da designação mais universal de literatura erótica, ficando implícita a inclusão da literatura que se considere pornográfica, mas também obscena, indecente, libidinosa, licenciosa, ultrajante, etc., adjectivos com os quais tem convivido sinonimamente. Aceitemos que “a pornografia é o erotismo dos outros” (pensamento atribuído a Chris Marker) ou que estamos a falar de “duas palavras que designam as mesmas coisas como é evidente, conforme o olhar que incida sobre elas” (Jean-Jacques Pauvert, A Literatura Erótica, Teorema, Lisboa, 2001, p. 9). Prevalecendo a expressão literatura erótica, aceitemos ainda que ela representa uma conquista da literatura decadentista do século XIX, tendo até aí sido dominante a expressão literatura sotádica (do grego Sotadès, autor obsceno do séc.III, a.C.).

Os primórdios da literatura mundial conhecem já variadíssimos exemplos de expressão literária do amor sensual. Aristófanes legou-nos Lisístrata (411 a.C.), uma das primeras obra importante do erotismo antigo, história de uma jovem que exorta as suas conterrâneas atenienses a uma greve de sexo para pôr fim à guerra do Peloponeso. Os textos bíblicos contêm inúmeros exemplos que facilmente entram na categoria de literatura erótica, como este passo de Isaías: “15- Naquele dia Tiro será posta em esquecimento por setenta anos, conforme os dias dum rei; mas depois de findos os setenta anos, sucederá a Tiro como se diz na canção da prostituta. 16- Toma a harpa, rodeia a cidade, ó prostituta, entregue ao esquecimento; toca bem, canta muitos cânticos, para que haja memória de ti. 17- No fim de setenta anos o Senhor visitará a Tiro, e ela tornará à sua ganância de prostituta, e fornicará com todos os reinos que há sobre a face da terra. 18- E será consagrado ao Senhor o seu comércio e a sua ganância de prostituta;” (Isaías, 23: 15-18). Aqui, mais do que em qualquer outro código de ética, fica já implícito que o amor sensual implica a uma certa compostura (“Igualmente quanto à mulher com quem o homem se deitar com sêmem ambos se banharão em água, e serão imundos até a tarde.”, Levítico, 16: 18), cuja infracção pode ser severamente punida, o que é particularmente grave na “descoberta da nudez”, pecado maior que deve ser punido exemplarmente (“Pois qualquer que cometer alguma dessas abominações, sim, aqueles que as cometerem serão extirpados do seu povo.”, Levítico, 18: 29). Durante o período Han, na China antiga, entre 206 e 220 a.C., circularam vários manuais didácticos sobre a prática sexual, segundo a fórmula literária do diálogo entre um Imperador e um dos seus perceptores ou profefessores de práticas sexuais. No século IV, na nossa era, surge, na Índia, o mais universal de todos os manuais sexuais, o Kama Sutra, ainda hoje lido e apreciado, escrito pelo letrado Vatsyayana para manter uma antiga tradição de escrita de sutras (textos religiosos para o grande público de fácil leitura e compreensão).

A Idade Média conserva uma importante literatura satírica que inclui inúmeras espécies eróticas e pornográficas. Os poemas eróticos de Eustache Deschaws, o livro De amore, de Andreas Capfillanus, o Decâmeron de Boccaccio, os Canterbury Tales, de Geoffrey Chaucer, e, no espaço galego-português, as cantigas de escárnio e mal dizer, por exemplo, constituem alguns bons exemplos de uma literatura erótica que rompe com todas as regras do amor cortês. Esta herança medieval está bem vincada numa das mais ricas literaturas europeias, a francesa, que conhece nos século XVI obras-primas do género como Pantagruel (1532) e La Vie très Horrificque du Grand Gargantua (1534), de Rabelais, celebrações parodísticas de todos os excessos do amor sensual. Neste mesmo contexto, um grupo de poetas franceses, conhecido por La Pléiade, onde se destacam Pierre de Ronsard e Joachim du Bellay, privilegiou a poesia amorosa de forte carácter libidinoso. Em 1553, Ronsard publicou Livret de folastries, mas será o seu livro de sonetos Sonnets pour Hélène (1578) que o distinguirá, ficando na memória histórica a figura simbólica do amor serôdio e proibido de um velho que se apaixona por uma mulher muito mais nova, resumido no célebre verso: “Quand Vous Serez Bien Vieille, le Soir, à la Chandelle”, mais tarde parafraseado pelo poeta irlandês W. B. Yeats (“When You are Old and Grey and Full of Sleep”).

A literatura erótica do século XVIII encontra no português Bocage um exemplo de como é possível não estabelecer limites ao grau de licenciosidade no texto literário. Na sua obra mais marginal, Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (Marujo Editora, Lisboa, [2001]), no soneto “Lá quando em mim perder a humanidade”, podemos ler versos como estes que apresentam o Poeta como um sofredor de amor no mais alto grau de licenciosidade: “Lavre-me este epitáfio mão piedosa: // ‘Aqui dorme Bocage, o putanheiro: / Passou a vida folgada, e milagrosa: / Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.’ “. Pela mesma altura, o inglês John Cleland publica Fanny Hill: Memoirs of a Woman of Pleasure, publicado em dois volumes em 1748 e 1749, o que lhe valeu de imediato a prisão sob a acusação de ter publicado um livro pornográfico, ofensivo para os bons costumes. O romantismo alemão também nos legou obras como a colecção de poemas eróticos com que Goethe contribuiu para a revista dirigida por  Schiller, Die Horen, onde se incluem as Römische Elegien (1795; Elegias Romanas, 1876), poemas inspirados na relação amorosa de Goethe com Christiane Vulpius. Mas neste século XVIII poucos ganharam lugar de maior destaque na história da literatura erótica do que o exemplo do Marquês de Sade (1740-1814) escritor francês cuja obra foi amaldiçoada publicamente enquanto viveu. Os constantes atentados ao pudor, a prática quase selvagem de relações sexuais que não conheceram limites, e as ofensas à moral levaram-no à prisão várias vezes, onde escreveu a maior parte das suas obras, sob rigorosa censura. De salientar os romances Cent vingt journées de Sodome (Cento e Vinte Dias de Sodoma, 1782-1785) e Justine ou les malheurs de la vertue (Justina ou as Infelicidades da Virtude, 6 volumes, 1791-97). Cento e Vinte Dias de Sodoma, obra de esgotamento criativo, onde Sade julgava ter alcançado o seu próprio limite, perdeu-se na Bastilha, onde tinha estado preso durante dois anos. As mais de 300 páginas do livro foram recuperadas mais tarde por um carcereiro, que as encontrou. Sade também soube descrever, com rigor filosófico, as suas próprias experiências sexuais, bizarras, agressivas, obscenas, pouco ortodoxas e sempre a roçar os limites do desejo libidinoso. Tais práticas incluem a sodomia (sexo anal) a pedofilia e a macrofilia (sexo com crianças e velhos) e a coprofilia (sexo com fezes). À lista das suas reflexões teremos que juntar Le Philosophie dans le boudoir (1795). Esta personalidade fortemente inclinada para o excesso da vida sexual, com recurso a todo o tipo de perversão, fez com que o seu nome se consagrasse para designar um tipo de neurose ou pulsão agressiva a que os psiquiatras chamam sadismo. No lado oposto, o elogio do amor sensual pelo triunfo do poder único da sedução, temos ainda Les Liaisons dangereuses (1782), de Pierre Choderlos de Laclos. Como bem comenta um dos mais conhecidos teóricos do erotismo, Francesco Alberoni, “ Há uma estreita ligação entre a raiz colectiva do erotismo feminino e a sedução como manipulação e intriga. Tudo o que é colectivo está inextricavelmente ligado ao poder e à luta pelo poder. Nas cortes, nas sociedades ariostocráticas como a França do século XVIII, a sedução era um potente meio de afirmação social, de prestígio, por último, de revolta.” (O Erostismo, 8ª ed., Bertrand, Venda Nova, 1995, p.229).

A procura do prazer pela dor não é um exclusivo do sadismo. O austríaco Leopold Franz Johann Ferdinand Maria Sacher-Masoch (1836-1895) ficou conhecido por um outro tipo de perversão sexual, o prazer obtido pela dor física e pelo sofrimento corporal, pulsão que foi  imortalizada com o nome de masoquismo. Masoch foi um aristocrata letrado, escritor de qualidade, tendo-nos legado histórias eróticas de indivíduos que só alcançavam o prazer sexual se fossem chicoteados, por exemplo: Eine Galizische Geschichte (Uma História Galega, 1846); Der Don Juan von Kolomea (O Don Juan de Kolomea, 1866); Das Vermächtnis Kains (O Legado de Caim, 1870-1877), que inclui o famoso romance erótico Venus im Pelz (A Vénus das Peles, 1874). Em França, o ano de 1857 é particularmente importante para a literatura erótica: Gustave Flaubert publica o romance Madame Bovary, imediatamente classificado como pornográfico por tomar como tema as experiências de adultério de uma jovem provinciana casada com um viúvo medíocre, mas que há-de marcar o ponto de partida da época de ouro do romance realista. 1857 é ainda o ano de Les Fleurs du mal, de Baudelaire, também acusado de imediato de imoralidade, pelo satanismo, pela preocupação com o macabro e com as perversões sexuais. Este livro de poemas tornar-se-ia no manifesto do decadentismo e persistirá nessa condição até ao século XX.  Em Portugal, será Eça de Queirós quem interpretará de forma mais justa e à letra a tese naturalista com O Crime do Padre Amaro, onde concentrou a sua atenção na descrição dos ambientes sociais, particularmente nas deficiências e nas imperfeições da natureza humana, incapaz de ceder ao desejo carnal mais primitivo. Um outro tipo de erotismo pode ser encontrado na poesia de Cesário Verde, como exemplo de sublimação do amor sensual, sempre fingido ou sempre adiado.

No primeiro volume da História da Sexualidade, A Vontade de Saber, Michel Foucault conclui na história do sentimento ocidental dois procedimentos fundamentais para a realização da verdade do sexo: por um lado, as numerosas sociedades (Roma, China, Índia, Japão, e sociedades arábico-muçulmanas) que desenvolveram uma ars erotica, que extraiu a verdade do prazer em si mesmo, se compreendido como uma prática, acumulável como experiência, onde não existe lugar para as proibições, e prazer medido na sua intensidade pelos reflexos que produz no corpo e no espírito. Há nesta arte erótica um segredo a perseverar, um conhecimento que perderá a sua essência se se divulgar, por isso exige a instituição de um mestre que detém esse segredo de vitalidade e só ele pode transmitir a sua arte, de forma esotérica. Pelo contrário, a civilização ocidental não possui qualquer ars erotica. É a única civilização a praticar uma scientia sexualis, isto é, a única civilização a desenvolver durante séculos as regras de procedimento que nos hão-de garantir a verdade do sexo. Para isso, desenvolve-se o primado da confissão, em estreito contraste com a arte da iniciação e do segredo esotérico. Foucault acaba por declarar que o homem ocidental se tornou um animal confessor. A sexualidade é o resultado da prática discursiva dessa actividade confessional e constitui-se em scientia sexualis, que o cristianismo ocidental instituiu para produzir a verdade sobre o sexo. A poesia feminina (isto é, virada para o objecto feminino) de Cesário Verde é a expressão subjectiva da coita amorosa masculina, quase sempre determinada por um amor sem possibilidades de realização libidinosa - uma poesia de mimos e nunca de jouissance plena. A coita do português arcaico vem do latim cogitare, que significa "ficar a cismar", daí que ao trovador fique bem o atributo de coitado, isto é, aquele que está pré-ocupado por alguma paixão. Veremos, como este estado se ajusta na perfeição ao caso de Cesário, cuja poesia é bastante fixa, codificada num número restrito de atitudes/posições sexuais, pouco inovadoras, a exemplo das cantigas de amor medievais. A vassalagem sentimental, a mesura ou submissão do amante, o louvor patético (relativo ao sofrimento e ao amor) da mulher divinizada e confundida num panteísmo mal explicado, a saudade da "mia senhor" - entre todos estes temas do amor cortês do lirismo provençal, encontramos exemplos na poesia para a mulher de Cesário Verde. Com mais insistência, vamos encontrar aquela atitude que se perde nos tempos de talhar preito e menagem, que mais do que a promessa do namorado ser presente na entrevista amorosa é uma promessa de submissão à mulher. Para mais, no sentido de alcançar o favor supremo de quantas donas invoca na sua poesia, Cesário se mostra um fraco amante não indo além do estádio do fenhedor que se consome em suspiros. Nunca ousa pedir, nunca chega a corresponder-se ou a ser correspondido, e muito menos ensaia os prazeres da jouissance feminina a que os trovadores provençais aspiravam ao atingirem a maturidade do drut (amante). As convenções da poesia amorosa de Cesário saem do lirismo provençal e procuram obedecer religiosamente ao código da cortesia, que dificilmente entrará na categoria de literatura erótica. De outra espécie é a arte de Eça de Queirós, em O Crime do Padre Amaro:

 

Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punha-se então a ler os «Cânticos a Jesus», tradução do francês publicada pela Sociedade das Escravas de Jesus. É uma obrazinha beata, escrita com um lirismo equívoco, quase torpe - que dá à oração a linguagem da luxúria: Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes de uma concupiscência alucinada: «Oh! Vem, amado do meu coração, corpo adorável, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero! Abrasa-me! Queima-me! Vem! Esmaga-me! Possui-me!» E um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme ruge, declama assim em cem páginas inflamadas onde as palavras gozo, delícia, delírio, êxtase, voltam a cada momento, com uma persistência histérica.

(Obras Completas de Eça de Queiroz, vol.4, Círculo de Leitores, Lisboa, 1980, p.29)

 

Não admira a preferência de Amaro por estes cânticos, pois eles traduzem, sem levantar suspeita, a linguagem do desejo libidinoso. Amaro conclui: "É beato e excitante" — precisamente, essa é também a conclusão de todo o romance. Este passo do romance contém, aliás, todos os termos da jouissance. "Concupiscência", ou apetite sexual ou desejo intenso de gozo, é o termo de Eça que corresponderá à jouissance. As palavras que Eça destaca — "gozo, delícia, delírio, êxtase" — são significantes da jouissance e determinam não só toda a dialéctica do desejo n'O Crime do Padre Amaro como pode ilustrar o léxico privilegiado do discurso amoroso da literatura erótica.

O modernismo que inaugura o século XX teve nos seus poetas de vanguarda os melhores intérpretes do erotismo, bem representado no grito "Rezai a Luxúria." — exortação às gerações portuguesas do século XX pronunicado pelo pintor, desenhador, poeta, romancista, declamador, dramaturgo, ensaísta, conferencista e crítico de arte Almada Negreiros. Aquele grito de vanguarda pertence ao "Ultimatum" que escreveu para o número único do Portugal Futurista, revista porta-voz do futurismo literário português publicada em Lisboa, em 1917. Ao texto de Almada seguia-se um «Manifesto Futurista da Luxúria» de Madame Valentine de Saint-Point. Aqui podemos ler as coordenadas da sexualidade da poesia de vanguarda de Almada Negreiros: “A Luxúria é a tentativa carnal do desconhecido (...) A arte e a guerra são as grandes manifestações da sensualidade; a luxúria é a sua flor. (...) A Luxúria estimula as energias e desencadeia as forças. É preciso ser consciente na Luxúria. É preciso dispor da Luxúria como um ser inteligente e raffiné dispõe de si próprio e da sua vida; é preciso fazer da Luxúria uma obra de arte.” (Portugal Futurista, edição facsimilada, Contexto, Lisboa, 1990). O poema de vanguarda de Almada Negreiros "A Cena do Ódio" (escrito em 1915, aos 22 anos, publicado em parte na revista Contemporânea, nº7),  realiza uma subversão daqueles que eram, no princípio do século XX, os valores morais, naturais e sociais, sobretudo pelo recurso a imagens de pedofilia, bestialidade, prostituição, adultério, sodomia e pela instituição de condições perversas de realização sexual, como fetichismo, travestismo, voyeurismo e sadomasoquismo. A léxis da Luxúria no poema de Almada inclui quase todas as perversões e patologias sexuais: sodomia ("Hei-de morder-te a ponta do rabo", p.50), prostituição ("não tenho sequer, irmãs bonitas / nem uma mãe que se venda por mim", p.51), nudismo ("O nu d'aluguer / na meia-luz dos cortinados corridos!", p.52), impotência ("as mulheres portuguesas / são a minha impotência", 56) satiríase "de tanto se encharcar em gozos / o seu corpo atrofiou", p.57), adultério ("Porque casaste com a tua mulher / se dormes mais vezes co'a tua criada?", p.62), zooerastia ("Vem ver os chimpanzés! / Acorpanzila-te neles te ousas!", p.63), sadismo ("Eu quero-te vivo, muito vivo, a sofrer!", p.63), frigidez ("Hei-de ser a mulher que tu gostes, / hei-de ser Ela sem te dar atenção!", p.66). Não há aberrações sexuais mais chocantes para com as conveniências sociais e religiosas do que a bestialidade e a sodomia. Durante muito tempo, a bestialidade foi punida com a morte na fogueira, tanto para o homem como para o animal. Almada quer agora levar para essa mesma fogueira a escória burguesa. A história indecente desta escória parece pertencer a um dos Cento e Vinte Dias de Sodoma, que o não menos perverso Sade narrou. Almada tentou fazer a história dos dias da Sodoma moderna.

O inglês D. H. Lawrence (1885-1930) é o autor de um dos mais polémicos romances eróticos da primeira metade do século XX: Lady Chatterley’s Lover, escrito em 1928, publicado parcialmente em 1932, banido de imediato em Inglaterra, de novo publicado pela Peguin Books em 1959 e de novo proibido, só por decisão de um tribunal em 1960 o livro pode circular livremente. O romance é a história de Constance Reid, uma mulher da nobreza, bela e sedutora, que se envolve sexualmente com um empregado da mansão em que vive, depois de o seu marido ter ficado inválido numa das frentes de batalha na Primeira Guerra Mundial. Lawrence descreve com pormenor as relações sexuais de ambos, tentando glorificar a força do amor sensual longe que não pode obedecer às leis castas da sociedade, em termos que só podiam chocar a mentalidade puritana inglesa. O que fica bem ilustrado neste romance, também estudado hoje como um texto anti-feminista, é o elogio do triunfo do falo: “And afterwards, when they had been quite still, the woman had to uncover the man again, to look at the mystery of the phallos. `And now he's tiny, and soft like a little bud of life!' she said, taking the soft small penis in her hand. `Isn't he somehow lovely! so on his own, so strange! And so innocent! And he comes so far into me! You must never insult him, you know. He's mine too. He's not only yours. He's mine! And so lovely and innocent!' And she held the penis soft in her hand.” (cap. 14). Outro escritor que também ficou marcado como maldito por causa dos seus romances eróticos foi o americano Henry Miller (1891-1980), autor de obras tão divulgadas mundialmente como Tropic of Cancer (Trópico de Câncer, França, 1934; E.U.A., 1961), Tropic of Capricorn (Trópico de Capricórnio, França, 1939; E.U.A., 1961), Sexus, Plexus e Nexus (publicados como um todo em 1965). Miller, que escolheu Paris para viver e trabalhar na sua escrita, para onde traduziu as suas experiências pessoais com prostitutas francesas, glorificando a pornografia (recordemos que a etimologia grega desta palavra diz respeito à prostituição) como uma espécie de nova religião, o que levou a que os seus livros, censurados e proibidos em muitos países, constituíssem um fruto muito apetecido para a imaginação e curiosidade sexual de muitos adolescentes e adultos. O filme de Philip Kaufman, Henry & June (1990), baseado nos diários (1914-1934) de uma escritora hoje referência obrigatória na literatura erótica, Anaïs Nin, retrataram o caso amoroso entre Henry Miller e a sua mulher June. O filme levou a que nos E.U.A. se criasse uma nova categoria, ficando proibida a sua visualização a menores de dezassete anos (NC-17). Dentro do mesmo tipo de glorificação da pornografia, são de referência obrigatória Emmanuelle Arsan, autor de Emmanuelle (1959) e Dominique Aury, que sob o pseudónimo de Pauline Réage publicou Histoire d’O (A História d’O, 1954). Obras de extremo erotismo, todas marcadas pelo escândalo, incluindo as suas adaptações cinematográficas, exploram os limites do amor carnal e a relação de poder entre os parceiros sexuais.

Outros escritores preferiram glorificar outras formas de realização da literatura erótica, como a pedofilia e o voyeurismo. Está, neste caso, o escritor russo-americano Wladimir Nabokov, o célebre autor de Lolita (1955), onde se destaca o anti-herói Humbert Humbert, Nabokov reclama a paternidade do termo ninfeta, objecto sexuais proibidos, que o público associa hoje ao romance Lolita. Apesar de insistir na originalidade do termo, “I am informed that a French motion picture company is about to make a picture entitled ‘The Nymphet’s (‘Les Nymphettes’). The use of this title is an infringement of my right since this term was invented by me for the main character in my novel Lolita and has now become completely synonymous with Lolita in the minds of readers throughout the world.” (Selected Letters: 1940-1977, Harcourt, 1989, p. 312), sabemos que o já citado poeta francês Ronsard, em Les Amours, utilizou essa expressão com sentido idêntico, sendo um dos lexemas clássicos da literatura erótica: “Amourette / Petite Nymphe folastre, / Nymphette que j'idolatre, / Ma mignonne dont les yeulx / Logent mon pis et mon mieux;” (CCXI, in http://www.bibliopolis.fr). O livro de Nabokov foi adaptado ao cinema por Stanley Kubrick em 1962.

Em 1965, Natália Correia publicou, seleccionou, prefaciou e anotou uma importante Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (3ª ed., 1999), que inclui autores como Martim Soares, Pero da Ponte, João Garcia de Guilhade, Gil Vicente, Luís de Camões, Fernando Pessoa, Gregório de Matos, Guerra Junqueiro, José Régio, Leonor de Almeida, Jorge de Sena, Ana Harthetly,  Maria Teresa Horta, Herberto Helder. A própria autora publica um poema seu, “Cosmocópula”, “Membro a pino / dia é macho / submarino / é entre coxas / teu mergulho / vício de ostras. // O corpo é praia a boca é a nascente / e é na vulva que a areia é mais sedenta / poro a poro vou sentindo o curso de água / da tua língua demasiada e lenta / dentes e unhas rebentam como pinhas / de carnívoras plantas te é meu ventre / abro-te as coxas e deixo-te crescer / duro e cheiroso como o aloendro.”

 

Bib. : Alexandrian: História da Literatura Erótica (Lisboa, 1991); Afrânio Coutinho: O Erotismo na Literatura: O Caso Rubem Fonseca (1979); Anthony Giddens: Transformações da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas, 2ª ed . (Oeiras, 1996); Camille Paglia: Sexual Personae: Art Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson (1990); C. J. Schneider (ed.): The Encyclopedia of Erotic Literature (1996); Frances Ferguson: “Pornography: The Theory”, Critical Inquiry,  Spring, 21:3 (1995); Francesco Alberoni: O Erotismo (Venda Nova, 8ª ed., 1995); Georges Bataille: O Erotismo (3ª ed ., Lisboa, 1988); Gill Dines, Robert Jensen e Ann Russo: Pornography: The Production and Consumption of Inequality (1998); Jean Jacques Pauvert: A Literatura Erótica (Lisboa, 2001).

E-Dicionário de Termos Literários, em

http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/L/literatura_erotica.htm


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