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Fernando Kraichete |
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um território independente dentro de litbr Música de fundo: As Quatro Estações (Inverno) - Vivaldi Fernando Roberto Kraichete é bacharel em filosofia pela UFBA, exerceu a crítica cinematográfica na juventude e é compositor bissexto. Durante vinte anos trabalhou na área de informática da Petrobras como programador de computador e analista, tendo desenvolvido e implantado o sistema online de viagem (AVP), utilizado por todos os órgãos da empresa em âmbito nacional. Foi editor da revista Música Objetiva, uma das primeiras publicações brasileiras do gênero na Internet. É autor dos romances Sete dias de março, Nyx e a noite, Mouseîn, O quarto, Xpóvoç, e de dezenas de contos. É editor desta litbr. Os trabalhos aqui publicados estão com os direitos autorais devidamente registrados. |
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(CURTOS) CONTOS (1 - 10) (11 - 20) (21 - 30) (31 - 34) |
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ALIÁS, Onze horas da noite o salão apagado e vazio todas as portas e janelas trancadas não havia qualquer sinal de vida nada animado nenhum cão nenhum inseto nenhuma planta nem sequer uma flor apenas objetos mesas cadeiras toalhas pratos talheres duas garrafas de vinho tinto uma de cachaça três de uísque alguns copos e taças empilhados em um pequeno balcão o banheiro fechado dois corpos molhados deitados de bruço totalmente ignorados o que só deixaram de ser no instante em que ele que acabara de entrar deparou-se com a cena verificou que estavam mortos os corpos ainda quentes havia acontecido pouco tempo antes olhou em volta ninguém presente o salão vazio as janelas cerradas as portas trancadas a mesa forrada com toalha quadriculada em forma de xadrez quadro branco quadro preto duas flores no jarro apenas duas não mais do que duas a almofada vermelha cor de sangue no sofá vermelho de sangue ainda fresco que poderia ser o dele ou o dela ou de ambos os corpos inertes postados de bruço o relógio marcando o tempo decorrido desde o instante em que tudo acontecera as baratas cruzando o salão diagonalmente uma mosca pousada no bolo outra no copo as recentes dores ainda presentes nos corpos inertes deitados de bruço o tapete vermelho manchado de sangue na parede uma reprodução de “Guernica” no teto o lustre de cristal agora aceso os corpos nus abraçados no derradeiro abraço o último de todos os que se deram desde que se conheceram naquela noite chuvosa apenas dois anos antes em plena avenida ela sozinha ele acompanhado da mulher que não gostou da gentileza os corpos inertes postados no chão do salão banhados de sangue encharcados de memória lembranças de coisas acontecidas no passado recente a viagem à Europa o contrato para uma temporada em Varsóvia o “Réquiem” o retorno inesperado em virtude da morte da filha as flores no túmulo as taças na mesa as portas fechadas as janelas trancadas estavam todos ali sentados quando ela entrou olhou detidamente para ele e para ela abriu a bolsa tirou a arma desferindo dois tiros contra os corpos e um contra si própria.
Fernando Kraichete
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SÓ
Só?
Fernando Kraichete
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CRISIS Aconteceu no futuro. Crisis remexia o formigueiro à procura de pedras de diamante quando inesperadamente um pequeno dinossauro botou a cabeça para fora e sorriu para ela. O sorriso a encantou mas considerou aquilo um enorme atrevimento. Procurou então afastar-se dali o mais rápido possível pois uma moça que se preza não pode sucumbir aos primeiros encantos. Voltou para casa tomada de um profundo medo e por precaução abriu todas as portas e janelas a fim de evitar que o animal entrasse. Isso foi em 2015. No ano seguinte por volta de 1979 quando ainda se achava no útero materno Crisis encontrou casualmente o pequeno dinossauro ao assistir uma naumaquia no Coliseu. O anfiteatro estava lotado mas ela conseguiu divisar entre a centena de milhares de espectadores a figura imponente do seu amado. Estava sentado ao lado de Vespasiano e conversava animadamente com Descartes. Não logrou chegar perto mas a visão deixou uma marca indelével em sua memória que cinco anos antes quando se encontrava à beira da morte ainda lhe despertava fortes emoções. Nem bem o espetáculo havia terminado procurou sair a fim de evitar a multidão de pessoas que invariavelmente se dirigia para o ponto de ônibus e dava ensejo a um espetáculo à parte. Não querendo receber cotoveladas dirigiu-se ao terminal hidroviário mais próximo e pegou o primeiro avião para casa. Desceu um ponto antes para saber o que havia acontecido em sua rua que fizera com que tanta gente estivesse comemorando. Foi então que teve uma visão horripilante. Estendido à beira da calçada jazia o corpo do dinossauro. Crisis desmaiou e ao recobrar a consciência notou que estava fora do útero materno.
Fernando Kraichete
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TERRAEMOTO Derrapou ao tremor da terra e o presente que alegremente levava para o único filho órfão de mãe indígna da qual se vingara espatifou-se junto com ele.
Fernando Kraichete
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ALGUÉM...
...deve ter dito coisas a respeito de Josefa K. pois ontem de manhã quando se dirigia ao parque foi ameaçada.
...esteve presente pesarosamente na inumação de Josefa K.
Fernando Kraichete
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ANAS Você se lembra de Ana? Que Ana? Ana. Qual delas? Eu só conheço uma. Eu conheço duas. Quais? A do pirilampo e... Qual é a outra? A do candelabro. A do candelabro já apagou. Morreu? Você não sabia? Não. Morreu. Quando foi isso? O ano passado. Quando? A data eu não lembro. E o que aconteceu com a do pirilampo? Tá vendo essa foto? O que é isso? Tá vendo? O que é isso?! Todo mundo a quem mostro essa foto fica impressionado. Como você conseguiu? Ela que me deu. Por que que ela fez isso? Sei lá. Foi você que pediu? Ela que me deu. Sem você pedir? Sem eu pedir.
Fernando Kraichete
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O SONHO DE EVA "Sonhei que corria feliz por um bosque, ziguezagueando entre as árvores, estava nua e ao meu lado apareciam, ora, meu Pai, ora, meu companheiro. Eles também estavam nus e pulavam, rindo, um riso de felicidade que se espalhava por toda a mata. Parei para comer uma fruta. De repente, o riso alegre se transformou em riso sardônico. Meu Pai? Meu companheiro? Os dois haviam sumido. Agora, quem estava ao meu lado era o Homem. Ria sarcasticamente, de modo acerbo, e trazia em uma das mãos um garfo tridente e na outra uma faca de ponta. Com o garfo procurava prender-me, enquanto tentava penetrar-me com a faca. Eu lutava desesperadamente para escapar, corria como uma lebre, parando de repente, escondendo-me atrás de uma árvore. O Homem segurou-me pelo braço. Gritei. Um grito de medo que se espalhou por toda a casa."
Fernando Kraichete
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MANHÃ Ele se acerca da mulher. Ele a abraça. Ele a beija. Ele acaricia os seios. Ele alisa as coxas. Ele belisca as nádegas. Ele segura suas mãos. Ele solta suas mãos. Ele vai à cozinha. Ele pega o copo. Ele pega a cuba. Ele pega o gelo. Ele pega o uísque. Ele toma o primeiro gole. Ele pede um tira-gosto. Ele pergunta pelo marido. Ele quer saber quando retorna. Ele pergunta se ela gosta do marido. Ele quer saber por que não o deixa. Ele não promete nada. Ele pega o copo. Ele põe mais gelo. Ele acende um cigarro. Ele pede o cinzeiro. Ele prova o tira-gosto. Ele levanta e vai à janela. Ele nota que o tempo melhorou. Ele consulta o relógio. Ele vê que dá tempo. Ele pergunta se não vai beber nada. Ele indaga quando iniciou o remédio. Ele acha que já devia estar curada. Ele sugere procurar outro médico. Ele diz que o problema é dela. Ele acha que não é nada grave. Ele bebe outro gole. Ele levanta para pegar mais gelo. Ele retorna à sala. Ele senta à mesa. Ele folheia uma revista. Ele elogia o corpo da atriz. Ele não entende o ciúme dela. Ele ouve o celular tocar. Ele deixa a revista de lado. Ele levanta e se dirige ao quarto. Ele pega o celular. Ele ouve o pedido do amigo. Ele diz que deixe consigo. Ele solicita o endereço. Ele volta à mesa. Ele pede que espere um pouco. Ele quer papel e caneta. Ele responde que lápis serve. Ele pede que repita o endereço. Ele anota. Ele assegura que cuidará daquilo. Ele quer que confie nele. Ele lembra a amizade que têm. Ele agradece e retribui. Ele devolve o abraço e desliga. Ele percebe o olhar da mulher. Ele não responde. Ele pede que não insista. Ele diz que é problema do amigo. Ele afirma que não é problema dela. Ele ameaça ir embora. Ele aceita suas desculpas. Ele se dirige à mesinha. Ele torna a encher o copo. Ele pega mais gelo. Ele acende outro cigarro. Ele pede para limpar o cinzeiro. Ele acha que ela está demorando. Ele deixa a cinza cair no chão. Ele indaga por que demorou. Ele considera a resposta razoável. Ele pergunta se ele desconfia. Ele deseja que ela esteja certa. Ele pensa que pode dar em merda. Ele não se deixará levar a pior. Ele saberá o que fazer. Ele tem amigos. Ele pergunta pela amiga. Ele sabe que é amiga íntima. Ele quer saber se ela sabe. Ele pede que ela jure. Ele tem suas dúvidas. Ele diz que vai acreditar. Ele responde que não. Ele garante que ela não desconfia. Ele pede que acredite nele. Ele sabe que ela nunca saberá. Ele dará jeito se acontecer. Ele diz que ela precisa dele. Ele afirma que com ela é diferente. Ele lembra que ela tem seus meios. Ele lembra que ela trabalha. Ele lembra que ela não precisa dele. Ele sugere tomarem banho. Ele entra com ela no banheiro. Ele tira o roupão. Ele a despe. Ele abre o chuveiro. Ele cola seu corpo ao dela... Ele se seca. Ele a enxuga. Ele se veste. Ele a ajuda a vestir-se. Ele retorna à sala. Ele senta na poltrona. Ele acende um cigarro. Ele procura o cinzeiro. Ele pede que ela o pegue. Ele quer uma cerveja. Ele pede que ela a pegue. Ele dá uma tragada. Ele tosse. Ele diz que não tem nada a ver. Ele diz que o cigarro não lhe faz mal. Ele volta a tossir. Ele acha ótimo ela ter ficado calada. Ele enche o copo. Ele volta a beber. Ele pede que ela ligue o televisor. Ele vê o noticiário. Ele conhece o homem que foi preso. Ele comprava dele. Ele vai ter que arranjar outro. Ele nunca disse a ela que é usuário. Ele critica a polícia. Ele discorda dela. Ele acha que é falso moralismo. Ele afirma não existirem santos. Ele não se considera santo. Ele diz que ela também não é. Ele não quis dizer aquilo. Ele só quis dizer que ela não é santa. Ele não quis dizer aquilo. Ele decide encerrar a conversa. Ele levanta da poltrona. Ele vai à janela. Ele olha para o céu. Ele vê o tempo melhorando. Ele olha o relógio. Ele vê a hora chegando. Ele retorna à poltrona. Ele acende outro cigarro. Ele responde que é devido à bebida. Ele garante que fuma pouco. Ele diz que exagera só quando bebe. Ele de repente fica preocupado. Ele indaga se ela tomou a pílula. Ele lembra que não quer filho. Ele espera que ela nunca esqueça. Ele não é pai. Ele nunca foi pai. Ele nunca quis ser pai. Ele não gosta de criança. Ele não responde. Ele diz que vai dormir um pouco. Ele vai para o quarto. Ele deita. Ele pega no sono. Ele dorme. Ele continua dormindo. Ele continua dormindo. Ele continua dormindo... Ele acorda. Ele chama por ela. Ele quer saber a hora. Ele vê que chegou a hora. Ele se levanta. Ele veste a roupa. Ele calça as meias. Ele põe os sapatos. Ele veste o casaco. Ele sai do quarto. Ele entra na sala. Ele a beija. Ele se despede. Ele sai. Ele entra no carro. Ele gosta dela. Ele apesar de tudo gosta dela. Ele já sente sua falta. Ele ouve o celular tocar. Ele diz que hoje não pode. Ele alega estar muito ocupado. Ele está com muito trabalho. Ele está desde cedo trabalhando. Ele marca outro dia com ela. Ele volta a dizer que hoje não pode. Ele já explicou. Ele vai repetir pela última vez. Ele está atarefado. Ele também sente saudade. Ele compreende. Ele compreende muito bem. Ele diz que está no trânsito. Ele precisa estar atento. Ele concorda. Ele sabe disso. Ele pede que ela espere. Ele vai desligar. Ele diz que vai ter que desligar. Ele a deixa falando sozinha. Ele para no posto. Ele manda encher o tanque. Ele pergunta se tem cigarro. Ele não se incomoda. Ele compra quando chegar lá. Ele parte com o carro. Ele olha o relógio. Ele vê que está em cima da hora. Ele está quase atrasado. Ele pensa em invadir o sinal. Ele percebe o guarda. Ele para. Ele espera o sinal. Ele prossegue. Ele chega ao destino. Ele estaciona o carro. Ele entrega a chave ao guardador. Ele se dirige ao prédio. Ele informa qual a sala. Ele se identifica. Ele sobe o elevador. Ele toca a campainha. Ele não se sente bem recebido. Ele diz que precisa do dinheiro. Ele não quer saber. Ele emprestou. Ele quer de volta. Ele esperará até a tarde. Ele voltará à tarde.
Fernando Kraichete
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DIÁLOGO ERÓTICO (entre ele e ela, na ordem)
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Fernando Kraichete
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CONTOS DO VIGÃRIO (1)
O vigário de Vilarejo sabia de tudo o que acontecia nessa pequena vila. Esta estória me foi contada por ele.
Fernando Kraichete
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(CURTOS) CONTOS (1 - 10) (11 - 20) (21 - 30) (31 - 34) |
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PAÍS - ESTADO/REGIÃO - CIDADE MAPA DAS MAIS RECENTES VISITAS PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO: 14/03/2010 |
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