Fernando Kraichete Sete dias de março (2ª edição) Clique aqui
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Fernando Kraichete

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Música de fundo: As Quatro Estações (Inverno) - Vivaldi

Fernando Roberto Kraichete é bacharel em filosofia pela UFBA, exerceu a crítica cinematográfica na juventude e é compositor bissexto. Durante vinte anos trabalhou na área de informática da Petrobras como programador de computador e analista, tendo desenvolvido e implantado o sistema online de viagem (AVP), utilizado por todos os órgãos da empresa em âmbito nacional. Foi editor da revista Música Objetiva, uma das primeiras publicações brasileiras do gênero na Internet. É autor dos romances Sete dias de março, Nyx e a noite, Mouseîn, O quarto, Xpóvoç, e de dezenas de contos. É editor desta litbr.


Os trabalhos aqui publicados estão com os direitos autorais devidamente registrados.




(CURTOS) CONTOS
(1 - 10)
(11 - 20)
(21 - 30)
(31 - 34)


LUMINÁRIA

O abajur aceso, o corpo na cama teso, restos de bebida na mesa, cigarros apagados. Enfim, a verdade.

Fernando Kraichete
In Contos librianos




CONTOS DO VIGÃRIO (2)

O vigário de Vilarejo sabia de tudo o que acontecia nessa pequena vila. Esta estória me foi contada por ele.

Anibal andava insatisfeito. Estava casado com uma mulher de dois seios e vivia o tempo inteiro reclamando disso. "Com tanta mulher no mundo, fui casar logo com essa" - costumava queixar-se. Nada conseguia convencê-lo de que aquilo era o normal.

Toda mulher tem dois peitos.

A filha de Josias não tem nenhum.

Mas a filha de Josias tem sete anos!

Dizem que a mulher do prefeito só tem um.

A mulher do prefeito foi obrigada a retirar o outro.

Como?

A mulher do prefeito foi obrigada a retirar o outro.

Anibal ficou feliz ao saber que aquilo era possível.

Ao chegar em casa, conversou com a mulher.

De jeito nenhum - respondeu com indignação.

Pra que dois?

Por que você não casa com a mulher do prefeito, que só tem um?

E por acaso é possível? Depois, é de você que eu gosto.

Gosta?!

Gosto. Mas gostaria muito mais se...

Você pensa que eu sou maluca?

Quisesse ela ou não, a retirada seria feita. Procurou informar-se e ficou sabendo que o trabalho era muito caro. Além disso, teria que deslocar-se para a capital, pois em Vilarejo não havia quem desse conta desse recado.

Faltavam-lhe meios. E agora? Como resolver?

Matutou, matutou, matutou, e de repente encontrou a solução.

Mas antes que pudesse pô-la em prática, a mulher virou-se para ele e disse:

Tá bem, eu concordo. Mas com uma condição.

Que condição?

Se você tirar um dos ovos. Pra que dois?

De jeito nenhum - respondeu aos berros.

E nunca mais tocou no assunto.

Fernando Kraichete
In Contos do vigário




MENOSCABO

Sete horas da manhã foi quando o homem abriu a gaiola onde ele se encontrava, segurou-o pelas asas e retirou-o. Ele achou estranho pois nunca havia acontecido isso antes. Desde que nascera era ali que passava os seus dias, ao lado dos companheiros, comendo, brincando e dormindo, sem nunca haver saído. Por que o estariam separando? Talvez não fosse propriamente uma separação, talvez fosse uma outra coisa que ele, por mais que se esforçasse, não conseguia imaginar. Podia ser que o estivessem conduzindo temporariamente para um lugar melhor, que depois haveria de retornar ao convívio dos seus, mas ele não estava desejando um lugar melhor, ainda que fosse por pouco tempo. Estava feliz onde se encontrava, considerou tudo aquilo um menoscabo, o homem deveria tê-lo informado porque o estava retirando e para onde o levava antes de retirá-lo, antes mesmo de segurá-lo pelas asas. Não se pode dispor assim de um ser vivo, mas ele nada podia fazer pois a sua fragilidade era enorme. Considerou aquilo um ato de prepotência, um abominável ato de prepotência. Como nada podia fazer, decidiu aguardar.

Fernando Kraichete
In Contos librianos




NYX E ELE

Ele entrou em casa, Nyx estava à mesa. Ele chegou cedo, ela acendeu a luz. Ele se dirigiu para o quarto, ela dançava na varanda. Ele estava cansado, ela dormia um sono profundo. Ele estava casado, ela não se encontrava em casa. Ele a abraçou afetuosamente, ela conversava com o pai. Ele pensou nela, ela fora socorrer a vizinha. Ele acendeu um cigarro, ela havia ido visitar o filho. Ele beijou seu retrato, ela sentiu medo. Ele pensou em mudar, ela decidiu ficar. Ele precisava ver os pais, ela chorava na varanda. Ele se dirigiu à cozinha, ela tirou a roupa do varal. Ele sentou ao seu lado, ela nunca suspeitou. Ele a olhou com ternura, ela escutava Górecki. Ele encheu o copo, ela abriu a gaveta. Ele receou, ela olhou de soslaio para a irmã.

Ele relembrou os bons tempos, ela fez um ar de escárnio. Ele não podia fazer nada, ela o olhou com frieza. Ele abriu a geladeira, ela respondeu que não. Ele pegou o telefone, ela disse que sim. Ele conteve o ímpeto de esbofeteá-la, ela lembrou da mãe. Ele se ajoelhou aos seus pés, ela beijou-lhe as mãos. Ele começou a acariciá-la, ela deu-lhe uma bofetada. Ele pediu uma cerveja, ela ficou inteiramente nua. Ele se deslocou até a varanda, ela quis saber o que a irmã achava. Ele chamou a empregada, ela encheu a taça com vinho. Ele segurou uma das mãos, ela segurou a porta. Ele voltou a ligar, ela ligou a televisão. Ele se dirigiu ao banheiro, ela comentou com a vizinha. Ele precisava ir ao banco, ela pegou o telefone. Ele aliviou os pés, ela sentou-se ao seu lado. Ele se despiu, ela retornou ao sofá. Ele pensou em sair, ela subiu a escada correndo. Ele tropeçou e caiu, ela se levantou rapidamente. Ele não queria nada, ela queria tudo. Ele resolveu dar um prazo, ela retornou à sala completamente nua. Ele a abraçou ternamente, ela voltou a ligar. Ele sugou-lhe o peito, ela segurou-lhe o pênis. Ele a viu estremecer de prazer, ela tomou a decisão de abandoná-lo. Ele olhou para o céu, ela consultou novamente o relógio. Ele pigarreou três vezes, ela acariciou o gato. Ele sorriu, ela percebeu o quanto o amava. Ele pegou o jornal, ela estava na cozinha. Ele bendisse a vida, ela sentiu saudade da mãe. Ele discordou, ela olhou de soslaio para a irmã.

Ele precisava decidir o que fazer com o corpo, ela se dirigiu ao quintal. Ele receava que a polícia viesse a descobrir, ela ligou para o primogênito. Ele abriu a geladeira e pegou uma garrafa, ela desceu correndo a escada e por pouco não foi ao chão. Ele finalmente gozou, ela repôs a roupa. Ele teve vontade de esganá-la, ela teve uma ideia. Ele percebeu algo, ela deitou no sofá e começou a chorar. Ele se sentiu infeliz, ela riu. Ele permaneceu calado, ela decidiu contar tudo. Ele chamou a criada e pediu que lhe trouxesse um copo, ela ficou possessa. Ele se aproximou da janela, ela começou a cantar. Ele teve pena de si próprio, ela iniciou uma dança. Ele sentiu raiva, ela cochichou no ouvido da irmã. Ele convidou-a para dançar, ela deitou no chão e esperou. Ele abriu uma cerveja, ela abriu as pernas. Ele derramou todo o conteúdo da garrafa, ela percebeu o quanto o amava. Ele voltou a se preocupar com o corpo, ela estava cansada. Ele pensou em pedir um aumento, ela precisava ir ao cemitério. Ele lembrou que tinha consulta marcada, ela poria flores no túmulo da mãe. Ele precisava de um empréstimo, ela começou a ler o jornal. Ele permanecia na varanda, ela não via como resolver aquilo. Ele tomou-a nos braços, ela ouvia Chico Buarque. Ele não gostava da amiga, ela preparou outro sanduíche. Ele bocejou, ela olhou de soslaio para a irmã.

Fernando Kraichete
In Nyx e a noite
(capítulo 1)



POST-MORTEM



Fernando Kraichete
In Contos librianos




CONTOS DO VIGÃRIO (3)

O vigário de Vilarejo sabia de tudo o que acontecia nessa pequena vila. Esta estória me foi contada por ele.

Armando, o dono do bar, vivia comendo a mulher de Armindo, o dono da mercearia.

Armindo ficou sabendo e ameaçou Armando de morte.

O Armindo quer me matar.

Lhe matar?! Por que, pai?

Não sei, filha.

Não sabe? Como não sabe?

Não sei, juro que não sei.

Alguma coisa você andou aprontando, pai.

Aprontando o que? Você me conhece, sabe que eu não sou de aprontar.

Não sei não, mas tudo bem. Vou ver como resolver.

Vai ver, como?

Vou conversar com José. Fica aí que daqui a pouco eu volto.

José era o marido da filha, o genro dele.

Poucos minutos depois, ela voltou.

E aí?

E aí o que, pai?

O que foi que vocês decidiram?

José acha que você deve ir pro sítio do pai dele. O Armindo nunca vai descobrir. O Armindo não sabe que o pai de José tem um sítio.

É, o Armindo não sabe.

Você garante, José, que o Armindo não sabe?

Garanto. Pode ficar tranqüilo. Mas, que diabos você andou fazendo?

Eu não fiz nada. Juro.

Claro que fez, pai. Você não quer dizer, mas eu sei que fez. Eu vou descobrir.

O genro e a filha tinham uma caminhonete que minutos depois estava a caminho do sítio do pai de José.

Armindo estava possesso. Surrara a mulher e a expulsara de casa.

Restava o Armando, mas o Armando sumira.

Eu descubro onde esse filho da puta está, nem que leve vinte anos.

Vinte anos depois, no sítio do pai de José, a ex-mulher de Armindo depositava a última flor no caixão do amante, ao lado da filha e do genro dele.

Fernando Kraichete
In Contos do vigário




BALA PERDIDA

Conte-me o que aconteceu.
Eu estava indo pra casa...

Fernando Kraichete
In Contos librianos




ELE

Ele nem sequer leu o que estava escrito. Fechou o jornal, foi para a varanda, passou a pensar porque não agira de outro modo. Preferira proteger-se, mas não havia a necessidade de se proteger. Afinal de contas... Levantou-se, dirigiu-se ao quarto, abriu a porta. Lá estava o corpo. Inerte. Um exemplo vivo da iniquidade humana. Que logo começaria a decompor-se. Como suportar? Como suportar aquilo? Retornou à sala, o rádio, ligado, transmitia notícias aterradoras. Era noite, um casal havia sido morto a pauladas em sua própria casa. Ali perto, a poucos metros de onde morava. Sobre a mesa, o bilhete. Que ele não lera, que decidira não ler. Não importava o que dizia. O que dizia era possível adivinhar, a leitura viria apenas confirmar o que sempre suspeitara.

Na geladeira, o vinho. O vinho que Nyx tantas vezes sorvera e do qual tanto gostava. Uma garrafa inteira inconsumida. Os braços doíam, as pernas doíam, o corpo inteiro doía. A cabeça latejava. Os sapatos apertando os pés, o abdome inchando, aquela hérnia torturando, aquela hérnia torturando-o permanentemente. Aquela maldita hérnia de disco. Ela não poderia ter feito aquilo. Ela não tinha o direito de fazer aquilo. Afinal de contas... A varanda. A varanda onde tantas vezes sentaram, ele e ela, no chão frio, as cadeiras vazias, frias, à espera de alguém que as aquecesse. Como não sentir falta? Daquelas fodas, daqueles peitos, daquelas coxas, daquela cachaça mineira que o seu melhor amigo lhe oferecera e cuja garrafa jazia vazia na pedra da pia? Como não sentir saudade? Dos bons tempos, dos bons momentos, dos desentendimentos que sempre terminavam em orgasmo. Era preciso esquecer tudo. Suprimir a memória para atingir a paz. Abriu a geladeira, desprezou o vinho, afinal era dela, era dela e permaneceria ali, guardado, à espera do retorno. Uma cerveja. Uma cerveja, por que não? Porque não é possível continuar assim. Há de haver uma saída. O que fazer com o corpo? Enterrá-lo no quintal, como ela própria sugerira? Sim, enterrá-lo no quintal, como ela própria sugerira. E era urgente providenciar um empréstimo. O bolso estava vazio. A bolsa estava vazia. O copo estava vazio, era preciso enchê-lo com cerveja.

A cor do líquido lembrou os cabelos dela. Mas os cabelos dela nada mais significavam.

Fernando Kraichete
In Nyx e a noite
(capítulo 7)




O SEGREDO

Vou confessar algo, mas você, por favor, não publique. Ok?
Ok.
(...)

Fernando Kraichete
In Contos librianos




FUGACIDADE

estava de casamento marcado estava sentado aa mesa de um bar com amigos uma mulher que conhecera tempos atrás e com a qual conversara em diversos momentos chegou acompanhada de uma outra sentou a uma mesa próxima não demorou muito para vêlo e cumprimentálo conversava com os amigos quando de repente percebeu que a outra o olhava e quando ela percebeu que ele a olhava sorriu retribuiu o sorriso retribuindo inúmeras vezes até quando lembrou que estava de casamento marcado pena porque era inegavelmente atraente estava de casamento marcado e não convinha pôlo em risco pensou em passar a ignorála mas receou ofendêla uma antípoda entrou e notando que ela continuava a olhálo e a sorrir desviou o olhar e fixouo demorada e intencionalmente na antípoda fingindo interesse voltou a olhar para ela notou que também tinha os olhos fixos na antípoda mas a expressão era de perplexidade em seguida olhou para ele sem sorrir e não mais olhou

Fernando Kraichete
In Contos librianos




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