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Fernando Kraichete

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Música de fundo: As Quatro Estações (Inverno) - Vivaldi

Fernando Roberto Kraichete é bacharel em filosofia pela UFBA, exerceu a crítica cinematográfica na juventude e é compositor bissexto. Durante vinte anos trabalhou na área de informática da Petrobras como programador de computador e analista, tendo desenvolvido e implantado o sistema online de viagem (AVP), utilizado por todos os órgãos da empresa em âmbito nacional. Foi editor da revista Música Objetiva, uma das primeiras publicações brasileiras do gênero na Internet. É autor dos romances Sete dias de março, Nyx e a noite, Mouseîn, O quarto, Xpóvoç, e de dezenas de contos. É editor desta litbr.


Os trabalhos aqui publicados estão com os direitos autorais devidamente registrados.




(CURTOS) CONTOS
(1 - 10)
(11 - 20)
(21 - 30)
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ENEIDA

Quando os troianos se estabeleceram na Itália, Eneida estava lá. Quando contribuiram para a fundação de Roma, Eneida estava. Mas quando Enéias desceu aos Infernos, Eneida já não estava mais. Estava em outro tempo, em outro lugar, escrevendo a história do carnaval carioca.

Fernando Kraichete
In Contos librianos



CONTOS DO VIGÁRIO (4)

O vigário de Vilarejo sabia de tudo o que acontecia nessa pequena vila. Esta estória me foi contada por ele.

Acabara de chegar, a fim de substituir o recém-falecido, estava na parte interna de um bar situado próximo à igreja, bebericando - que vigário também é humano - quando, de repente, dois homens ocuparam uma das mesas localizadas na parte externa. Não era possível vê-los, nem eles ele. Mas era possível ouví-los.

Cara, tive uma idéia.

Que idéia, cara?

Tá vendo aquela igreja?

Tô. E daí?

Você já ouviu falar em conto-do-vigário?

Já. Por que? Não me diga que você está pensando em aplicar um.

Acertou em cheio.

O vigário percebeu logo tratar-se de dois vigaristas.

Qual é a idéia?

É o seguinte: tá vendo este bilhete? Pois é. Eu chego pro otário e digo que este bilhete é premiado.

Esse bilhete correu quando?

Correu hoje, sábado.

E se estiver premiado?

Claro que não está.

E se estiver?

Eu já olhei o resultado. Você pensa que eu sou idiota?

Claro que não. Mas nessa conversa de bilhete premiado ninguém cai mais desde que o Honório caiu em uma e todo mundo ficou sabendo. Vilarejo é uma vila pequena, todos sabem de tudo o que se passa aqui. Ninguém vai mais nessa de comprar um bilhete premiado pagando muito menos do que realmente vale.

Aí é que está. Quem comprar não vai pagar menos.

E que vantagem a pessoa vai ver nisso? Não entendi.

Vou explicar.

Vai, explica.

Espera, tenha calma, deixe eu falar.

Fala.

É o seguinte: ninguém me conhece aqui. Você sabe que eu acabei de chegar.

Por que você saiu de lá?

É uma história complicada. Depois eu lhe conto.

Lembra das cachaças que a gente tomava? Das farras?

Claro que lembro. Bons tempos aqueles.

Sim, continue.

Então? Chego pro cara e digo que sou assistente do novo vigário e que ele, o vigário, ganhou na loteria mas o pagamento só poderá ser feito na segunda - o que é verdade, você sabe disso - e a igreja está precisando do dinheiro hoje pra comprar alimentos pros pobres. Não pode esperar até segunda-feira, senão eles não vão ter o que comer. A mercearia não vende fiado. Eu sei disso porque passei pela porta hoje de manhã e vi lá o aviso: "Fiado nem ao Papa".

O dono da mercearia é o Armindo. Aquele cara é um unha-de-fome. Um sovina. Um avarento. Ele não compra nem roupa pra mulher. Dizem que bate nela. É um homem muito violento. Já deu porrada em muito cabra que tentou fazer safadeza com ele. Mas é um homem honesto.

Ninguém conhece o novo vigário. Nem eu, nem você, nem ninguém.

Pois é, ninguém conhece ainda o novo vigário. Ele acabou de chegar e está cansado da viagem. Só na segunda é que vai se apresentar aos fiéis. Saiu uma nota no "Jornal de Vilarejo" informando isso.

O que significa...

Significa o quê?

Que até segunda-feira ninguém entrará em contato com ele. Pra tentar saber se eu falei a verdade.

E como é essa de não pagar menos pelo bilhete? Você não explicou ainda.

Eu vou dizer o seguinte à pessoa: o vigário precisa do valor total do prêmio, senão vai faltar dinheiro pra comprar tudo.

Como você vai dizer isso? Como é que, com um prêmio tão alto, vai faltar dinheiro?

Veja bem. Primeiro, ninguém vai poder pagar um valor tão alto. Segundo, eu vou dizer que apenas alguns números do bilhete foram acertados. Assim, o valor do prêmio é pequeno, mas, mesmo pequeno, se a pessoa pagar, não faltará comida pros pobres neste final de semana. Eu sei que com isso vou ganhar pouco, mas é melhor do que nada. Entendeu agora?

Entendi. Você já escolheu a pessoa?

Não, você é que vai me ajudar nisso. Pois, eu não conheço ninguém aqui. E você deve conhecer todo mundo. O ideal é a gente encontrar alguém que esteja aqui em Vilarejo de passagem. Alguém completamente desconhecido.

Ao escutar isso, o vigário, que estivera todo o tempo atento à conversa, teve também uma idéia. Chamou o garção, pediu uma caneta, usou-a, pediu a conta e dirigiu-se à parte externa do bar.

Espera. Esse aí eu não conheço. Ele não é daqui.

Tem certeza?

Absoluta.

Deixa comigo.

Ao ser chamado, o vigário aproximou-se.

Ouviu novamente, com paciência franciscana, aquilo que já ouvira antes.

Eu sou sempre solidário com os pobres. Eu sou um homem religioso, temente a Deus.

Você é daqui?

Não. Eu estou de passagem. Daqui a meia hora tenho que pegar o ônibus de volta pra casa.

Você faz o quê?

Eu sou um pequeno comerciante.

E o que veio fazer em Vilarejo?

Vim cobrar do dono da mercearia essa promissória. Mas ele me pediu que voltasse às seis horas da noite. Ora, meu ônibus sai às cinco. Então combinei com ele que mandaria outra pessoa em meu lugar. Essa pessoa é meu primo. Fui à casa dele, mas a casa estava fechada. Os vizinhos me disseram que ele havia mudado mas ninguém soube dizer pra onde.

Os dois examinaram a promissória, principalmente o valor.

O valor da promissória é maior do que o do bilhete. Mas, não importa. O vigário fará bom uso dele. Tenho certeza. Podemos fazer a troca. Eu fico com o bilhete e vocês com a promissória. Procurem o dono da mercearia, o nome dele é Armindo, e um de vocês diz que é meu primo.

Como é seu nome?

Clóvis. É só apresentar a promissória e dizer que é o primo de Clóvis.

Feita a permuta, o vigário despediu-se.

Tenho que ir, senão perco o ônibus.

Vai com Deus, irmão. Boa viagem.

Que beleza, cara! Melhor do que eu esperava.

É verdade. Seis horas a gente procura o Armindo.

Às seis e cinco, dois homens corriam apavorados pelas ruas de Vilarejo tentando fugir das balas que saíam do cano do revolver de Armindo e nunca mais foram vistos na vila.

Fernando Kraichete
In Contos do vigário



MEMÓRIAS

Olhou para trás após um calafrio estremecer o seu corpo. Não havia ninguém na rua. Desejou que fosse dia, em outras partes do mundo àquela hora o dia estava nascendo, o sol começava a surgir afastando com a sua luz, ainda que ainda tênue, os fantasmas que ali ameaçavam assustá-la. Em algum lugar do mundo, naquele momento, o dia seguinte acabara de nascer. Era apenas um entre tantos, pois muitos outros ainda iriam surgir, outros haviam chegado há algum tempo, outros estavam quase cumprindo o seu destino. O restante já o havia feito, que é a mesma sina de todos, de tudo, afinal: o aniquilamento, a morte, o nada. Eram vários em um mesmo fragmento de tempo, nascidos em diferentes pontos do mundo, identificados pelo mesmo nome, que carregarão até que se aniquilem de todo e somente restem deles possíveis memórias.

Fernando Kraichete
In Contos librianos



AHN!

Deixe. Não. Deixe. Não. Deixe. Já disse que não. Por que não? Porque não. Você vai gostar. Não. Garanto que vai. Não. Assim... Pare. Assim... Chega. Assim... Ahn!

Fernando Kraichete
In Contos librianos



NATAL

Ela chegou pra ele e falou: "Meu senhor, me ajude." Ele olhou pra ela e perguntou: "Que ajuda?" Ela virou pra ele e sussurrou: "Sinto fome." Ele riu pra ela e calou.

Fernando Kraichete
In Contos librianos



VIDASSEMANA

Nasceu no domingo quando todos dormiam.
Cresceu na segunda quando todos despertavam.
Adolesceu na terça quando todos saíam.
Juvenesceu na quarta quando todos retornavam.
Amadureceu na quinta quando todos bebiam.
Envelheceu na sexta quando todos fornicavam.
Morreu no sábado quando todos desistiam.

Fernando Kraichete
In Contos librianos



NYX

Nyx queria esquecer, mas aquele anel a impedia. De nada adiantou retirá-lo do dedo e atirá-lo para o fundo do poço. Do profundo poço. Tão profundo quanto profunda era a sua mágoa. De nada adiantou retirá-lo do dedo porque não conseguia retirá-lo da cabeça. Tivesse trazido consigo aquela garrafa que, na pressa, esquecera de trazer, daquele vinho cor de sangue que esquentava o seu corpo, o anel e a mágoa cairiam no poço do esquecimento. O que fizera ele com o corpo? Com o seu corpo? Sobre seu corpo ele descansou até cansar, até enjoar. Era verão, fazia um calor intenso, estava apenas começando, era impossível abreviá-lo, era preciso esperar, pacientemente, não havia como fazê-lo sair e entrar a primavera.

Era noite, as estações do ano mudavam incontinenti, de acordo com o desejo dela. Vivaldi. Ela amava Vivaldi como nunca havia amado alguém na sua vida. Que vida? Que vida era aquela que agora estava vivendo? O que fizera ele com o corpo que ambos depositaram sobre a cama, aquela mesma cama que tanto prazer lhe dera, que lhe permitira produzir vida e que agora estava sendo o repositório da morte? O vinho. Ela amava o vinho e como fora possível não lembrar dele? Agora, era primavera. Na pele, o verão, mas o tímpano vibrava ao som da primavera. Estava sentada no chão, não da varanda porque não havia varanda, havia apenas um quarto e uma pequena sala, uma cozinha e um apertado banheiro. Estava sentada no chão da sala. Estava seminua, de calcinha e sutiã, por causa do calor. Os cabelos ainda molhados, a toalha úmida sobre o sofá, o ralo do banheiro esgotando a água. Levantou-se, dirigiu-se à janela, observou que o homem do prédio em frente a observava de sua própria janela, não era a primeira vez, ele estava quase sempre ali, a observá-la, ela, agora, de calcinha e sutiã, em outros momentos sem nada, ele sempre a observando. Ela era seu vício. Seu vício era o vinho. O vinho cor de sangue que esquecera na geladeira, ainda fechado. Disseram-lhe inúmeras vezes, ele próprio lhe dissera, que não se bebe vinho gelado. Não é de bom gosto. Mas ela assim o preferia, era o seu gosto.

Aquele corpo deitado naquela cama deveria ser o dele, não o do outro.

Fernando Kraichete
In Nyx e a noite
(capítulo 13)




OTELO

Alô! Alô, Cássio, quero falar com Desdêmona. Você quer falar com Desdêmona? Quero. Ligue pra casa dela. Já liguei, ela não está em casa. Ligue mais tarde, ela deve ter saído. Ela saiu pra sua casa, ela está aí, em sua casa, eu sei que está. Em minha casa? Sim. Você está louco? Iago me disse que ela costuma ir à sua casa. Quem lhe disse isso?! Vai dizer que ela nunca esteve aí? Já, já esteve, várias vezes, com você. Eu sei que ela está aí agora. Você está certo disso? Estou. Então, venha verificar.

Dez minutos depois.

Entre. Onde ela está? Não está aqui, já lhe disse. Está, eu sinto o cheiro dela. Sente o cheiro dela?! Sinto. Então, siga o faro. Vou seguir. Pode procurar, reviste a casa toda.

Dois minutos depois.

Encontrou? Não. Então? Ela saiu antes que eu chegasse. Você está louco de ciúme! Vocês me traíram e eu não admito traições.

Um dia depois.

Condolências.

Fernando Kraichete
In Contos librianos



CAMÉLIAS

Eu vi, eu vi tudo.
E nada mais viu.

Fernando Kraichete
In Contos librianos



O CONTO

Ela não. Ela não por que? Porque não. Por que? Eu não quero envolvê-la nessa história. Mas ela já está envolvida. O problema não é ela. Quem é então? Ele. Ele quem? O marido dela. O que o marido dela tem a ver com isso? O marido dela está me ameaçando. Ameaçando? Lembra daquela vez na sua casa? Quando? No aniversário da sua filha. Mas o marido dela não estava lá. Estava. Estava? Não lembra que ele quebrou o copo? É verdade. Então? Ele lhe ameaçou naquele dia? Sim. Por que? Eu contei pra ele. Você contou? Contei. Não era pra contar. Eu contei e agora...

Fernando Kraichete
In Contos librianos




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