|
|
libra
Fernando Kraichete |
|
um território independente dentro de litbr Música de fundo: As Quatro Estações (Inverno) - Vivaldi Fernando Roberto Kraichete é bacharel em filosofia pela UFBA, exerceu a crítica cinematográfica na juventude e é compositor bissexto. Durante vinte anos trabalhou na área de informática da Petrobras como programador de computador e analista, tendo desenvolvido e implantado o sistema online de viagem (AVP), utilizado por todos os órgãos da empresa em âmbito nacional. Foi editor da revista Música Objetiva, uma das primeiras publicações brasileiras do gênero na Internet. É autor dos romances Sete dias de março, Nyx e a noite, Mouseîn, O quarto, Xpóvoç, e de dezenas de contos. É editor desta litbr. Os trabalhos aqui publicados estão com os direitos autorais devidamente registrados. |
|
(CURTOS) CONTOS (1 - 10) (11 - 20) (21 - 30) (31 - 34) |
|
ENEIDA Quando os troianos se estabeleceram na Itália, Eneida estava lá. Quando contribuiram para a fundação de Roma, Eneida estava. Mas quando Enéias desceu aos Infernos, Eneida já não estava mais. Estava em outro tempo, em outro lugar, escrevendo a história do carnaval carioca.
Fernando Kraichete
|
|
CONTOS DO VIGÁRIO (4)
O vigário de Vilarejo sabia de tudo o que acontecia nessa pequena vila. Esta estória me foi contada por ele.
Fernando Kraichete
|
|
MEMÓRIAS Olhou para trás após um calafrio estremecer o seu corpo. Não havia ninguém na rua. Desejou que fosse dia, em outras partes do mundo àquela hora o dia estava nascendo, o sol começava a surgir afastando com a sua luz, ainda que ainda tênue, os fantasmas que ali ameaçavam assustá-la. Em algum lugar do mundo, naquele momento, o dia seguinte acabara de nascer. Era apenas um entre tantos, pois muitos outros ainda iriam surgir, outros haviam chegado há algum tempo, outros estavam quase cumprindo o seu destino. O restante já o havia feito, que é a mesma sina de todos, de tudo, afinal: o aniquilamento, a morte, o nada. Eram vários em um mesmo fragmento de tempo, nascidos em diferentes pontos do mundo, identificados pelo mesmo nome, que carregarão até que se aniquilem de todo e somente restem deles possíveis memórias.
Fernando Kraichete
|
|
AHN! Deixe. Não. Deixe. Não. Deixe. Já disse que não. Por que não? Porque não. Você vai gostar. Não. Garanto que vai. Não. Assim... Pare. Assim... Chega. Assim... Ahn!
Fernando Kraichete
|
|
NATAL Ela chegou pra ele e falou: "Meu senhor, me ajude." Ele olhou pra ela e perguntou: "Que ajuda?" Ela virou pra ele e sussurrou: "Sinto fome." Ele riu pra ela e calou.
Fernando Kraichete
|
|
VIDASSEMANA
Nasceu no domingo quando todos dormiam.
Fernando Kraichete
|
|
NYX
Nyx queria esquecer, mas aquele anel a impedia. De nada adiantou retirá-lo do dedo e atirá-lo para o fundo do poço. Do profundo poço. Tão profundo quanto profunda era a sua mágoa. De nada adiantou retirá-lo do dedo porque não conseguia retirá-lo da cabeça. Tivesse trazido consigo aquela garrafa que, na pressa, esquecera de trazer, daquele vinho cor de sangue que esquentava o seu corpo, o anel e a mágoa cairiam no poço do esquecimento. O que fizera ele com o corpo? Com o seu corpo? Sobre seu corpo ele descansou até cansar, até enjoar. Era verão, fazia um calor intenso, estava apenas começando, era impossível abreviá-lo, era preciso esperar, pacientemente, não havia como fazê-lo sair e entrar a primavera.
Fernando Kraichete
|
|
OTELO
Alô! Alô, Cássio, quero falar com Desdêmona. Você quer falar com Desdêmona? Quero. Ligue pra casa dela. Já liguei, ela não está em casa. Ligue mais tarde, ela deve ter saído. Ela saiu pra sua casa, ela está aí, em sua casa, eu sei que está. Em minha casa? Sim. Você está louco? Iago me disse que ela costuma ir à sua casa. Quem lhe disse isso?! Vai dizer que ela nunca esteve aí? Já, já esteve, várias vezes, com você. Eu sei que ela está aí agora. Você está certo disso? Estou. Então, venha verificar.
Fernando Kraichete
|
|
CAMÉLIAS
Eu vi, eu vi tudo.
Fernando Kraichete
|
|
O CONTO Ela não. Ela não por que? Porque não. Por que? Eu não quero envolvê-la nessa história. Mas ela já está envolvida. O problema não é ela. Quem é então? Ele. Ele quem? O marido dela. O que o marido dela tem a ver com isso? O marido dela está me ameaçando. Ameaçando? Lembra daquela vez na sua casa? Quando? No aniversário da sua filha. Mas o marido dela não estava lá. Estava. Estava? Não lembra que ele quebrou o copo? É verdade. Então? Ele lhe ameaçou naquele dia? Sim. Por que? Eu contei pra ele. Você contou? Contei. Não era pra contar. Eu contei e agora...
Fernando Kraichete
|
|
(CURTOS) CONTOS (1 - 10) (11 - 20) (21 - 30) (31 - 34) |
|
|
|
PAÍS - ESTADO/REGIÃO - CIDADE MAPA DAS MAIS RECENTES VISITAS |
|