A farpa de fogo do tempo
queima o sonho de luar.
Em meus dias de Oriente,
me volto para o Norte,
o coração lateja, amargor.
Do viço do sol nos trópicos
dorme o pensamento.
A luz indica o trajeto.
Minhas pegadas provam:
o andar é para trás,
por dentro da extensão azul
entre o medo e a morte súbita.
Os ventos desabridos aplacaram-se.
Ponta de terra entra pelo mar
a ser dobrada em calmaria pura –
maior amor nem mais estranho existe,
boa esperança,
esperança purpurada.
O promontório de alcantis agudos
deitado na planície em que nasci,
anfractuoso opõe o vulto enorme.
Titã, fita o anil.
a baía dos santos
a transbordar de azul.
Sigo nessa mira.
Neste espaço que excito,
eu, peixe de Deus,
das águas doces,
em lesma abominada.
Me matei de sal-gema.
Ressurgi no índigo do sal,
de suas vísceras,
tornassol,
agonia e redenção
de um viver tardio.
Naquele tempo
em estado boreal,
eu, precoce em minha era.
No amanhecer de agora,
ventos nortes.
Um durar de ausências
invadido de faíscas.
Tomba o dossel de luz.
No ano de dois mil e seis
a aurora austral
invadiu o céu do meu País,
e eu a vi, vejo, verei sempre.
(A rocha do sossego já me tem).
Arde Cadmo, cádmio
para a nitidez da hora bruta.
De: Poemas da Luz Inesperada (inédito)