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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.















Quem me roubou a minha dor antiga,
E só a vida me deixou por dor?
Quem, entre o incêndio da alma em que o ser periga,
Me deixou só no fogo e no torpor?
Quem fez à fantasia minha amiga,
Negando o fruto e emurchecendo a flor?
Ninguém ou o Fado, e a fantasia siga
A seu infiel e irreal sabor...

Quem me dispôs para o que não pudesse?
Quem me fadou para o que não conheço
Na teia do real que ninguém tece?
Quem me arrancou ao sonho que me odiava
E me deu só a vida em que me esqueço,
"Onde à minha saudade a cor se trava?”.

Fernando Pessoa. Glosa

Quem me retorna a minha dor antiga
E só a morte me trocou por dor?
Quem entre a ausência da alma em que se abriga 
Me vestiu só na água e no albor?
Quem fez à realidade minha amante
Colhendo o fruto e despertando a flor?
Alguém ou a Vida, e a realidade siga
A seu fiel e mais leal sabor...

Quem me dispôs para que eu alcançasse?
Quem me retira para o que contemplo
Na teia do sonhar que alguém lacera?
Quem me fincou à terra que me acolhe
E me deu só a morte em que me lembro,
“Onde ao meu pesar o amor se mata?”

Maria da Conceição Paranhos. Glosando a glosa




















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