O primeiro livro de poemas de Emanuel M. Vieira — escritor catarinense com vários prêmios literários, radicado em Brasília desde 1979 — é solidário ao belo título que o nomeia: Inventário da travessia.
Contrariando, em parte, alguns filósofos da modernidade (o nome não está na coisa), um título — isto que, enquanto nome, de fato, não faz parte do objeto, seja qual for sua natureza — ao ser pensado, escolhido pelo autor, acaba por dizer algo do ofício de que trata, quanto mais seja um objeto-livro de poemas: arte.
Inventário da travessia é, assim, ao mesmo tempo, testemunho emocionado da vida de seu autor, vida comprometida com o homem humano no mundo e com o mundo, e, poesia: âmago, este que, avesso às tentativas medidas, acaba por des/inscrever-se letra projetada por seu "astrolábio" (nome de um dos poemas) interior.
Entretanto, apesar de Emanuel M. Vieira partilhar da lição de Manuel Bandeira — "a poesia se faz com palavras" —, em alguns poemas, o poeta ainda se deixa perder em teias da prosa, da narrativa (jamais em engano do prosaico).
De todo modo, a leitura de um livro de poemas é, a nosso ver, "travessia" e retorno, recusas e escolhas, grifos: se ressaltamos versos que tocam nosso corpo-alma (nossa estética), será por eles acordarem significantes também nossos, por vezes, calados, mortos: eis que a leitura os desenterra, justo por operar (iluminar) intertextos comuns, estes que nos une à poesia do autor. Ao seu olhar de abismo, em frestas de luz e lâmina (a lâmina é o poema não feito, p.51) nos juntamos ao poeta para lavrarmos, juntos, o chão de sua escrita. Lavrar e cumprir sua palavra debuxada em manhãs azuis, matéria prima da memória (...) Além de mim, além da vida: /do pó que serei (p.37), (...) Cumpri os rituais: afiei o lápis, lavei as mãos, // Alguém talvez escreva sobre outras manhãs, quando eu não estiver mais aqui. (p.55). Entretanto, com esse mesmo pó — tempo, grafite sem cor — está para sempre esculpida a infância do homem, na mesma folha que era branca (...). Há uma (...) criança congelada no tempo (...). O menino mítigo não submerge, (p.57).
De resto é navegar, leitor e autor, por quintais de um "homem desembarcado". Reverente à sua (à nossa) memória, Emanuel nos oferece o odor de "pão feito em casa", deixando-nos entrever as múltiplas cores de onde retira tais lembranças. Memória partilhada em vôos de "pássaro cativo", a dor habita sua palavra. Homem entre homens, coautor de seu tempo histórico, o poeta não se rende, mesmo ao falar de esperança e sangue, estes que nos foram arrancados nos idos dos anos 60 e 70 — (...) Algo foi perdido irremediavelmente na jornada, / muito foi ganho nela: travessia. (p.32), eis que Emanuel Vieira lembra ao companheiro Paulo Martins (um entre os irmãos de luta, de literatura) a quem oferta o poema Cais Interior.
Ao tentarmos um rastro (qual verso cicatriz de João Cabral de Melo Neto) deixado deixado pela poesia de Emanuel nos vem, de pronto, a morte, o porto, a memória em rebeldia, travessia reinventada em O tempo e suas escamas. Assim, enquanto os mortos espreitam nesta sala de jantar (...) nos arvoramos interpor a palavra "não" em (...) chama que (não) se apaga, verso do belo poema Mortos de Domingo (p.15).
De resto, tudo que dissemos são fragmentos de prazewrosa leitura: Inventário da travessia. Aqui, somente intentamos estender tal prazer ao outro. Convictos de que, varado todo o livro, enfim, dar-se-á a ver Desterro cumpriu-me / e cumpriu-se, versos com que Emanuel M. Vieira inicia o seu poema definitivo, Desterro (p.88).
Fonte: iararana 6 - revista de arte, crítica e literatura
Salvador - Bahia - Brasil (julho a outubro de 2001)
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