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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.



Caminhos e atalhos de uma dedicatória





Maria Lúcia Martins



Ao concluir Morte e Vida Bandolim, o primeiro impulso foi dedicá-lo aos netos, a pessoas queridas

Ao concluir Morte e Vida Bandolim, o primeiro impulso foi dedicá-lo aos netos, a pessoas queridas... de dez a noventa (como disse o escritor Aleilton Fonseca, artigo sobre o nosso livro A Tarefa história de um menino e seu desejo pelo violino). Então, salvo os fragmentos que saúdam (respectivamente) os autores de Dom Quixote de la Mancha e de A Bolsa Amarela,

Dedico este livro a meninos e meninas de todas as idades que nunca possuíram um livro só e somente seu.

Um livro para ler à hora que quiser e onde der na telha. No dia em que recebi, de presente, numa fazenda (eu e mais dez irmãos...), Branca de Neve e os Sete Anões, me escondi na dispensa para ler; ninguém me achou para fazer "banca"... E, às vezes, aquele pedaço de maçã ainda me engasga. Quando não consigo escrever (inventar), piora.

Assim, Morte e Vida Bandolim é paixão velha. Bandolim, o de duas almas: o instrumento de cordas, que minha mãe um dia tocara... e, por ele, o nome do cavalo, Bandolim... Neste montávamos em pêlo, umas quatro crianças esquipando capim afora!. Sua morte, mordido de cobra... Bom, mas, separar o que vivi, de fato, dos versos deste livro, cavalgadas e vôos bandolim, pégaso e outros pássaros/cavalos... é impossível.

Os "casos" de vida, belos ou cruéis mesmo os reais portadores de poesia não bastam: quantas vezes a razão me ordena Enxugue a lágrima e escreva... Nada, nem uma letra. Mas acabei aprendendo que entre a emoção e a idéia poética para transmutá-las em poema (arte, letra) é preciso esquecer da realidade, de mim e do tempo... A comida, no fogo, queimada, a conta da luz não paga, o dinheiro, não recebido, do trabalho, etc etc; tudo por causa da busca incessante da palavra sonora, simples, clara, exata.

Mas todos que escrevem (sobretudo poesia), sofrem disso. Sabem que o mundo não cessa de dar-a-ver poesia, mas... Nos "casos", alguns já me sopraram poemas? Certamente. Outros esperam; por esse estado errante ou desejo. Que hospeda a louca ou imaginação. Ela é que nos mantém vivos. E que pode ser simples brinquedo de crianças. Ou fantasia de adultos que se permitam "sujar de vida": brincar de pôr letras num papel, muro, tela de computador...


"Casos"

Mãe –  Doutor os óculos dela já devem estar fracos; e minha filhinha só tem 3 anos...

Médico: – Ela levou a colher cheia ao nariz!?

Mãe (rindo) –  Não senhor: no velocípede, noite clara, na varanda, ela cantou bem assim:

– Oh! la lá á, uma lua bateu na outra!

Médico (rindo mais) – A senhora é que precisa urgente de uma receita. Vou lhe passar uma linda, linda: Ou Isto Ou Aquilo, de Cecília Meireles!

Menino angolano (que assistiu sua mãe morrer na guerra...)

Eu: – arranje um jeito de mostrar o "bué" de gente –  da fuga que você me contou agora –, na sala desta casa bonita que você desenhou..

Ele: em pé ou deitada?

• Jovem (obsessivo) me avisa que desenhou "eu mesmo", num rio escuro, entre as duas margens. Tudo em preto. E ele me pergunta:

– Sabe onde eu estou? Tou no fundo dessa água escura, ninguém vai poder me achar. Mas eu estou vivo. Vou escrever o texto, texto vivo.

• Um menino de oito anos, viajava de ônibus (BA), com sua mãe, numa noite estrelada:

Mãe, noutro dia vi uma estrela brilhando no céu, uma só, e eu queria saber se você também estava vendo a mesma estrela; você estava no Rio de Janeiro, longe...

As teses texto-vivo têm sido trabalhadas por mim; na urdidura do tear (ou vida), elas têm sido tecidas com fios de muitas cores e de texturas distintas: fios lúdicos, lógicos, dramáticos e poéticos. Pelo menos.






In Morte e Vida Bandolim
Poemas para crianças de dez a todas as idades
ARQUIMEDES EDIÇÕES - Rio de Janeiro - 2004


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