O sapo-rei... que tesão!
Diz a sapinha – Tão
insegura de seu poder,
no velho espelho Narciso,
a paixão.
– Ai! fosse a vida... A coroa,
para o dia. À noite, dormirei
nua, em pura noite de lua
sob a pele de prata do rei.
Nada. O rei nem contudo,
nem ainda. E a sapa nem avisa:
se veloz vai-se embora,
mais depressa cai na vida,
em busca de águas alheias.
Por conta do que cantava,
foi chamada de Aída,
de Carmem (e até de Sereia),
pelos rios onde passava.
Mas a dor (saudades da beira
de sua lagoa) em cada noite,
adoecia alguns átomos
sua alegria cantante. – Ai!
meu rei.
Decide. E durante umas
duas luas, a sapinha fez
a longa viagem de volta.
O sapo-rei recebe-a
com surpresa no olhar.
– Até que enfim, princesa!
Antes, não sei porque,
não mostravas nada por mim.
(Um peixe amigo me contou).
Longe, cantavas, triste,
graves saudades daqui.
A sapinha (já, quase sábia):
– Nunca tive coragem.
Hoje, diferente é minha fala:
mesmo sendo um sapo-rei,
tu nunca soubeste disto: muito
perto não se enxerga!..
In Morte e Vida Bandolim
Poemas para crianças de dez a todas as idades
ARQUIMEDES EDIÇÕES - Rio de Janeiro - 2004