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É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.

A linguagem verbal e a música
(trecho)

Mariana Quadros






(...)


   Atirei um pau no gato to   
   Mas o gato to
   Não morreu reu reu
   Dona Xica ca
   Admirou-se se
   Do berro do berro
   Que o gato deu




A análise da canção popular Atirei o pau no gato pode ser uma boa oportunidade para a reflexão sobre a canção como um todo de sentido. A letra constrói um efeito de violência e de dor. Porém a melodia, conhecida de todos, ágil e com ritmo marcado, minimiza o teor agressivo da letra. Apesar disso, sabemos que as palavras e a música são indissociáveis nessa canção; formam, pois, um texto. Que efeito de sentido esse tipo de interação provoca? Qual a relevância dessa contraposição entre melodia e letra em uma canção que, embora de temática agressiva, é voltada, em grande parte, para o público infantil?

Além disso, podemos perceber que, na própria organização das palavras, há procedimentos que fazem com que não nos prendamos tanto ao conteúdo da linguagem verbal, mas ao valor musical das palavras. Nesse sentido, palavras e música se somariam para mascarar a temática violenta narrada. Quais recursos enfatizam a própria mensagem, em detrimento da transmissão de informações sobre os acontecimentos narrados? Que função da linguagem se caracteriza dessa forma?

Não só Atirei o pau no gato, como muitas outras canções valem-se de recursos próprios da linguagem verbal, criando efeitos de sentido inusitados que ultrapassam a simples transmissão de informações. Nas canções, com efeito, a função poética exerce um importante papel, acrescentando musicalidade não apenas à melodia, mas também às palavras:


Dada a necessidade de imbricar necessariamente melodia, ritmo e letra, é nesse tipo de realização que se pode notar de maneira muito clara a função poética da linguagem tal como foi tratada anteriormente. Sem falar das rimas, das aliterações e dos procedimentos comuns à poesia, saliente-se que as letras das canções recorrem freqëntemente às onomatopéias, às sílabas vazias de sentido, destinadas a serem sustentadas pela melodia, com uma função puramente poética. A canção, sobretudo a popular, é o lugar de uma espécie de êxtase verbal onde se pode assumir o prazer da diversão com as palavras, os sons, as assonâncias, consonâncias, dissonâncias, rimas, imagens absurdas, e o non-sens. (VANOYE, 2003, p. 238, grifo do autor) (*)


















(...)


(*) VANOYE, Francis. Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita.
São Paulo: Martins Fontes, 2003.


In "Língua portuguesa" - Mariana Quadros, Fred Girauta e Mario Newman.
Rio de Janeiro: CCAA Editora, 2006.




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