|
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação. |
|
BOM DIA, RESSACA [In O cego de Ipanema] Paulo Mendes Campos Não é nada fácil despedir uma ressaca instalada em seu
quarto, disposta a ficar o dia todo, sobretudo quando a gente já deixou de ser
há muito o que se chama um broto. Ressacas em geral são fiéis e suscetíveis;
para dribá-las, hay que ser de circo, qualquer distração — como nas aventuras
acrobáticas — podendo causar a morte do artista. Primeira providência: quando você
desprega os olhos e vê que ela está mesmo a seu lado, não demonstrar o mais ligeiro
sinal de surpresa, mas recebê-la com uma ternura um tanto distraída: — Bom dia, ressaquinha. Respire fundo três vezes. Não dar
maior atenção aos vagidos dela, suas caretas, àquele hálito de abominável
melancolia. Não se considere um crápula, um homem sem palavra, que é isso o que
ela deseja. Mantenha a cabeça imóvel a fim de não denunciar com um gemido a sua
dor sísmica. Esqueça os seus compromissos, por mais graves que sejam (o remorso
é uma das brechas por onde pode penetrar a fera), fingindo-se absolutamente
livre, como se dispusesse de seu tempo à vontade. É de todo necessário que ela
não desconfie do seu encontro na cidade com um gerente de banco. Se ela lhe oferecer maldosamente
um cigarro, aceite-o, para abandoná-lo depois de três ou quatro tragadas. Olhar
pela janela é sempre perigoso: pode estar fazendo um magnífico dia chuvoso e
frio, mas pode também uivar lá fora um sinistro e tormentoso astro-rei. Não é
efeito literário: este é o nome do sol nos estados de ressaca. A visão macabra
de um dia luminoso costuma esmorecer sem remédio os ressacados de mais talento. Por mais violenta que seja a sua
vontade de tossir, não o faça; a convulsão poderia trazer-lhe conseqüências
imprevisíveis, sendo compensador qualquer sacrifício no sentido de adiar esse
desejo para momento mais propício. Evitar o café. Proceda como se
fosse dormir ainda, sem cair na leviandade de prometer que jamais... Essa
capitulação, além de falsa, condiciona uma desmoralização interior que insufla
novas forças à inimiga. As ressacas não morrem de amores
pela cama, existindo algumas, no entanto, extremamente espertas, que se
acomodam indefinidamente ao leito. Mande buscar um jornal: contorne os
cronistas da noite, mergulhe com paciência nas seções de economia, caso você
aprecie futebol, e nas páginas esportivas, caso se interesse por economia. A
atitude pode desorientá-la alguma coisa. Sem levar a mão ao coração (e se o
fizer, não revele pelo menos o seu nervosismo pela taquicardia), peça um jarro
de água geladíssima e duas aspirinas. Como o gato, a ressaca teme água fria.
Espere o momento preciso. No que a ressaca bobear, arraste-a até o chuveiro,
escancare a torneira, escove os dentes. O jorro da água, prenunciando o impacto
frio, amolece um pouco mais a tristonha. Em seguida, com o destemor digno de um
almirante batavo, enfrente o chuveiro, sem importar que a água o sufoque um
pouco, pois a sufocação deverá também atingi-la. Reze três padres nossos e três
ave-marias, e comece a tossir. Existindo mar perto de sua casa,
ótimo; não existindo, paciência. Almoce, não deixe de almoçar, faça-me o favor.
Se gostar de jiló, pode-se ter em conta de um homem privilegiado, pois todas as
ressacas de minhas relações, como quase todo mundo, detestam jiló. Fígado
fresco de galinha é outro alimento que elas não apreciam. Bebida, o ideal por
enquanto é mate gelado. Toque na vitrola discos de Bach ou
Debussy, somente peças para piano ou cravo, jamais sinfônicas. Uma boa ressaca
é tarada por música orquestral. Fuja das arestas do rock’n’roll, das espirais
do bolero, dos círculos concêntricos da valsa vienense. Deite-se no divã e leia mais um
pouco, de preferência uma história boba de revista frívola. Jamais poemas de
Baudelaire com aqueles crânios plantados de bandeiras negras! Quando a ressaca já estiver
bastante aborrecida com esse tratamento, é cair na rua, cometendo no primeiro
botequim a violência final, um chope bem tirado, um só. E vá enfrentar o
gerente. Mas há ressacas versáteis, assim como há sujeitos indefesos. Posto o
que, não aceitaremos reclamações. |