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À SOMBRA DO SAMURAI


Plínio de Aguiar
(Licenciado em Filosofia.
Faixa-preta de Karatê, 1º Dan, Shotokan, WUKO, FBK)





Abordar a obra de Miyamoto Musashi, não deixa de ser uma tarefa temerária, sabendo-se de seu feitio emblemático, e da grande quantidade de estudos sobre a mesma já realizados. No entanto, a releitura do seu texto fascinante, verdadeira obra aberta, deixa sempre alguma margem para alguns comentários. Guia de estratégia, usado inclusive por executivos no mundo dos negócios, quando se considera a atividade econômico-financeira como verdadeiro campo de batalha, a obra de Musashi é sabidamente indispensável para o praticante de artes marciais, que ambiciona evoluir da simples prática para maior compreensão dessa mesma prática, transcendendo-a e tornando-a fundamento da própria vida.

Samurai que viveu no século XVI e XVII, Musashi passou a maior parte de sua vida num Japão em turbulência político-administrativa, onde a destreza corporal e com as armas era fundamental para a sobrevivência. Considerado o maior espadachim de todos os momentos do Japão feudal, Musashi já participara, antes dos vinte e nove anos de idade, de mais de sessenta combates e vencera todos eles, levando seus adversários à morte. Depois de servir a alguns senhores feudais, e andar a maior parte de sua vida como samurai errante, Musashi passou a dedicar-se ao ensino e à pintura, para algum tempo depois isolar-se numa caverna e escrever Um livro de cinco anéis (Go Rin No Sho) (1), morrendo em 1645.

No entanto, Musashi deve ser considerado um rônin, isto  é, um samurai errante, literalmente. Sua única posse material eram as suas armas. Exceto em algumas ocasiões, em que lutou ombro a ombro com alguns senhores feudais, Musashi não se colocou a serviço de déspotas ou usurpadores, que costumavam transformar samurais em seus instrumentos. Musashi, apesar de ter servido a alguns senhores, teria feito parte de uma Cavalaria oriental, livre de qualquer obrigação perante um senhor ou um amo. Diz Carmelo H. Ríos: “Erroneamente confundidos com os samurais, palavra que viria a significar protetor ou servidor, aquele que se senta ao lado, os rônin deram à história feudal do Japão a maior parte dos nobres feitos de armas que fizeram célebre a casta dos samurais” [trad. do A.] (2).

Como é sabido, Um livro de cinco anéis (dividido em: O Livro da Terra, O Livro da Água, O Livro do Fogo, O Livro do Vento, e O Livro do Nada) é único, porque aborda os métodos de combate corpo a corpo com o mesmo destaque que trata da estratégia.

É à sombra da experiência fantástica desse samurai errante, que destacamos algumas afirmações do seu livro e tecemos alguns comentários, utilizando o Karatê como referência das artes marciais. Portanto, onde exista esgrima, leia-se Karatê.


1 - “O verdadeiro valor da esgrima não pode ser encontrado no âmbito da técnica da esgrima.”

      Pergunta-se: onde encontrar o valor do Karatê? E adiante:

      “É muito difícil que se chegue a compreender o verdadeiro caminho apenas através da esgrima. Estude as menores coisas e as maiores coisas, as coisas mais superficiais e as coisas mais profundas”.

      Pela afirmação de Musashi, o valor do Karatê não pode ser encontrado no âmbito do Karatê. A realidade é maior do que o Karatê. O Karatê é o meio onde o caminho se revela, e para entendê-lo é preciso que se identifique o caminho nas outras realidades. De modo relativista, o profundo pode ser superficial e o superficial, profundo. Tudo é importante para o saber. Inclusive, o próprio saber. Daí, o  fundamental é a compreensão da natureza da vida comum, sem necessariamente implicar em mudanças radicais de comportamento. Seria um meio para a chamada iluminação, uma compenetração zen. Servir uma taça de chá teria a mesma importância que comandar um exército em campo de batalha, a mesma disposição interior.

      Então, o verdadeiro valor do Karatê está no quotidiano, na vida comum, na simplicidade, além do próprio Karatê, pois o caminho pode estar em tudo. Essa simplicidade leva ao entendimento da dialética do princípio como fim, do fim como princípio, a primeira técnica é a última, num movimento espiralado de aumento da qualidade, dialeticamente.

      Nesta espiral, compreende-se o que, um certo dia, no dojô, disse-me o sensei  Antonio Souto Aderne: “Nós estamos sempre recomeçando”. É conveniente relembrar que dojô, local onde se efetua o treinamento, significa literalmente lugar onde se aprende o caminho.


2 – “A estratégia imatura é causa da dor.”

      Musashi cita autor desconhecido. Uma conseqüência atual do desconhecimento dessa afirmação é a mudança precipitada de faixas de graduação no Karatê, o que gera posteriormente no praticante a referida dor, a dor da insegurança e da falta da experiência do percurso comum. Pode-se interpretar também do ponto de vista tático do combate: a precipitação leva à derrota.


3 – “O princípio da estratégia é, tendo-se uma coisa, conhecerem-se dez mil coisas.” 

      Ter (saber) uma coisa e, através dela, passar ao conhecimento de dez mil coisas. O é um caminho para outros caminhos. Conhecer mil coisas é muito importante, mas é imprescindível trilhar um caminho (), ter uma coisa.


4 – “A essência deste livro [O Livro do Fogo] é a de que o guerreiro tem que treinar dia e noite a fim de tomar decisões rápidas.”

      A importância da prática. E quanto mais repetitiva, melhor (quantidade gerando qualidade). O treino é emblemático, absoluto, indiscutível. Treinar sempre, nada há que justifique a ausência do treino. “Tomar decisões rápidas” implica na operação em nível consciente, de experiências submersas no inconsciente. Em Sol e aço, o escritor Yukio Mishima, que era também um praticante de esgrima e de  Karatê, fala da interiorização da experiência (adquirida com o treino), de modo que a  reação nas decisões torna-se automática, fulminante, veloz(3). Sem essa “automação” não existe o bom funcionamento da estratégia, portanto não existe arte marcial. Daí, a importância do treino exaustivo, repetitivo. Kenji Tokitsu, 7º Dan de Karatê, doutor em Sociologia, estabelece as diferenças, no Japão, entre keiko e renshû. O primeiro, designa treino, e etimologicamente significa pensar, refletir ou estudar o passado. Já renshû significa aprender pela repetição, para todas as práticas esportivas(4). A definição etimológica de keiko remete à feição absoluta do treino, sob o ponto de vista não só da perícia do praticante, mas de sua formação específica na arte marcial.


5 – “É difícil que uma pessoa se conheça se não conhecer os outros.”

      A máxima socrática “conhece-te a ti mesmo”, sofre um desdobramento com as palavras de Musashi. A afirmação do samurai errante estabelece uma condição para o autoconhecimento, isto é, faz do outro o espelho indispensável. Daí, duas conclusões: a) o isolamento eremita aliado à meditação poderá ser uma técnica, mas não é o caminho (); b) a observação dos outros é em si uma técnica que deverá ser apurada para conduzir ao auto-aperfeiçoamento, para se “conhecer o ritmo de qualquer situação”, o que seria na verdade “apreender a força da natureza”, “atacar o inimigo naturalmente e golpear naturalmente” (citações do Livro do Nada). Na progressão da estratégia, conhecendo-se, o praticante fica sabendo de suas limitações e potencialidades, mas na experiência com os outros estabelece a praxis.


6 – “De uma coisa aprenda mil coisas. Quando você alcançar o caminho da estratégia, não haverá uma só coisa que você não consiga ver. Você precisa estudar muito.”

      Aparentemente, a afirmativa de Musashi denota onisciência, um pecado da presunção. No entanto, podem ser feitas duas considerações. A primeira, é o que se poderia chamar de “princípio do Aleph”(5), ver o todo através da parte,o que exige domínio do ritmo das coisas. A segunda, a continuidade persistente da experiência (treino, observação, estudo). Treinar sempre. Observar sempre. Atenção permanente. O que o samurai adverte não é a necessidade da erudição enciclopédica, livresca, mas a apreensão do ritmo das coisas e acontecimentos através do domínio, tendente à perfeição, de uma coisa. No caso, a arte do Budô, ver o nas coisas, e não o contrário. Qualquer coisa, no momento em que ela contém o caminho (), possibilita a abertura para o Aleph. O contrário, submeter as coisas ao caminho () é o erro do fanatismo, seja religioso, político ou, mesmo, da arte marcial. Um dos passos da estratégia é introduzir o no dia a dia, método, que na língua grega quer dizer caminho, também. Em sua autobiografia, Funakoshi adverte para essa possibilidade de introduzir o caminho no quotidiano e dá exemplo da cobra que fugiu para um matagal, quando ameaçada, num episódio que conta pitorescamente, e no qual foi protagonista, concluindo que a cobra sabia Karatê, isto é, conhecia a estratégia, instintivamente: fugiu, mas deveria estar esperando para atacar no seu terreno (6). Assim, a arte marcial deixa de ser meramente um conjunto de técnicas para defesa e ataque, de modo a se tornar um caminho para o autoconhecimento, a auto-realização.


7 – “O Caminho do guerreiro não inclui outros Caminhos, como o confucionismo, o budismo, certas tradições, realizações artísticas e da dança.”

      Musashi adverte para que não se confunda, nem contamine, as artes marciais com a religião, a filosofia, a cultura popular, e mesmo a arte. Às vezes, instrutores de karatê costumam comparar o kata com a dança, com o objetivo, talvez, de facilitar didaticamente  a compreensão daquele.

     Apesar da característica coreográfica do kata, nenhuma dança tem como objetivo a defesa pessoal e aniquilação do adversário ou adversários. E completa: “Mas, mesmo que eles não façam parte do Caminho, se você conhecer o Caminho a fundo você o verá em tudo. O homem tem que dar polimento ao Caminho que escolheu”. Voltamos ao parágrafo nº 6: não se deve querer ver as coisas no , mas o contrário: há que se ver o naquilo que se quer entender. É a estratégia. Mas para isso não basta querer. É preciso treinar persistentemente(veja-se, novamente, a definição etimológica de keiko). O caminho deverá estar em tudo, inclusive na religião, na filosofia, na cultura popular, na arte, mas sem se contaminar, como um método puro que ilumina para o entendimento.

     O erro, talvez, seja o inverso: colocar tudo no caminho, o que leva ao fanatismo, ao sectarismo, ao dogmatismo, e até mesmo ao bizarro. A pureza do é que possibilita o dimensionamento de entender o todo pela parte. Por isso, Musashi complementa: “Mas mesmo que eles [os outros Caminhos] não façam parte do Caminho, se você conhecer o Caminho a fundo você o verá em tudo. O homem tem que dar polimento ao Caminho que escolheu”.  Há que se ver o caminho naquilo que se quer entender. É a estratégia. Mas, não basta querer. No caso do karatê, é necessário treinar muito.

     O polimento ao qual Musashi se refere deverá ser entendido como keiko. No entanto, de repente, a idéia de que o “caminho do guerreiro” não inclui outros caminhos parece contraditório, quando o próprio Musashi diz que devemos dar atenção a tudo. Completa afirmando que “mesmo que não façam parte do Caminho, se você conhecer o Caminho a fundo você o verá em tudo”. O caminho não é um imenso recipiente, filosófico ou material, onde caibam as coisas que a ele não pertençam. Não é fundamental ou mesmo verdadeiro ver as coisas no caminho. Porém, o contrário. Assim o caminho projeta-se como uma grande luz sobre tudo. A condição para que isto aconteça, e estamos falando de Karatê, é o domínio do caminho. E este domínio não surgirá sem o treino permanente e a observância dos fundamentos.

     Há que notar também que essa observância dos fundamentos tem que extrapolar uma postura meramente intelectual.Essa observância é um processo, onde a ação corporal profunda é indispensável. Daí a importância da arte marcial, especialmente do karatê. Buscar a iluminação não é um comportamento mental, exclusivamente. É keiko. E repetir, repetir, repetir. Resumindo-se, provisoriamente: 1) a grande virtude: a simplicidade; 2) o fim: o início; 3) a iluminação: compreender a verdadeira natureza das coisas do quotidiano; 4) o verdadeiro valor: está fora do Karatê, da arte do Budô.


8 – “Seja qual for a atitude em que você estiver, não tome consciência dela: pense apenas em golpear.”

        Musashi complementa essa orientação dizendo que são cinco as atitudes: superior, média, inferior, direita e esquerda. Para andar, não precisamos pensar que estamos andando. Equivale a dizer: não pense em você, não pense no processo, pense em chegar. E afirma: “As atitudes superior, média e inferior são decisivas. As atitudes direita e esquerda são fluidas”.

        A interiorização dessas atitudes são decisivas para o combate. E complementa: “a atitude média é o núcleo de todas as atitudes. (...) Você deve estudar isto muito bem”. Pode-se acreditar que nem só o corpo do adversário está dimensionado para aplicação dessa observação de Musashi para o kumitê (combate franco na prática do Karatê). É bem possível que o sucesso do livro do samurai no campo dos negócios deva-se a afirmações como essa.


9 – “Hoje você vencerá quem foi ontem; amanhã você vencerá os que não estão à sua altura; depois você derrotará homens mais habilidosos (...).”

     O texto de Musashi, que é o resultado de uma vida inteiramente dedicada ao combate pessoal como espadachim, e de aguda observação na sua experiência de samurai, é um exemplo de como a simplicidade pode conter o máximo de profundidade com relação ao objetivo a que se propõe. Para ele, os métodos para se assumir o controle do combate são: ACUAR (Ken no Sen); AGUARDAR PARA TOMAR A INICIATIVA (Tai no Sen); e ACOMPANHAR O ADVERSÁRIO E ANTECIPAR-SE A ELE (Tai Tai no Sen).

     A estratégia no campo do combate tem seus fundamentos na simplicidade: resume-se praticamente à observância das 5 atitudes já mencionadas e aos 3 métodos agora citados. Musashi adverte, no entanto, que tudo isso não pode ser explicado como deve através de  palavras, isto é, há que se praticar, há que treinar.

     Ganha quem surpreende o adversário, quem o controla e o leva para onde se deseja. Há que”tornar-se o inimigo”, isto é, “ver-se com os olhos do inimigo”, eliminando a superestimação daquele. Recapitulando, antes de concluirmos este artigo/exegese: 1) a iluminação é a compreensão da natureza da vida comum, isto é, da sua essência (não é necessário que o praticante mude seu modo de vida); 2) o objetivo, o ponto final, é o início, a prática mais simples é a mais complexa e vice-versa; 3) a grande virtude é a simplicidade. Finalmente:


10 – “... o estudo do Caminho da Estratégia é o estudo de como vencer o homem.”

     O praticante de Karatê tem como seu principal adversário ele mesmo.

     A superação do egoísmo, destruir o seu núcleo com os fundamentos da estratégia, vencer o medo de perder. E, a eterna finalidade do guerreiro, dedicar-se ao bem do próximo. Após participar de mais de 60 combates, vencendo e matando seus oponentes, convicto de sua perfeição na arte do Budô, Musashi então recolheu-se e escreveu Um livro de cinco anéis.

    O maior espadachim japonês abandonou a espada após matar o segundo maior “mestre da lâmina”. Tornou-se monge, passando a ser perito calígrafo e pintor, e dizia possuir “a chave do movimento”(6). É difícil não acreditar em Musashi. Ele se superou no esforço de amar o próximo, deixando exatamente para a posteridade, inclusive nós, ocidentais, Um livro de cinco anéis, obra perfeita na abordagem do mistério da auto-realização, objetivo atual e justificável da prática da arte marcial, mais especificamente, do Karatê.

     Em conclusão, podemos suspeitar que Musashi, ao fazer um livro sobre estratégia, quis, no fundo, estabelecer os parâmetros para o caminho(), ambiciosamente. Caminho, método (numa transposição para o pensamento ocidental) aprende-se, preferencialmente, na prática da arte marcial.

     Já que a finalidade básica do estudo do caminho é vencer o homem, vencer a si mesmo, o esforço único na apreensão do conhecimento formal não basta. Então, o que seria o caminho? Neste momento, percebe-se que o conceito ocidental de método é insuficiente.

 


BIBLIOGRAFIA E NOTA

 

(1)     MUSASHI, Miyamoto

               Um livro de cinco anéis. Trad. Fernando B. Ximenes. Rio de Janeiro, Editora Tecnoprint, 1984. 

                105 p.

 

(2)     H. RÍOS, Carmelo

                Ronin, la vía del Guerrero Errante. Barcelona,  Ediciones Obelisco, 1990.  268 p.

 

(3)     MISHIMA, Yokio

                Sol e aço. Trad. Paulo Leminsky.  São Paulo, Brasiliense, 1985.

 

(4)     TOKITSU, Kenji

                       “L’Art Martial, le Sport et l’Efficacité”, in Karate Bushido, Novembre, 1996.

                       Paris, France. Pp. 44-45.

     

(5)     O conto “El Aleph”, da autoria do escritor argentino Jorge Luís Borges, em El Aleph, Buenos Aires,

Emecé, 1978, é uma genial invenção sobre um misterioso ponto: “... el Aleph es uno de los puntos del espacio que contienen todos los puntos” (p. 160).

                                                                                   

(6)     FUNAKOSHI, G.

                       Karatê-do; o meu modo de vida.  São Paulo, Cultrix, 1994.  132 p.

 

       (7)  MARSICANO, Alberto

                     “A trilha errante de um mestre do haicai”, in O Estado de S. Paulo, 16/08/1997.




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