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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.


Plínio de Aguiar

Apresentação do livro "Vagabundo na China", de Ezio Flavio Bazzo


Conheci Ézio Flavio Bazzo, no México, em 1978. Naquela época, nos submetíamos ao curso de mestrado. Estávamos no final de uma fase da aventura de pós-graduação no exterior, uma forma relativamente custosa de afastamento do Brasil, ainda sufocado pela censura e comprimido pelo peso de uma possibilidade, aquela que se adivinha como uma espada permanentemente sobre a cabeça do individuo. A conversa de Bazzo, era o maravilhoso mundo dos ciganos, a decadência do mundo acadêmico, as sacanagens, as viagens constantes às jóias entre coxas das mulheres, fossem mexicanas, irlandesas ou marcianas. O importante eram as viagens. O mundo, o seu mistério. Alguns meses depois Bazzo me disse que havia escrito um livro, o "Manifesto aberto à estupidez humana", que não sei em que edição anda hoje. A brochura saiu num castelhano que dependeu muito da boa vontade dos leitores mexicanos, mas relativamente fácil para os brasileiros e seu portunhol local, exceto para aqueles que nem ousaram tocar no livro, provavelmente com receio de macularem sua virtuosa carreira de estudiosos e militantes talmúdicos do materialismo político academicista. Aí Ézio Bazzo foi aos Estados Unidos, comprou um carro velho e rançoso, ajudando a botar o livro na rua. Até sentado nos batentes dos cinemas de arte, vendia a brochura, verdadeiro folhetim de impropérios filosóficos, sabendo de seu trabalho de corrupção da razão todo poderosa, da demoníaca pretensão de dinamitar o discurso armado da classe-média, principalmente de seus intelectuais. Uma verdadeira metralhadora giratória, usando-se uma imagem da moda, mas com uma mira louca, acertando em tudo. O Manifesto era um livro meio inventado de memórias de viagens, real na ética da maldição anti-razão, um vômito de rebeldia, sem pretensões de direitos autorais, onde eram sentida, inclusive de modo direto, a influência de Lautréamont, Marquês de Sade, Bakunin, Hitler, Bataille, Nietzsche, Lênin, o diabo-a-quatro, acertando no que via e no que não via, mas com uma intenção clara, definida. Aí estava o fascínio do estilo folhetinesco, infernal: é preciso que se veja, num mundo burguês, cínico e em desmoronamento, que eu posso fazer esse trabalho letal, onde entram também minhas experiências alucinadas, e vendê-lo, ser lido, engolido, amado, odiado, transado, chupado, fazer mestrado, rodopiar como o diabo na Plaza Juarez, marginalizado, e o mundo continuar no mesmo, enquanto ouço música Zen, fumo cachimbo e peido homericamente. Não creio que alguém possa ter dito: “Gostei do Manifesto”, naquele tom recém-saído do último curso de filosofia e literatura. Impossível. O trabalho do Ezio é uma defesa do kisch, é anti-razão, é um tiroteio descabido onde entram no mesmo saco judeus, cristãos, mulheres, bruxas, marxistas, onanistas, tecnicistas, sacerdotes de todos os tipos, honestos, desonestos, numa retórica do exagero, descalibrada, levando, inclusive, ao riso. Isso: um humor moralizante da anti-moral, que alguns podem chamar anarquista-individualista, visando facilitar a rotulação, decodificar o mistério da subjetividade. Aliás, neste momento, de pós-modernismo em voga, enquadrando-se o trabalho de Bazzo como anarquista, chega-se a Habermas e seu discurso sobre a modernidade, que coloca os anarquistas (pelo menos na literatura e na arte) como, diferentemente dos neo-conservadores, os que realmente se despedem da modernidade no seu todo.

De lá para cá, Ézio Bazzo publicou vários livros, fundou a Revista Víbora, escreveu artigos, inclusive na chamada grande imprensa, sempre no mesmo estilo, a mesma irreverência e coragem pessoal. Mas algo mudou nada permanece o mesmo. Ézio ampliou sua capacidade de fogo usando a fotografia, e ilustrações roubadas sem qualquer escrúpulo de outras publicações, e refinou o destempero verbal, regulando a mira, centrando a sua guerrilha pessoal contra o mundo, preocupando-se definitivamente com o social, os mendigos, as putas, os fodidos da vida, e adotando o maneirismo confessional na sua narrativa. É quando se vislumbra uma possibilidade de se entender o trabalho de Ézio Bazzo, e creio que ele mesmo só há pouco tempo vem entendendo. A morte e a consciência que dela se tem é o verdadeiro problema humano. A partir daí todos os outros problemas horizontalizam-se, tornam-se infinitamente menores, tudo passa a ser titica, a vida uma tortura, até mesmo uma sacanagem divina, e o difícil é entender porque o suicídio não é uma norma geral. A partir desse desespero, e da consciência que se tem desse desespero, Ézio montou o seu discurso propositadamente cheio de citações e referências, num painel em que entram a provisoriedade da vida, a certeza da morte, o relativismo da verdade, a antipatia visceral pelos sectarismos, pelo semitismo, pelo que ele acredita a cosmo visão do judaísmo, relacionada com a cobiça pelo dinheiro e pelo poder, fonte moral dos pecados, raiz de todo o mal, como diz Christopher Brown em sua magnífica leitura de Brueghel. Ézio apela para Cioran, como recurso para continuar. E adota o método de viajar, correr o mundo, munido de uma Canon T90, caderno de notas e o impulso cigano que o levou a conhecer a África, Europa, América, e, agora, a China.

O resultado dessa última viagem é Vagabundo na China. Um livro mais antropológico, uma tentativa bem sucedida de informar confessando, num mundo cada vez mais devassado, desencantado, repleto de caminhos e informações. A ansiedade de entender a alma humana leva Ézio Bazzo, que é doutor em psicologia, terapeuta, chefe de setor de pessoal, cidadão de bom papo, dono de riso constante, usuário incontinente dos adjetivos “fantástico” e “desprezível”, sem vícios, exceto o cachimbo ocasional, a falar dos chineses e da China como quem conta um segredo. E aí está também o segredo de Ézio: a coragem de falar do velho transeunte da velha civilização asiática com a mesma desenvoltura, respeito e irreverência com que fala de Mao, verdadeiro herói contemporâneo. Então, também, vislumbra-se, neste trabalho de maturidade de Ézio Bazzo, um profundo amor pelo ser humano e daí a riqueza de suas imagens, que vem da sensibilidade acentuadíssima do viajante inveterado, e de uma aparentemente contraditória crença no ser humano. Fascinante, pode-se dizer de Vagabundo na China, onde a informação concreta, precisa, mistura-se com momentos como esse: “O suor desse povo tem cheiro de erva. Inspiro-o profundamente tentando identificá-lo, parece de aipo. Não é ruim, também não se parece a uma loção francesa”. Maduro, vivido, sente-se o Ézio poeta: “De tão abobalhado pelas imagens, nem percebo que o ônibus já ficou vazio e que estaciona vagarosamente na parada final. Apenas o motorista, a cobradora e eu. Aproximam-se falando chinês, a cena é fascinante. Respondo ironicamente em português, eles se olham e riem. Todos rimos. A vida é um riso contido ou, então, uma gargalhada em fuga”.

No ano passado, Ézio e eu conversamos muito, saboreando cerveja ou arak, em Brasília, onde estive cursando dois semestres do doutorado em antropologia. Os papos foram importantes para amenizar minha passagem por cidade tão tediosa, porém muito mais decisivo, para, além de reviver uma amizade, descobrir que o franco-atirador Ézio Flavio Bazzo vem transformando, com êxito, seu imenso poder de fogo verbal contra o mundo e suas picuinhas, numa gratificante tentativa de compreender o ser humano e confessá-la. Muchas gracias hombre!


Salvador, Bahia, 11 de abril de 1991.



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