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É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação. |
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À amiga que se sentou ao meu lado, Quando o
pesero ano 68, Ford, imenso, intransigentemente confortável deixou-me à rua
Ezequiel Ordoñez, em Copilco el Alto, imaginei logo que estaria numa versão
mexicana dos bairros da periferia de minha cidade natal, no Brasil. De
imediato, senti que sob os sombreros, povoando na sombra dos rostos ao
meio-dia, estava o buenos-días da terra onde iria viver alguns dos melhores
anos de minha vida, se não os melhores. Cheia das
imagens dos bandoleiros, do Zapata versão Marlon Brando, Pancho Villa como
guerreiro que visitava terras gringas, dando tiros a torto e a esmo, Pedro
Armendáriz contracenando com Maria Félix no preto-e-branco das matinês, dos
boleros que compassaram minha adolescência com as vozes de Pedro Vargas, Lucho
Gatica, dramas que me fizeram chorar na surdina do macho jovem
latino-americano, postado na cadeira de madeira do cinema poeira, para mim o
México ainda estava pintado nessa gradação de aventuras a galope, dois pra lá
dois pra cá, boleros, boleros, boleros, minha cabeça também abrigava pela
ilustração recente o mistério das culturas ancestrais, Juan Comas, Trotski, e a
inevitável lição da rapinagem norte-americana sobre as terras nortenhas da
pátria de Orozco. Como
sabia pouco, como era ignorante, como não podia prever que receberia a certidão
de cidadania latino-americana sob o pretexto de cursar o mestrado em antropologia
na Universidad Iberoamericana! A
primeira lição desnorteadora, mas fascinante, foi o aprendizado da língua, do
castelhano doce, matizado, dengoso, insinuante. A segunda, definitiva como a
primeira, que se apresentou paralela e poderosa foi o contato com as mulheres,
não só por essas, mas em razão do ambiente de ancestralidade misturada com a
contemporaneidade advinda do contato direto, fronteiriço, com a sede do império
capitalista. Sempre
imaginei, e repito, estampas mágicas formadas pela herança do vício
cinematográfico quando adolescente, quase todas as tardes nas salas de
projeção, o México contido numa letra de bolero, Gregório Barrios e uma
hipócrita sentada a uma mesa de bar. “Diez años, así se pasaron diez años sin
yo ver tu rostro...” Dois para lá, dois para cá, o território mexicano como uma imensa pauta
de Solamente una Vez, Perfídia,
Agustín Lara, Fernando Fernández, e cavaleiros notáveis vestidos de branco com
cartucheiras cruzadas nos peitos formidáveis, bigodes irredutíveis na sua
dureza, viva Daí para
dançar nas festinhas do colégio, dos encontros estudantis, segurando trêmulo
cinturas mexendo-se dois para lá dois para cá, lago azul, foi só um passo. II
A dança
que se estabelece hoje de símbolos, recordações, pirâmides, fondas, tequila, e
tantos nomes e codinomes que seria impossível citá-los tem o compasso das
manchas às vezes confusas do território de minha imaginação de um México
libertário, muralista, um México de Carlos Fuentes, Tamayo, Diccionário Porrúa.
Ándale. Paella en Díles que no me maten, não sei se esta
frase de Juan Rulfo remete-me ao Brasil retorcido por ser tão espremido pelo
capital internacional ou à terra seca de Luvina, lugarejo praticamente adubado
pelas cusparadas daqueles que bebem a cerveja tíbia. Díles que no me maten, um dia no parque de Chapultepec assisti aquele
escritor genial falando de literatura ao lado do brasileiro Eric Nepomuceno, mediando
o encontro, no auditório da Casa do Lago, Universidad Autónoma de México. Rulfo
falava, fumava, falava, fumava e pregava cada palavra num cravo mental em todos
que ouviam a sua fala, demonstrando erudição, inclusive peregrinando pela
literatura brasileira, de Guimarães Rosa aos concretistas. Será que ele sabia
que havia alguns brasileiros presentes? Por que falou do Brasil? Tudo
contribuía para reforçar e não para anular minha imaginação de um México
cabrón, macho, completo. Borracho. Aliás,
deve-se observar que é às vezes
surpreendente a bagagem teórica complexa e profunda dos intelectuais que fazem
da pátria mexicana um nicho de respeito. A
ambientação mágica de estar no bairro de San Ángel, entrando na livraria
Gandhi, dava-me o mesmo cheiro naquele pequeno anfiteatro, frente a frente com
o autor de Pedro Páramo, e na
verdade eu gostaria de estar com Rulfo, em seu apartamento ou casa, tomando uma
taça de vinho, pronto para morrer de saudade do que não fui, atolado na
impossibilidade de escrever mais alguma coisa que prestasse. A mesma coisa:
circulando entre os tabuleiros repletos de livros, ouvindo Rulfo, respirando a
nuca da mexicana ao meu lado, uma das que me deram a oportunidade de um
passaporte afetivo para entrar na Zona Rosa, e comer pozzole com cerveja negra
Tecate, ouvindo a envolvente música nortenha.
Loucura.
O risco de marchar pela Insurgientes e desabar no Paseo de Como
separar o pó das estradas de Yuriria da janela difusa da imaginação? Como
escapar do reduto de tantas mariposas daquela cidade, quando recebi o convite
para ir à casa com a colega judia e ruiva e ouvir a pergunta: Qué quieres? Repentinamente, dos pés à
cabeça rodopiou a informação silenciosa: Estás
en México, pendejo. E os
camponeses de Guanajuato, povoado de A
vertigem do convite à casa onde a mulher ruiva, linda, fogosa, persistia e eu
não conseguia responder, enquanto a imagem da adolescente filha do camponês Alfonso,
em pleno campo, onde os melões misturavam-se às preocupações de como cumprir o
contrato de exploração da terra, vestidinho jogado sobre o corpo rijo, herdeiro
da ancestralidade, contaminava meus impulsos mais puros da animalidade, do
estupro. Recuei. A noite estava contida numa garrafa de tequila. Fui ao
botequim mais próximo, mas não havia botequim. Sentei-me então na praça, num
banco onde a igreja confundia-se com o almoxarifado dos meus remorsos
fabricados no Brasil. III
Pero lo
que no sabemos nada es de la madre del gobierno. Outra frase de Rulfo.
Portillo só caberia em minha imaginação se eu visse um Cárdenas elegante, bem
falante. A diplomacia parecia ser a tônica de uma terra onde o Banamex me
pagava a remessa de alguns dólares para que sobrevivesse, pudesse comprar
tequila, comprar livros porque roubá-los unicamente era cansativo, saborear
tacos e tortas em companhia de Silvia, de Isabel, de Alicia Gutiérrez, de
tantos amores. E pagar a universidade, que só me dava uma bolsa que
representava uma pequena porcentagem da mensalidade. Entre os
jornais El Dia e Unomásuno, este último muito parecido com as sessões de sétima arte
do CUC, na Calle Odontología, eu preferia peregrinar pelas páginas onde podia
ler desde Cabrera Infante até Milan Kundera, e a primeira leitura do notável La guerra del fín del mundo, do
polêmico Vargas Llosa. Com a revista mantida por Octavio Paz e Carlos Fuentes, Vuelta, sob o braço, sentava-me na poltrona do cinema
dominicano, em matinês memoráveis de sacanagem com as garotas que pululavam
atrás do mistério. IV
Para
consolidar o imaginário num pavimento onde o real circulasse com a leveza dos
fantasmas, pensei em consultar meus diários de campo, quando estive fazendo o
mestrado. Abri os cadernos, folheei o tempo, revi os nomes, os lugares, as
abordagens teóricas, as observações do coordenador de pesquisa de campo, mas
senti-me na areia movediça das estradas de Guanajuato, infeliz daquele que
recorre a anotações para fixar o delírio. A
maldição do testemunho escrito deverá ser maior que o mal que corrói a aparente
paz de um velho encaixado numa espreguiçadeira, rodando feito pião na busca de
explicação para tantos erros, tantas falhas, tantas vacilações, tantas trepadas
que deixou de dar por ser tímido, burro, covarde. Página
por página fui revendo as vacas de Alfonso, V
Ya lo verá usted. Em busca do fio condutor
para orientar-me no labirinto das lembranças, que inevitavelmente contém o
imaginário, vou-me agarrando às palavras ficcionais de Rulfo como um
desesperado egresso do silêncio de Luvina. Ao sobrevoar a imensa cidade a bordo da aeronave da Varig, sobre o dorso
intensamente iluminado de um animal fantástico, senti uma fisgada no cérebro
ainda tonto da longa viagem desde o Rio de Janeiro.
Estava nascendo uma
indagação, a necessidade de uma explicação. De quê? A concretização lenta dessa
indagação teve início no táxi que peguei para o hotel, quando o motorista, ao
saber que eu era brasileiro, perguntou-me por Pelé. Pelé? Ah, sim, Pelé, o
gênio do futebol. A intimidade que a pergunta exigia que eu tivesse com Pelé
levou-me à lembrança da Copa de futebol que o México houvera sediado, quando o
Brasil consagrou-se campeão num desempenho fenomenal. Comecei a verificar que
já havia nascido, no âmago de minha fragilidade latino-americana, aquela tal
indagação. A partir
daí passei a observar, como se o treinamento em observação que vinha obtendo
para ser um antropólogo razoável houvesse perdido o rumo, não mais ao meu
redor, mas as minhas próprias reações ao comer um taco apimentado de flores de
abóbora, percorrer as prateleiras infindáveis de obras de ficção nas
infindáveis livrarias da capital mexicana, ao voltar aos boleros da minha
adolescência, ao ouvir uma colega de mestrado perguntar-me o que eu achava de
Carmen Miranda, ao correr no parque de Coyoacán, ao colocar a dissertação do
curso de pós-graduação que fazia como bolsista em perigo definitivo, porque
estava cada vez mais submerso nos labirintos da criação artística, que ia de
Fuentes até os murais monumentais. O que essa indagação exigia para a sua
construção? Um dia,
indo de metrô até Insurgientes, veio-me à cabeça a idéia de fazer um poema, mas
a idéia não tinha qualquer origem olímpica. Inspirou-se na visão do homem
encostado à mulher, órgão sexual acomodado entre as nádegas fartas, quase à
porta do vagão, a gozar, rosto Depois do
poema pronto, lembrei-me de um dos maiores saques de Nietzsche, ao dizer que o
belo pode vir do feio, o limpo do sujo, o transitório do transcendental, dando
um tiro de misericórdia nas origens eternas dos idealistas. E fiz:
ENTRE CHAPULTEPEC E ZARAGOZA São raízes ou carris que guiam na escuridão de
minérios o ranger de
unhas? Entre década e outra, estação
e outra, uma curva e desabalada reta rodas
friccionam o verme elétrico
no capacete espanhol, Cervantes eletrocutado. São mesmo raízes ou minerais galvanizados? Sem dúvida a
morte é atmosférica e o ar vem por canais sepultados: pirâmides da
Calzada de los Muertos. Usinas das recordações
assassinas. A quatrocentos
por hora, o metrô. Dois velhos
morrem de sífilis, hijos de
la chingada.
Entre as pernas da mulher
sodomizada Cortês desce na
chegada. VI
O
parafuso impiedoso penetrando no meu quotidiano fazia o ruído do amontoamento,
sem parar, de dúvidas. Era a construção da indagação. Cada esquina, cada
ventania do inverno, cada pesero estufado de gente, mantinham uma interrogação.
O
desconforto que começou a ser gerado nos meus passos pelo Cerro de las Torres
em direção à universidade sinalizava outras viagens, uma mochila às costas, um
mapa da república. Então decidi colaborar comigo mesmo na construção do que eu
queria saber, mesmo sem saber em que consistiria isso que eu queria saber.
Deixaria de rodopiar por dentro de mim, passaria a viajar por estradas
verdadeiras, cortaria o país de norte a sul, de leste a oeste, do Atlântico ao
Pacífico. Talvez fosse o modo mais seguro de escapar da tentação de querer
decifrar o limite. Limite de
quê? Mas a
resposta a essa pergunta seria a própria maneira de substancializar a tal
indagação que começara com um taxista,
Pelé e a noite mexicana. Será que o que eu queria saber teria surgido no Rio de
Janeiro, no consulado do México, ao ouvir a funcionária dizer: Pretendes ir ao México fazer o quê? Na
segunda vez que viajei para sua pátria, ela decidiu convidar-me para sair à
noite no Rio de Janeiro. Tomamos chope, trepamos e gritamos vivas a Chihuauha,
pois o seu noivo canadense estava na Europa. Depois de
muitas viagens, de ter acampado em quase todos os rincões possíveis da
república, numa manhã, enquanto quase dormia num ônibus em direção a
Cuernavaca, repentinamente senti meus olhos abrirem-se, fixarem-se no teto do
veículo, que tinha uma abertura para entrada de luz e ventilação, e que dava
para ver nuvens passarem. Fiquei nessa posição alguns segundos, mas necessários
para concluir que eu não estava no México. Estava no México? O México
existia? Alguém
ligou um rádio no fundo do ônibus. Ouvi
então os compassos firmes de Dos Almas,
o que me remeteu, imitando a velocidade das imagens das nuvens passando
engolidas pela abertura no teto do ônibus, ao galope de uma indagação
inteirinha, reluzente e construída de amor, acalmando-me. Com ela a
resposta veio embutida. O México
de minha imaginação deixara de existir, soterrado ao peso de mim mesmo, o mais
novo mexicano daquele momento. |