litbr.com literatura brasileira

CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.


Noel
Ricardo Cruz
O mendigo Noel morreu pela madrugada. O corpo definhado jazia, de través, recostado à porta da igreja. Ao lado daquele corpo curvado sobre si mesmo numa posição – alguém poderia comparar – fetal, ardiam quatro velas, dispostas em cruz e já consumidas pela metade (um mistério sempre encobriu essas mãos anônimas que acendem velas para os mortos que tombam nas ruas). Dizia-se que Noel contava para mais de cem anos de idade. Chamava-se Noel por causa das longas barbas brancas, ou quase brancas, era difícil dizer-se, de tão encardidas. Também pelo volumoso e sujo saco de aniagem que costumava carregar às costas, cujo conteúdo ele jamais revelou a ninguém. Como portava um longo cajado lustroso do sebo de suas mãos e enfeitado com milhares de fitas coloridas, e milhares de pedaços de cordões de todo comprimento que em vida ia recolhendo pelas ruas, presumia-se que o saco estaria igualmente repleto de inutilidades recolhidas pelas sarjetas. As mães de família costumavam gritar para seus filhos indóceis e mal-criados se você continua assim vou chamar Noel pra lhe carregar pra sempre naquele saco. Havia tanto tempo que isso acontecia que na cidade talvez não houvesse um único adulto que durante a infância não tivesse sido ameaçado de semelhante sumiço. Ao menos uma vez. Talvez por causa dessa lembrança não houvesse nenhum ajuntamento, ninguém que se desse ao trabalho de velar pelo defunto Noel, como se aquele saco que ele mantinha sob o braço inerte para sempre pudesse de repente abrir-se como uma boca voraz e engolir quem dele se aproximasse. As beatas passaram ao largo, temerosas talvez de que algum eflúvio maléfico se desprendesse daquele corpo encolhido e sujo e viesse conspurcar-lhes as almas brancas e insípidas; avisadas a tempo, algumas outras mulheres sequer se arriscaram a comparecer à missa das sete, que naquele dia foi adiada para as nove, depois para as dez. O padre, tendo sido convocado a encomendar a alma daquele indigente, nem se deu ao trabalho: alegou imprevisto mal estar e avisou que compareceria mais tarde para o ofício durante o qual faria uma oração pela sua alma. Deixou de bom grado a encomenda a cargo do sacristão. As portas da igreja consagrada a São Francisco de Assis, naquela manhã, permaneciam fechadas. O sacristão, temeroso de que o azar se instalasse em sua vida, hesitava em abri-las, como fazia todas as manhãs e não se decidia a cumprir o que lhe ordenara o pároco. A caminho do trabalho as pessoas iam sendo informadas e assim a notícia percorreu a cidade: “Foi-se Noel, o mendigo”. “Ah, ainda bem, já era tempo...”, diziam uns, ou “Coitado, foi-se um dos cartões postais da cidade”, diziam os mais condescendentes, talvez a rememorar fotografias que por algum tempo circulou em alguma exposição de conhecido fotógrafo da cidade. De qualquer modo, condescendentes ou não, seguiam adiante, e logo ao dobrar alguma esquina não se importavam mais com ele.

O delegado não teve nenhuma pressa. Chegou acompanhado por dois auxiliares e assistiu ao sacristão, que enfim se decidira, a espargir água benta sobre o cadáver, ao mesmo tempo em que se benzia, repetidamente, fazendo o sinal da cruz. O delegado tirou do bolso um caderninho e começou a tomar notas. Aproximou-se, olhou o corpo, ordenou aos auxiliares que o revirassem para um lado, depois para o outro. Foi telefonar do bar da esquina. Aproveitou e pediu para lavar as mãos, ainda que não tivesse encostado um só dedo no morto. De lá mesmo, sempre anotando tudo, deu a ordem. Algumas crianças de rua acompanhavam aqueles procedimentos de longe, pelas quebradas das esquinas. Elas que costumavam perseguir o mendigo (sem que ninguém as impedisse ou as ameaçasse de sumiço) gritando seu nome e lhe atirando pedras e paus que eram amortecidos pelo volumoso saco que ele carregava às costas e que manejava como se fora um escudo contra aquela maldade. Servia-se do cajado de cordões e fitas para afugentá-las, e ao agitá-lo, todos achavam muita graça: parecia um velho espantalho a levantar para o ar o que parecia ser um imenso e seboso espanador. As crianças de rua continuavam silenciosas, a observar os procedimentos em torno do defunto. Talvez a visão daquela morte indigente lhes anunciasse algo de seus próprios destinos, quando chegasse a vez delas.

Às nove e meia o caminhão do lixo encostou à porta da igreja. Enquanto o motorista bocejava na cabine, dois dos lixeiros municipais, dos quatro que serviam o caminhão, já o haviam envolvido numa esteira de embalagem de mercadorias cedida por uma loja de eletrodomésticos. Sem muito esforço ergueram o embrulho que estampava a marca de uma geladeira, e o jogaram sem maiores cuidados para dentro da carroceria. Depois fizeram o mesmo com o saco e o bastão do velho. O caminhão arrancou para novas coletas do lixo da cidade e ninguém se preocupou em saber sequer em que vala comum o mendigo Noel foi sepultado.



VOLTAR