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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.


FATORES DA LITERATURA

Sílvio Romero


[...]

A popularidade imensa, e, em mais de um ponto, perfeitamente exagerada dos livros de crítica artística e literária de Hippolyte Taine, trouxe a crença geralmente admitida da capacidade mágica de três palavras para a explicação completa dos fenômenos literários e congêneres.

Meio, raça e momento são a trindade portentosa do criticar contemporâneo; servem para solver todas as dificuldades.

Onde encontram um fato qualquer fora do comum recorrem muitos ao meio, e o façanhudo fator aparece e arreda os embaraços.

Outros deixam de lado o meio e agarram a muleta do momento; alguns, finalmente, calçam as botas da raça.

Não quero, nem posso contestar a influência de qualquer destes fatores no desenvolvimento e na formação dos produtos literários. Bem pelo contrário, muitas vezes tenho recorrido também a eles e ainda agora vou de novo recorrer.

Mas sustento que, só por si, eles são incapazes de revelar, de esclarecer o problema, todo o segredo dos gênios e dos grandes talentos das letras...

Para torná-lo bem claro, não tenho necessidade de empregar grande esforço e pesquisar grandes recursos. É bastante olhar para uma fase qualquer de uma literatura notável.

Seja a Inglaterra, ou seja a Alemanha, ou seja a França em alguma hora decisiva do XIX seculo.

Tome-se o primeiro destes países nas três iniciais décadas do século.

O momento, o meio e a raça são os mesmos; como explicar só por eles Byron, Wordsworth, Shelley, Keats, tão diversos entre si?

Repare-se que não falo no escocês Walter Scott, nem no irlandês Thomas Moore.

Como explicar no romantismo de 1830, em França, Lamartine, Hugo, Musset, Balzac, Vigny, tão dessemelhantes. A raça, o meio e o momento foram os mesmos. É que nestas inquirições tomam-se sempre esses elementos como tudo, neles encerra-se a totalidade dos agentes e reagentes e esquece-se um fator primordial, um núcleo indispensável, uma força viva, um centro de energia, a individualidade.

Além da raça, que é geral para um povo, para uma nação dada, além do meio, que também é geral pelo menos para uma grande fração desse povo, além do momento que também é geral ao menos para cada geração desse mesmo povo, e preciso que o crítico assinale e dê conta de alguma coisa de inicial, de primitivo, de fundamental, a individualidade, que em cada homem é uma resultante obscura de toda evolução cósmica e humana, a resultante de um passado indeterminado pela complexidade inexplicável de sua indefinita duração.

Quero com isto apenas deixar assentado que os fatores de Taine não explicam tudo, que eles são muito bons apenas como agentes modificadores de um elemento importantíssimo, a individualidade, considerada esta como um centro, uma soma de energias, um núcleo de força e ação.

Assim considerada, ele escapa ao influxo da crítica, é uma espécie de pressuposto, de substratum irredutível.

Só os três fatores de Taine é que podem ser submetidos ao exame da história. Isto posto, qual deles tem mais contribuído para a formação, a especialização, a diferenciação do caráter brasileiro?

A raça, tenho sempre eu suposto; o meio, tem sempre respondido um inteligente e destro crítico brasileiro, Araripe Júnior.

Convém examinar isto.

"A questão da história da literatura nacional", diz ele, "mais do que outra, entendo só pode ser resolvida pela concentração das nossas vistas sobre o meio físico. É o único fator estável de nossa história, o único que se consegue acompanhar, sem soluções de continuidade."

Sinto estar em desacordo com o ilustre crítico. O meio físico, que também foi contemplado neste livro em capítulo especial, é para mim um agente de diferenciação, e, por isso mesmo, não o elemento estável e resistente.

A unidade nacional é garantida, a meu ver, pelos agentes morais e pela energia étnica.

Foram as qualidades morais e intelectuais do colonizador, ajudado pelas raças a que aliou sua cultura, suas letras; religião, legislação, costumes, indústrias, etc., que mantiveram o desenvolvimento unitário do Brasil.

Nosso problema histórico se me afigura ser este: indicar a formação do povo brasileiro, como um produto sociológico especial, distinto do português.

Para isto deve-se considerar, com os fatos, o colonizador europeu como o .elemento principal de nossa formação, e em seguida mostrar os elementos que se lhe juntaram, que o alteraram até certo ponto, produzindo o brasileiro.

É claro que se o português não sofresse aqui influência nenhuma estranha, o Brasil seria a reprodução de Portugal.

O brasileiro mostra-se, porém, diferenciado do português. Qual a razão? Por efeitos do meio físico principalmente, diz o Dr.Araripe. Por efeito principalmente das raças com que ele tem cruzado, digo eu, e parece-me que mais acertadamente.

O meio exerceu e vai exercendo, não resta dúvida, entre nós, grande ação; mas, sendo ele um agente primordial para a formação primitiva das raças e para a explicação das civilizações autóctones, nas civilizações transplantadas, sobre povos que imigraram já de posse de suas qualidades históricas, o meio físico, sendo um fator ainda muito importante, não é, contudo, o principal.

Existem disto provas por toda a parte.

Que é que mantém a diversidade entre os povos que na Europa ocupam a mesma zona e o mesmo clima há muitos séculos? Será o meio idêntico entre muitos deles? Evidentemente são as suas qualidades étnicas e suas tradições históricas.

Que é que estabelece a distância na América entre as nações que experimentam quase o mesmo clima? São ainda as diversidades de raça e de tendencias morais e intelectuais.

Os meios eram tudo para a humanidade primitiva e pré-histórica.

Uma vez estabelecidas as raças históricas, uma vez entrados, como estão, nos tempos atuais, os povos não são mais um joguete dos climas.

Há uma muralha que representa muitos milênios de luta em que a humanidade adquiriu todas as qualidades, que hoje a distinguem. Os climas passaram para o segundo plano e os agentes étnicos, fisiológicos e morais, tomaram-lhes a dianteira. Em nossa história o fator permanente, nos quatro séculos já percorridos, tem sido o português. Em sua passagem para o brasileiro, é ainda a um elemento etnológico, é à mestiçagem, que se deve pedir a explicação do fenômeno. O clima fica em segundo plano.

O clima, tomando-o na acepção mais geral, insisto em dizer, foi um agente valentíssimo na formação das raças e das civilizações autóctones.

Nas épocas propriamente históricas sua ação tem continuado; mas já não é apreciável, ou, pelo menos, não o é tanto quanto o fenômeno dos mestiçamentos dos povos.

Durante muitos milênios pode ele formar as raças pré-históricas e esboçar os povos atuais. Mas a sua ação e tao lenta, que não se deixa notar nitidamente nas civilizações modernas.

Duvido que haja um antropologista capaz de determinar com segurança quais as transformações experimentadas nos ultimos dois mil anos, pelas populações da Europa, transformaçoes produzidas so pelo clima.

Quais as modificações operadas pelo meio nos povos indo-germânicos, imigrados para o ocidente? A história não sabe responder.

Tão longe quanto é possível subir na corrente dos tempos, logo que os helenos, os latinos, os celtas, os germanos, etc., aparecem na história, já se nos antolham com seus caracteres distintivos. O mesmo pode-se dizer das velhas raças semíticas e das supostas turanas.

O mais assombroso exemplo da influência do clima que se conhece é a exercida sobre os arianos da Índia. Comparados aos da Europa, nota-se-lhes uma enorme distância. Mas, quantos milhares de anos não trouxeram o estupendo resultado? E este mesmo por sua lentidão é hoje apontado post factum e não foi coisa assimilável, dia a dia, pelos historiadores.

Há quatrocentos anos é o português transformado pelo clima... Até que ponto tem chegado esta modificação?

Não creio que haja quem possa responder. Só daqui a três mil anos será talvez possível ao futuro historiador dizer qual a deformação produzida nos arianos pelo clima deste país.

Mas então provavelmente esta terra terá passado por uma dúzia de mutações históricas, como a Grécia, como a Itália, como a Gália, como a Espanha, como a Bretanha. Ela provavelmente não será mais o Brasil, quero dizer, não será a terra da atual nação brasileira...

O povo atual se obliterará provavelmente nas raças absorventes do norte, nos anglo-saxônios e germânicos, por exemplo.

Na luta pela posse da terra não sei se os povos que nos obstinamos a chamar latinos estarão livres de outras invasões, à guisa das operadas no começo da Idade Média. Parece-me que não.

Haverá talvez só uma diferença: é que a invasão moderna vai-se fazendo lentamente pela colonização.

Não sei o que será dos povos fracos da América do Sul, quando os Estados Unidos e a Alémanha tiverem noventa ou cem milhões de habitantes e sentirem necessidade de despejar gente para as zonas meridionais.

Oxalá que nesse tempo tenhamos um povo feito e resistente, capaz de absorver aquelas sobras, sem perder a sua individualidade.

Em todo caso, o que a história então há de consignar com segurança é aquilo que hoje em dia já ela determina, isto é, as mutações e mesclas das raças. A ação do clima não podera ser seguida passo a passo.

Em nossa história de quatro séculos não sei que diferenças tenha o meio produzido no caboclo, no negro e mesmo no português. O que noto a olhos nus é o mestiço.

Este é o brasileiro por excelência, é o agente em torno do qual faço mover a nossa história literária e política. E nele evidentemente influi muito mais o contato das raças do que a ação do clima.

Esta é longínqua, apreciável a largos espaços e de dificultosa determinação, até no próprio futuro.

Suponhamos que, daqui a mais quatrocentos anos, as três raças primordiais de nossa população tenham-se entrelaçado completamente; que não haja mais caboclos puros nem negros puros; que uma sabiamente dirigida corrente de imigração branca nos tenha vindo ajudar nesta obra da obliteração das cores escuras; que o tipo brasileiro seja então bem caracterizado; qual será aí a obra da seleção étnica e qual a da seleção do meio?

Por certo a primeira será mais profunda.

Há, além de tudo, uma razão peculiar ao Brasil e é esta: o clima aqui nada tem mais a mudar no índio e no negro, que já são obras da zona tropical, nada quase terá mais a fazer com o mestiço, o genuíno brasileiro, que recebe dos dois povos tropicais os elementos de resistência.

Determinada assim a influência do fator etnológico, resta marcar, na obra da seleção étnica, o mestiçamento, quem mais tem contribuído; se o índio, ou se o negro. O Dr. Araripe ainda aqui se mostra em desacordo, dando a preferência ao caboclo. No livro sobre seu parente, José de Alencar, referindo-se ao incontestável predomínio dos mestiços de negro e branco entre nós, doutrina evidentíssima, por mim sustentada, veio ele com umas reduções, não de todo firmadas nos fatos.

Devo citá-lo para ser claro: "Com igual precipitação em um recente trabalho, aliás notabilíssimo, sobre a Poesia popular no Brasil, foi ele levado a dar ao elemento africano maior preponderância no nosso desenvolvimento estético.

Digo precipitação, porque o crítico não teve tempo de lembrar-se que, para decidir esta questão, seria necessário dividir primeiro o Brasil em zonas.

No Pará, Amazonas, Ceará e Rio Grande do Norte, por exemplo, o elemento negro é quase nulo; tudo cabe ao indígena; as influências daquela raça apenas chegaram ali por contragolpe.

No Rio de Janeiro, Bahia e Minas, é onde pode ter lugar a aplicação do negrismo em toda a sua plenitude.

Não se trata de aplicação de negrismo; trata-se de determinar a formação dos brasileiros como um povo à parte, distinto do português, e, para isto, buscam-se os fatores da operação.

O português entrou em uma evolução de diferenciação de seu tipo originário pela ação meio físico, do negro, do índio e das correntes estrangeiras. É o fenômeno complexo que se quer determinar e não somente a estética do brasileiro, ou a aplicação do negrismo... expressão injuriosa e de mau gosto.

Pondo em balanço a influência do negro e a do índio, sou levado, pelos fatos, a dar a preponderância àquele contra este.

No Brasil só as extremas terras das fronteiras é que abrem uma exceção positiva. São as províncias pouco povoadas do alto norte e do oeste, onde o índio comporta ainda inútil e donde será expelido, logo que o branco e o negro ali penetrarem amplamente. É o caso do Amazonas, Mato Grosso, e, até certo ponto, de Paraná, Goiás e Pará. Do Rio Grande do Sul o índio tem desaparecido, mas ali o branco predomina.

A mestiçagem com o negro entra na fórmula que tracei: Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, S. Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e o próprio Ceará e Piauí.

Ainda mais: a influência etnográfica da mestiçagem do negro com o branco tende a ganhar terreno nas províncias em que o caboclo ainda vive mais ou menos desassombrado. A colonização do Brasil vai de leste para o poente e a vez de renderem-se os últimos redutos do caboclo há de chegar. Não há precipitação de minha parte; há apenas a consignação de fatos positivos.

Onde é, entre nós, maior a população, maior é a mestiçagem de origem africana e portuguesa. Bem se vê que o alto norte e o longínquo oeste ficam fora da fórmula.

O fato do predomínio no Brasil povoado da população oriunda do mestiçamento das raças branca e negra tem sido contestado acremente e é, pois, necessário insistir para estabelecer a verdade."

O Dr. Araripe Júnior tem neste ponto sido um constante adversário, cujos argumentos merecem sério e detido exame.

Minha afirmação foi sempre esta: no Brasil a maior parte da população é de mestiços; entre estes, no corpo colonizado de nosso solo, predomina a mestiçagem áfrico-lusitana, e são uma exceção apenas as regiões do alto norte e do extremo ocidente, onde o caboclo puro e ainda mais ou menos abundante e donde será expelido o quando o branco e seu auxiliar negro ali penetrarem amplamente.

Nas regiões povoadas, próximas das zonas extremas do norte e oeste, o mestiçamento do branco e índio é talvez igual ou um pouco superior ao do branco e negro. Mas isto é a exceção; o resto do país entra plenamente na minha fórmula.

O fenômeno que hoje se passa diante de nossos olhos depois de quatrocentos anos da descoberta é eloqüentíssimo. O índio desapareceu de toda a região verdadeiramente povoada do Brasil ante a concorrência do branco e do negro. Morreu, sumiu-se, em parte obliterou-se nos cruzamentos.

Sob este ponto de vista, o Brasil pode ser dividido em três seções:

a) Estados donde o selvagem puro desapareceu já totalmente, deixando alguns descendentes no mestiçamento geral;

b) Estados onde ele existe puro em pequenas levas acantoado em regiões desertas e tem alguns representantes no mestiçamento;

c) Estados onde existe puro em número pouco considerável internado em desconhecidos recessos, e em número mais considerável desfigurado nos cruzamentos.

No primeiro caso estão as províncias do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Na segunda hipótese estão Santa Catarina, Paraná, S. Paulo, Minas, Bahia, Espírito Santo, Piauí e Maranhão.

Na terceira acham-se Pará, Amazonas, Mato Grosso e Goiás. Eis aí os vinte Estados da República.

A fórmula é, pois, aplicável a todo o país; menos às fronteiras do norte e do oeste, que, mais tempo menos tempo, acabarão por entrar na regra geral.

[...]

O índio brasileiro está condenado à sorte dos povos da Polinésia. Ali não só o homem desapareceu ante o concurso europeu, como ainda desapareceram algumas espécies animais e até vegetais com a introdução das espécies estrangeiras. É fato provado por centenas de viajantes e que M. de Quatrefages pôs a limpo na Revista Científica de Paris, de 9 de junho de 1877.

O índio não é ainda plenamente entre nós um objeto de ciência; é antes, e acima de tudo, um assunto de poesia. Exceção feita dos trabalhos lingüísticos de Batista Caetano, alguns estudos de Couto de Magalhães e Carlos Hartt, sob o ponto de vista etnográfico, tudo o mais que no Brasil se tem escrito à conta do selvagem, e sem mérito absolutamente.

E se a questão é de amor para com as raças que constituíram o nosso povo, por que motivo não se estuda o negro, como se estuda o índio? Por que motivo em nosso Museu não há uma seção africana? Por que não se investigam as línguas dos negros, sua poesia, seus contos anônimos, seus usos e costumes, suas adagas e festas, suas idéias religiosas, etc.?

É que para esta enormíssima injustiça contribui com toda a sua força a massa imensa do prejuízo nacional... Ninguém tem a coragem de estudar o negro para não passar por eivado de casta... Esta é a questão e, muitas vezes, o maior defensor do índio contra o negro é o pardo evidente e carregado!

É ainda um resíduo do romantismo. O Dr. Araripe, folgo em reconhecê-lo, não participa grandemente da mania indiana.

Hoje defende o caboclismo mais por uma tradição da escola a que pertencera em sua puerícia literária do que por uma preocupação sistemática.

A verdade é, em geral, que se deseja fazer do estudo do selvagem uma especialidade. O intento pode ser em certo sentido louvável, mas tem sido improfícuo.

Não possuímos ainda a calma necessária, nem os métodos precisos para abordar o estudo das raças selvagens objetivamente, como um problema puramente antropológico ou histórico. Sonhamos ainda e sempre um Brasil tapuio.

Se na própria Europa e nos Estados Unidos os grandes estudos americanistas são ainda muito incertos; se os imensos trabalhos sobre as civilizações do México, Guatemala e Peru são na máxima parte flutuantes, como se depreende de todos os congressos europeus, o que não se dará com o Brasil, sem especialistas, sem escolas adequadas?

Dá-se o que se tem visto: hipóteses fantasmagóricas e absurdas, frases, frases e mais frases...

Ainda não há muito a Exposição o demonstrou. O espécimen pré-histórico velho de muitos milênios, pertencente, por certo, a uma raça diferente do índio do tempo da descoberta, achava-se mesclado aos espécimens dos tempos coloniais e até aos pertencentes às populações mestiçadas da atualidade!

Apesar da boa vontade do pessoal do Museu, dali não surgiu uma destas obras imponentes e decisivas que pudesse elucidar de uma vez os problemas e trevas que cercam as nossas raças selvagens. Não critico; assinalo apenas um fato.

Como quer que seja, porém, e a despeito das dificuldades, os estudos americanos, apesar de imperfeitíssimos, acham-se iniciados entre nós, protegidos pelo romantismo e em grande parte pela fatuidade nacional, que ainda adormece no ledo sonho de julgar-se indígena...

É velha mania da nobreza tupinambá de que muitos brasileiros são ainda em extremo afetados.

No tempo da Independência a moléstia chegou a seu auge, e até mulatos, como o finado Francisco Gomes Brandão, tomaram nomes indígenas. Ele chamou-se Acayaba de Montezuma.

Um disparate, como outro qualquer.

Louvo os estudos americanos; mas como estudos, não como pasto a veleidades étnicas.

Deveríamos também iniciar os estudos africanos. O negro, espalhado pela África e América, é uma raça que oferece interessantíssimos problemas.

Muitos sábios europeus, seguindo o exemplo de Bleek, atiram-se a estas pesquisas. Façamos o mesmo. O negro e seu parente mestiço tocam o nosso povo bem de perto. Não sejamos presunçosos, nem tenhamos medo de dizer a verdade.

O predomínio aparente do indianismo na civilização brasileira é um velho prejuízo, difícil de extirpar. Causas numerosas e especiais contribuíram para arraigá-lo, e hoje ainda ele está de pé.

Estriba-se falsamente em razões literárias, históricas, geográficas e sociais. Na literatura aparece como um protesto contra os invasores; vêem-se no índio a encarnação do gênio do Brasil e o nativismo traduz no caboclismo.

Na história apela-se para o número avultado das tribos primitivas, e recorre-se a grande porção de aldeamentos dos selvagens catequizados na zona colonizada. É embalde que se demonstra serem as enumerações dos velhos cronistas inexatas, tomando eles simples denominações de famílias e de variedades de um só grupo por outras tantas tribos e nações diversas.

É embalde que se mostra a decadência progressiva dos aldeamentos e sua extinção quase completa desde o século XVIII.

Sempre o prejuízo vai fazendo seu caminho.

Na geografia apela-se para os nomes tupis que abundam em nossa carta, sem reparar que esse fenômeno natural nada prova, além do respeito a tradição. Na esfera social o índio tem mais simpatias, deixou há mais tempo de ser escravizado e, por ser menos escuro do que o negro, é mais querido.

O caboclo é mais idealizado, mais estudado, mais conhecido.

Sonhamos um Brasil tapuio, disse eu, e não reparamos que desejamos o mal. Todas as nações americanas em que o elemento europeu não predomina, como o México, Peru, Equador e Bolívia, são as menos progressivas do continente. Não podem competir com os Estados Unidos, o Chile, a República Argentina e o próprio Brasil.

Devemos desejar que em nosso pais a imensa mestiçagem da população seja habilmente reforçada pelo elemento branco. Mas historicamente é de justiça e verdade conferir ao negro papel eminente do que ao botocudo, ente fraco, desequilibrado e prestes a extinguir-se. É luta pela existência; o mais débil devia ser devorado. O exato conhecimento de nossas condições etnográficas facilita a compreensão dos tipos literários.

In História da literatura brasileira





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