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CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.



ADEUS, RUBEM

Valdomiro Santana



Levei mais de trinta anos para falar com você — e, neste dezembro desarvorado, lhe escrevo duas cartas. A primeira, dia 9; como eu não tinha seu endereço (sabia que morava só, numa cobertura na Rua Barão da Torre, em Ipanema, cercado de pés de frutas e passarinhos, mas ignorava o número do prédio), remeti aos cuidados de sua editora com o recorte do que escrevi sobre As boas coisas da vida, sua última coletânea de crônicas, em minha seção “Livros”, de A Tarde. A coletânea saiu em 1988 e minha resenha há um mês, porque só recentemente assumi a seção.
       Sim, uma resenha extemporânea — o que não calha com o jornalismo. Este só se interessa pelo que deixa de ser interessante em poucos minutos — memória e amnésia de tudo. Você, ao contrário, soube ver no cotidiano o que jornalista nenhum nunca viu: a vida. Ou “as fontes da vida”, como bem disse o Otto Lara Resende, seu amigo. Depois vieram com aquela história de que você criou o “jornalismo de autor”. Mais um clichê nesse imenso e ultratedioso clichê que é o jornal, nossa pobre e melancólica ração diária. Não, não vou lhe dizer que espaço lhe dedicaram os jornais para registrar e comentar o que houve às onze e meia da noite de 19 de dezembro de 1990, num quarto do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. “Esqueçamos as coisas mortificantes: o silêncio torna tudo menos penoso”, você disse uma vez; e acrescentou: “lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus. A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo”.
       Mas veja, Rubem, a ironia. A extemporaneidade ilude sua própria condição aprisionante de palavra — e busca ser outra: vadia, fagueira, sempre renovada, no território sem fim desse reino da linguagem. E o que fica? Mais uma tenda no deserto. Mais um oásis.
       Fica o que você foi e é: o artista maior da crônica, porque intemporal. Um dos poucos escritores que, em nossa literatura, junto com Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Pedro Nava, merecem ser lidos a vida inteira.
       Como provavelmente você não recebeu minha carta, nesta — que não precisa de correio, pois lanço as palavras ao vento — saiba o que sucedeu com um menino de nove anos. Foi em São Miguel Paulista, no ligeiro frio de maio de 1956. Um dia, meu pai chegou em casa com um jornal, acho que o Diário da Noite, e concentrou-se num texto: “O padeiro”.
       “Esse Rubem escreve bem como o diabo”, disse — e deu-o para minha, que o leu na hora e comentou: “Formidável como sempre”. E repetiu: “Formidável”.
       Foi a primeira vez que ouvi esta palavra, e intuí o significado. Eu era o único menino que, no Grupo Escolar da Vila Nitro-Operária, sabia o que era “formidável”. E me senti não-sei-o-quê — eu que já fazia todas as misérias de um menino de nove anos, naquele tempo. E habilitado para ler a crônica.
       “Levanto cedo, faço minhas abluções [...]” Esta quinta palavra jogou areia no meu “formidável”. Debati-me em vão perguntando-me que trem ela poderia significar. Meio murcho, meio solene, recorri a meu pai. No dia seguinte, cedo, todo compenetrado, anunciei antes do café: “Já fiz minhas abluções”. Era muita solenidade, e meu pai arregalou os olhos; minha mãe, que sempre foi irreverente, porém doce, caiu na gargalhada — mas logo me beijou, segurando meu rosto com as duas mãos.
       Obrigado, Rubem, por esta emoção de 34 anos que ainda borbulha dentro de mim, e continuará borbulhando, como “a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre”. Quando vinha deixar o pão à porta dos apartamentos, tocava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando: “Não é ninguém, é o padeiro!”. E vinha e ia assobiando pelas escadas.
       Adeus, velho Braga.


Dezembro, 1990.

In: Pastelaria Triunfo. Feira de Santana: Edições Cordel, 2005.



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