litbr.com literatura brasileira

CAMPANHA PRÓ-LIVRO
É mister comprar e ler livros, ou as livrarias fecham, as editoras param, esvaece a cultura, fenece a nação.


A menina Tulasi

Valdomiro Santana


Para Carlos Machado


       Dois dias depois, na manhã de terça-feira, 28 de dezembro de 2004, os repórteres que cobriam o tsunami deram a notícia: “Uma menina da Malásia foi encontrada viva num colchão que flutuava sobre um metro e meio de água. É um bebê de 20 dias. Chama-se Tulasi e está bem”.
       Foi então que a câmara de uma TV sueca parou muito depois daquilo que era uma aldeia; viera correndo por cima dos destroços que boiavam na imensidão cor de bílis; percorrera mais de duas léguas de uma estrada de terra, mostrando a safra de gente morta nas mais incríveis posições, pavorosa legião de acrobatas do desespero, desfigurada, coberta de lama... e gente viva indo e vindo, esbarrando, trêmula, trincando os dentes...
       E gente viva paralisada, lívida, oca, porque para elas o tempo escorrera, e o espaço era agora sem intimidade, como aquele homem que perdera a mulher e os oito filhos, o maior tinha 10 anos... e depois de mostrar olhos secos de tudo, blasfêmias, soluços, estupor, o vaivém das escavadeiras, em suas lagartas de aço, colhendo e empilhando separadamente detritos e cadáveres; caminhões e ambulâncias da Cruz Vermelha; fogo e fumaça preta subindo em linha reta, ininterrupta, porque vento nenhum soprava, e o fedor era de cortar de faca... a pira dos mortos crescendo... a câmara chegou a um abrigo que era um vagão abandonado num trecho de floresta e subiu bêbada os degraus enferrujados, chocou-se com um balaústre, recuou, quase caiu, bateu-se em ventres suados, pedaços de plástico, roçou cabeças, miçangas, farrapos, até alcançar o rosto redondo de uma mulher de 19 anos — testa proeminente, olhos castanhos amendoados e miúdos, cabelos lisos até a cintura, seios túmidos sob um vestido de chita — em cujos braços, aninhadinha, estava sua menina de 20 dias.
       Enquanto essa menina dormia num pequeno quarto de tábuas, a menos de três quilômetros da praia, sem que ninguém esperasse, na manhã daquele domingo 26, no mar azul-turquesa e manso, morno, assim estirado até a linha do horizonte, houve um fragor surdo e confuso, logo seguido de um barulhão múltiplo. Um turista canadense, que estava num morro perto da praia, viu e filmou o recuo de uns dois quilômetros do mar. “As águas costeiras foram sugadas; achei aquilo fantástico, e numa grande extensão levantou-se uma parede imensa, uns trinta metros de altura, que em segundos chegou à praia e invadiu a terra...”

       E você dormindo no que era sua aldeia...

       Não foi uma onda única, mas uma série de ondas gigantescas. “Para entender o que é um tsunami”, explica um geofísico italiano, “pense numa panela de pressão cuja válvula reguladora é obstruída enquanto aumenta o calor gerado pelo fogo. A pressão interna vai aumentando proporcionalmente ao acúmulo da energia potencial. Então se rompe algum ponto da estrutura da panela e há uma grande explosão. A energia liberada nesse tsunami foi equivalente à de cinco mil bombas atômicas (e cada uma com 60 milhões de toneladas de TNT) como a que arrasou Hiroshima”.

       Você, dormindo...

       O abalo de 9.1 graus, no fundo do oceano Índico, mudou o eixo de rotação da Terra, deslocou ilhas, com um tsunami que engoliu não sei quantas, atravessou 6.500 km a uma velocidade de 800 km por hora; em segundos matou mais de trezentas mil pessoas em 13 países, oito no Sudeste da Ásia (Indonésia, Malásia, Tailândia, Mianmar, Bangladesh, Índia, Sri Lanka, Maldivas) e cinco no Leste africano (Quênia, Seychelles, Somália, Tanzânia, Madagascar); alterou marés até no Chile.
       Salva e sã num colchão a flutuar e agora no colo de sua mãe, essa menina dormindo é a feliz encarnação da imagem que leio (vejo) nestes versos de Drummond:


A dileta circunstância
de um achado não perdido,
visão de graça fortuita
e ciência não ensinada...

       Então me senti pai de novo, contemporâneo do homem que fui aos 24, 33, 35 e 36 anos, em cada um de meus filhos — festa única de minha pele e da pele deles, uma menina e três meninos. Durou e coexistiu em mim o tempo de cada um deles ao se gerar, nascer, crescer, e em segundos reconquistei minha pele no que não volta em 34, 25, 23 e 22 anos, que são agora os anos deles — uma mulher e três rapazes.

       Como, se não fosse você, eu intuiria que o que passa e vai para a morte é o presente, o atual sempre objetivo, sentido no tempo, mas não o passado, pois este se conserva e retém o germe da vida, o tempo em pessoa, o puro virtual?
       Não foi na imagem-lembrança, mas na imagem pura de você, nos braços de sua mãe, que eu pude me dar conta: estamos na memória, e não o inverso; na memória-ser, na memória-mundo, todos nos movemos. Na memória-colchão-a-flutuar.
       Impossível, se não fosse você, eu me dar conta daquele tempo que não havia escorrido, e deste coração estranho e familiar, o mais longínquo e o mais interior, coração único desta pele única.


       Não mais há o que dizer sobre o curso desses dias, entre 26 de dezembro de 2004 e 30 de janeiro de 2005. Pois, como avaliar a extensão e profundidade da desgraça de 30 bilhões de toneladas de TNT? E constatar que, para além da abjeção, à luz crua e à sombra deste número mais que sinistro, houve ladrões, seqüestradores e estupradores?
       Entretanto, esse duplo inferno foi incapaz de cancelar, poucos dias depois, o Réveillon. Como se a colheita de mortos não mais prosseguisse e a humana humilhação tivesse deixado de existir na noite de 31. Como se o dia 1º fosse mesmo o despontar de um ano novo.
       Assim vazio o rito dessa passagem para o que não era senão o nada mais desolador, ou mais tétrico, à medida que baixavam as águas e se removiam escombros, cumpria comemorá-lo, entulhá-lo com júbilo enlatado e a profusão de foguetes, fogos de artifício, shows, roupas, comidas e bebidas de luxo. E só 1 minuto de silêncio foi feito para lembrar os mortos e os que viraram seres fantasmagóricos porque perderam, da maneira mais atroz, um, alguns, todos os entes queridos.
       Ó migalha de 1 minuto, que cara foi a vossa e que sentimento pudestes expressar diante dessa dor e de seu cortejo de demências?
       A despeito da solidariedade que houve, incapaz de suspender um festim estúpido e mesmo cruel, de corresponder ao vazio de humanidade a doer no peito dos que perderam seus entes queridos, de tornar sagrados os sítios em que foram achados esses mortos, é ainda possível conjurar, na franja dessa migalha de 1 minuto, o esquecimento da lição trazida por essa tragédia e a das que lavram diariamente, naturais ou fabricadas pela indústria global da miséria.
       Na longa noite do tsunami, um vagão velho e abandonado. Uma guirlanda de luzes pálidas. Como quem faz silêncio dentro do silêncio, na espessura e leveza encantatórias desse nome, entre o acaso do espanto e o da sagração da vida com o gosto humilde da alegria, saudemos a menina Tulasi.

Janeiro, 2005



VOLTAR