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ÚLTIMA ALTERAÇÃO: 08/02/2010




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Bailarinas de azul
Edgar Degas (1890)
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E N T R A R

LIGUE O SOM


ALIÁS,

(conto)

Onze horas da noite o salão apagado e vazio todas as portas e janelas trancadas não havia qualquer sinal de vida nada animado nenhum cão nenhum inseto nenhuma planta nem sequer uma flor apenas objetos mesas cadeiras toalhas pratos talheres duas garrafas de vinho tinto uma de cachaça três de uísque alguns copos e taças empilhados em um pequeno balcão o banheiro fechado dois corpos molhados deitados de bruço totalmente ignorados o que só deixaram de ser no instante em que ele que acabara de entrar deparou-se com a cena verificou que estavam mortos os corpos ainda quentes havia acontecido pouco tempo antes olhou em volta ninguém presente o salão vazio as janelas cerradas as portas trancadas a mesa forrada com toalha quadriculada em forma de xadrez quadro branco quadro preto duas flores no jarro apenas duas não mais do que duas a almofada vermelha cor de sangue no sofá vermelho de sangue ainda fresco que poderia ser o dele ou o dela ou de ambos os corpos inertes postados de bruço o relógio marcando o tempo decorrido desde o instante em que tudo acontecera as baratas cruzando o salão diagonalmente uma mosca pousada no bolo outra no copo as recentes dores ainda presentes nos corpos inertes deitados de bruço o tapete vermelho manchado de sangue na parede uma reprodução de “Guernica” no teto o lustre de cristal agora aceso os corpos nus abraçados no derradeiro abraço o último de todos os que se deram desde que se conheceram naquela noite chuvosa apenas dois anos antes em plena avenida ela sozinha ele acompanhado da mulher que não gostou da gentileza os corpos inertes postados no chão do salão banhados de sangue encharcados de memória lembranças de coisas acontecidas no passado recente a viagem à Europa o contrato para uma temporada em Varsóvia o “Réquiem” o retorno inesperado em virtude da morte da filha as flores no túmulo as duas taças na mesa as portas fechadas as janelas trancadas estavam todos ali sentados quando ela entrou olhou rapidamente para ele e para ela abriu a bolsa tirou a arma desferindo dois tiros contra os corpos e um contra a própria cabeça.

Fernando Kraichete
In Contos librianos
(obra registrada)



OUTROS CONTOS DO AUTOR


Fernando Kraichete

Nyx e a noite



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Eu não a matei. Juro que não a matei, mas todos acham que sim, a televisão diz que sim, os jornais dizem que sim, todos dizem que sim. Eles não sabem de nada, quem sabe de tudo sou eu. Eu sei o que aconteceu, eu sei a razão porque aconteceu. Eu sou o senhor da verdade. Mas eles acham que estou mentindo. Eu não estou mentindo, eu juro que não estou mentindo. Outro dia estive lá e acharam muito estranho eu ter aparecido. Não entendi, confesso que não entendi. Afinal de contas, eu sempre apareci. Eu sempre estive lá. É isso que eu digo, está todo mundo enganado a meu respeito.
*
Preso estou eu a ela, de tal maneira que não consigo me libertar. Não pretendo viver junto. Junto vivi com meus pais, com minha mulher quando deles me libertei, com meu filho quando dela me libertei, até o dia em que ele decidiu abandonar a casa e viver com a amante. Nesse dia raiou a minha liberdade. A partir daí, vivo só, sozinho em minha casa, sem ninguém a me incomodar, sem ninguém a me cobrar, sem ninguém a me obrigar a fazer coisas que não tenho a menor disposição de fazer. Quem comigo convive é a fria geladeira, o mudo rádio, o fogão que nunca esquenta.



Como não sentir saudade?
Dos bons tempos, dos bons momentos, dos desentendimentos que sempre terminavam em orgasmo.

In Nyx e a noite
(romance)


OUTROS ROMANCES DO AUTOR

Artigos - Contos - Crônicas - Entrevistas - Poesias - Romances
Vídeo sobre Machado de Assis
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Memórias póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis (1881)
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Fernando Kraichete


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